Confissão: III- “A minha paz vos dou”

A paz de Cristo

            Ao despedir-se dos Apóstolos na Última Ceia, Jesus lhes disse estas belas palavras, que se recordam em todas as Missas: A minha paz vos deixo, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize! (Jo 14,27).

            Jesus nasceu trazendo paz – paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14) – e despediu-se dando paz. Vai em paz!, diz também à mulher pecadora, depois de lhe perdoar os seus muitos pecados (Lc 7,50). É evidente que Ele quer que a Confissão seja uma fonte inesgotável de paz para as almas. Portanto, não quer que nos angustiemos com dúvidas e confusões, quase sempre causadas por mal-entendidos (na realidade, por falta de doutrina).

            A reflexão de hoje vai versar sobre alguns desses mal-entendidos. Vamos ver um elenco das dúvidas mais comuns. Espero que o esclarecimentos o ajudem, e lhe proporcionem idéias para ajudar a outras pessoas.

1) Pecados duvidosos

            Não é raro ter dúvidas de dois tipos:

            a) «Será que este pecado é grave, ou é só leve?»

            b) «Será que cometi um pecado grave ou foi só uma tentação?»

            Nada como a doutrina para formar a consciência e esclarecer essas questões. Lembre-se sempre de que a Igreja ensina que, para que exista pecado grave, devem dar-se, simultaneamente, três condições: «matéria grave», «plena consciência do que se faz» e «consentimento deliberado» (CIC n. 1857).

            «Matéria grave». Uma pessoa formada sabe que é grave fazer a alguém uma ofensa séria, divulgar faltas graves do próximo que outros não conhecem, dizer mentiras que causem danos a outros, ter condutas injustas (não pagar o que é devido, trapacear nos negócios, eliminar o justo ganhador de um concurso ou concorrência por motivos escusos, praticar sexo fora do casamento, abortar, etc, etc.). Em caso de dúvida, deve consultar-se um bom confessor.

            «Consciência plena do que se faz». Não pode ser grave um pensamento, sentimento ou gesto maus que ocorreram durante o sono ou num estado de semi-inconsciência. Também não costuma ser grave uma reação súbita de ira perante ume estímulo inesperado (o fato de não ser grave não significa que seja coisa boa, mas quer dizer que não faz perder o estado de graça e, portanto, não impede de comungar).

            «Consentimento pleno ou deliberado». É bom recordar que uma coisa é sentir e outra consentir. A tentação pode-se sentir, até com violência (por exemplo, sentir com força – sem o querer nem o procurar – o desejo de agredir uma pessoa; ou um pensamento, fantasia ou desejo contrário à castidade). Mas, mesmo que a tentação seja insistente (que volte uma e outra vez, pegajosa como uma mutuca), não haverá pecado, pelo menos pecado grave,  enquanto não for aceita, enquanto não se «quiser» deliberadamente («quero mesmo fazer isso», «esse desejo sexual, se eu pudesse, levaria à prática»). Alguém dizia, de modo expressivo: «Primeiro você sentiu a tentação e, sem reparar, deteve-se um pouco nela, mas logo se acendeu na consciência o sinal vermelho: “Isto está errado, isto ofende a Deus”. Se, ao perceber o aviso da consciência, você repudia a tentação, reza e luta firmemente por afastá-la, esteja certo de que não pecou gravemente».

            Ainda sobre os pecados duvidosos, lembro-lhe que a Igreja ensina que não há obrigação de confessá-los, embora quase sempre seja bom mencioná-los na confissão para obter critério, mas «o certo deve ser confessado como certo e o duvidoso como duvidoso». Caso sofra do tormento da dúvida doentia, ou seja, do escrúpulo, peça ajuda a Deus e siga fielmente as orientações do confessor. Quando for o caso – pois os escrúpulos angustiantes podem ser um doença – consulte o médico.

2) Confissões duvidosas

            Há certas confissões que não são duvidosas, porque são certamente más. Lembre a esse respeito o que sempre nos ensinou o catecismo: A confissão é mal feita quando nela se oculta um pecado mortal ou não se tem arrependimento dos pecados. Quem, por vergonha ou medo, tivesse ocultado um pecado grave, ou mentido em matéria grave, não alcançaria o perdão de nenhum pecado e cometeria um sacrilégio. Por isso, deve repetir a confissão mal feita e todas as outras que tiver feito depois.

