Virtudes humanas

[PARA TER VIRTUDES]

3. VIRTUDES E HUMANAS

Boas estruturas

Queixava-se um amigo: – “Faz várias semanas que não consigo trabalhar direito, porque a poucos metros da janela funciona um bate-estaca que me tira a concentração”.

Lembrei-me dessa conversa, porque – inspirando-nos na analogia usada por Cristo –, nestas reflexões, estamos comparando as virtudes a um “material de construção” .

As “estacas”, como você sabe, costumam empregar-se em fundações profundas de grandes edifícios. Sobre elas, como base segura, erguem-se os pilares, e a estrutura toda assim se firma, garantindo a solidez da construção.

Creio que podemos comparar as estacas às virtudes humanas, também chamadas virtudes morais. Como indica seu nome, são “virtudes de homem” (naturalmente, tanto mulher como varão), que forjam o caráter e perfilam cada vez mais a personalidade. Platão e, na esteira dele, muitos filósofos pagãos e cristãos, resumiam essas virtudes em quatro, já mencionadas no capítulo primeiro: prudência justiça, fortaleza e temperança. À volta delas, há muitas outras virtudes humanas satélites: coragem, generosidade, sobriedade, amizade, constância, mansidão, compreensão, gratidão, etc, etc.

Nestas nossas meditações, não vamos fazer um tratado sobre virtudes, embora focalizemos algumas delas. Pretendemos, principalmente, esclarecer a importância  das virtudes humanas na vida do cristão, e procuraremos entender como é que se adquirem, se mantêm, e crescem.

Características das virtudes humanas

Que características têm as virtudes humanas? Antes de mais nada, que são “humanas”, e não “sobrenaturais”. Quer dizer, que podem e devem ser vividas por qualquer ser humano, em qualquer época, cultura e latitude. Acerca do valor fundamental dessas virtudes coincidem a filosofia grega, a sabedoria oriental, a lei de Moisés e o Cristianismo.

Se dizemos que as virtudes humanas são comparáveis às estacas, que virtudes compararemos com os “pilares”? As “virtudes sobrenaturais”, infundidas por Deus. Elas se firmam no cristão quando encontram apoio sólido nas virtudes humanas (como os pilares sobre as estacas).

A doutrina cristã  chama virtudes sobrenaturais àquelas que são dom gratuito de Deus: as “virtudes teologais” – fé, esperança e caridade (cf. 1 Cor 13,13 ) –, e aquelas outras que, sendo em si mesmas humanas, estão vivificadas pela graça do Espírito Santo. É um assunto de uma grande beleza, mas vamos deixá-lo para outro capítulo. Limitemo-nos agora a focalizar as características das virtudes humanas, tal como as descreve o Catecismo da Igreja Católica.

As virtudes são hábitos estáveis

O Catecismo (n. 1804) começa dizendo que «as virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade». Ou seja que não são tendências naturais e espontâneas, como traços de temperamento, mas devem ser adquiridas com empenho e esforço constante. Por isso, as virtudes humanas podem ser chamadas também “virtudes adquiridas”.

As virtudes não nascem feitas e embrulhadas. Da mesma maneira que não nasce feito tudo o que tem valor e requer esforço de conquista: ser engenheiro eletrônico, spalla de orquestra sinfônica, marceneiro ou médico.

Os que não lutam por ganhar virtudes – lembre-se disso – constroem o edifício da vida sobre “estacas” de vidro barato e quebradiço. São frágeis, vulneráveis a qualquer impacto. E a vida tem muitos impactos…

Creio que você já conheceu, no mundo do trabalho,  pessoas inteligentes, tecnicamente bem preparadas, que esbanjam categoria como especialistas, mas que fracassam porque são desleais, arrogantes, indisciplinados, convencidos, criadores de caso… Não podem edificar uma boa vida profissional porque não têm as “estacas”das virtudes.

E que dizer dos casamentos desintegrados – edifícios desabados –, porque se baseavam em estacas frágeis, de vidro colorido: as da paixão, da ânsia de prazer físico e afetivo, do aconchego recebido. Mas não tinham as “estacas” sólidas da doação, da compreensão, da paciência, da abnegação, da generosidade, do ideal familiar.

As virtudes regulam nossos atos

É ainda o  Catecismo que nos diz, no mesmo lugar, que «as virtudes regulam nossos atos, ordenando as nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé».

Vamos ficar agora num comentário inicial sobre esta frase, que exigirá um tratamento mais amplo. Por ora basta dizer que não custa nada perceber que muitas vidas são “condutas desreguladas”, sem ordem nem sentido, improvisadas e pouco racionais: parecem-se com um carro que perdeu o volante e os freios, e se atira rua abaixo.

Acabo e falar de “condutas desreguladas”. Isso propicia um esclarecimento útil. As virtudes – já o vimos – são elementos da construção de uma vida moralmente boa. Você sabe o que é a “moral”? A palavra “moral” procede da palavra latina “mores”, que significa costumes, comportamentos habituais. A moral avalia os bons e maus comportamentos.

Por seu lado, a palavra “virtude” também procede do latim “virtus”, que significa força, potência. Somente as virtudes – com a graça de Deus – tem a “força”, o “poder”, a “capacidade” de ordenar e governar a nossa conduta, sem desvios nem desastres.

 

As virtudes propiciam domínio e alegria

 É mais uma expressão do Catecismo. Para comentá-la, recordemos uma experiência bastante geral. Há muitas coisas boas que desejaríamos fazer ou atingir, e ficamos tristes porque não as conseguimos. Escaparam do nosso domínio, foi uma frustração. Vejamos um par de exemplos.

Por que será que Fulano, que é inteligente e deseja muito passar num exame ou num concurso, fracassa sempre? Bomba atrás de bomba. Pode ser que tenha problemas psíquicos. Mas a maioria das vezes – e isso é o que agora nos interessa – será por falta de constância, de ordem no trabalho, de renúncia temporária a certos lazeres, de espírito de sacrifício. Ou seja, por falta das virtudes necessárias.

Por que será que Sicrana, que quereria muito manter-se calma, não ralhar o tempo todo com os filhos, não atazanar o marido com queixas, não consegue? Porque – além de pedir pouco o auxílio de Deus – não se esforçou como devia para ganhar as virtudes necessárias: paciência, controle da língua, firmeza serena, sadia tolerância, etc.

Quem não luta, quem se contenta com a simples boa vontade e a improvisação, torna-se palha arrastada pelos ventos do desejo, do prazer, do capricho, do egoísmo. É dominada – amarrada – por eles e nunca alcança a alegria que almeja.

Entende-se, por isso, que o Catecismo afirme: «Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem» (n. 1804). E que acrescente: «As virtudes humanas forjam o caráter» (n. 1810), forjam a personalidade de quem é livre «senhor de si mesmo» (Caminho, n. 19).

Percebe a importância das virtudes? E a urgência de descobrir as que nos faltam e adquirir as que não temos? Disso começaremos a trataremos no próximo capítulo.