            Uma coisa completamente diferente é o caso da pessoa que de repente se lembra de um pecado antigo, grave, e tem quase certeza de que nunca o confessou. A solução é simplicíssima: basta explicar o que aconteceu e acusar esse pecado na próxima confissão que fizer. O mesmo procedimento deve-se seguir quando a pessoa, depois de se confessar com contrição, repara que esqueceu involuntariamente de mencionar um pecado grave. A confissão fica sendo boa e válida. Só tem o dever de confessar o pecado esquecido na próxima confissão.

3) Sobre a penitência

            Não é raro que aconteça alguma dessas três coisas:

            A) Esquecer-se da penitência que o confessor impôs. Pode-se seguir uma das seguintes soluções: se puder, pergunte posteriormente ao confessor; se não puder falar com ele, reze uma penitência parecida com a que o confessor lhe costume dar em confissões análogas; ou então, fale disso com o padre com que fizer uma nova confissão; ele dará, normalmente, uma penitência pela confissão passada e outra pela atual.

            B) Outro caso. Aconteceu que o confessor, com a maior boa vontade, deu-lhe uma penitência que, honestamente, você não pode cumprir sem graves inconvenientes. Então você tem duas soluções: uma é pedir a esse mesmo confessor o favor de trocá-la por outra que seja viável; a outra é pedir isso a um outro confessor: qualquer confessor tem a faculdade de fazer essa troca.

            C) Não cumpriu ainda a penitência recebida na última confissão quando vai à Missa; na hora, acha que sem ter cumprido a penitência não pode comungar. Não é assim. Para a confissão ser válida (e estarmos em condições de comungar), basta ter o propósito sincero de cumprir a penitência recebida logo que possível, ou logo que nos lembrarmos. Não tendo havido omissão por má vontade, comungue com paz e cumpra depois a penitência.

Posso comungar e confessar-me depois?

            Se, infelizmente, tiver algum pecado mortal, não pode. A Igreja ensina isso claramente, e até em tempos antigos excomungava o padre que dissesse que fazer isso estava certo. O Catecismo da Igreja Católica recorda-o claramente: «Aquele que tem consciência de ter cometido um pecado mortal não deve receber a Sagrada Comunhão, mesmo que esteja profundamente contrito, sem receber previamente a absolvição sacramental, a menos que tenha um motivo grave para comungar e lhe seja impossível chegar ao confessor» (n. 1457).

            Este último caso se daria, por exemplo, se uma pessoa acidentada, vítima de um mal súbito, etc., estivesse em perigo de morte e não se achasse sacerdote que pudesse atendê-la; só está disponível um ministro leigo: este pode dar-lhe a comunhão, após ajudar a pessoa a fazer um ato de contrição. Outro exemplo seria o caso daquele pai ou mãe que, tendo-se preparado para acompanhar a Primeira Comunhão de um filho, no próprio dia da celebração, ou poucos dias antes, teve a desgraça de pecar mortalmente, e não conseguiu um padre que o confessasse antes dessa Missa especial. Também poderia comungar.

Basta a «confissão comunitária»?

            Neste tema, em que já houve e ainda há enorme confusão, nada melhor que ater-se fielmente à doutrina da Igreja Católica.

            Há dois casos diferentes:

            A) A «celebração comunitária» da penitência. Dentro da igreja ou capela, os fiéis ouvem a palavra de Deus , rezam e se preparam para confessar-se e agradecem em conjunto, mas, num dado momento, cada um, individualmente, vai confessar-se com algum dos padres presentes e recebe dele a absolvição (nestes casos, costumam reunir-se vários sacerdotes): cf. CIC, n. 1482. É uma celebração lícita e louvável.

            B) «Absolvição geral sem confissão individual». Só é lícita em caso de «necessidade grave». O Catecismo (n. 1483) cita o «perigo iminente de morte» (p.e., um avião em perigo, um naufrágio, um terremoto, um incêndio), ou situações extremas, como pode ser – caso isso aconteça – a de uma comunidade de fiéis que moram isolados na floresta amazônica, e só recebem, de passagem,  a visita breve de um padre uma vez por ano, sem tempo de se confessarem com ele.

            Mas «um grande concurso de fiéis – afirma o Catecismo – por ocasião das grandes festas ou de peregrinação não constitui caso de tal necessidade grave»

            Nestes casos, porém, a absolvição só será válida se os fiéis, além de estarem contritos, têm o propósito firme de se acusar individualmente dos seus pecados graves e de receber pessoalmente a absolvição na primeira oportunidade que se lhes apresentar..