As virtudes que nos faltam

[PARA TER VIRTUDES]

4. AS VIRTUDES QUE NOS FALTAM

No primeiro capítulo, comentamos a parábola da casa inacabada, que Jesus inicia dizendo: Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos – os meios – que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la? (Lc 14,28).

Primeiro, é preciso ter um projeto, saber o que se quer construir. Depois, é imprescindível parar e refletir com calma – sentar-se para calcular –, a fim de ver qual deve ser o investimento e o material necessário. Já sabe que usamos a imagem do  “material” para nos referirmos às virtudes.

Mas, antes de estudar qualquer material, é preciso estar bem conscientes da obra a ser realizada. O material de um galpão não é o mesmo que o de uma clínica.

Que pretendemos construir? Sabemos que deveria ser o edifício da realização cristã, que aponta para a santidade. Perguntemo-nos: Que material já tenho (valores positivos, bons hábitos que todos temos), e qual me falta? É sobre isso que vamos refletir agora.

Nem convencidos…

            Meu amigo Luiz-editor gosta de contar a piada do homem que, com toda a seriedade, dizia: – “Reconheço que antes eu era convencido; agora não, agora sou perfeito”.

Quem acha que não precisa mudar, que tudo está bem, é um inconsciente, como o louco convencido de que o vão da janela do décimo andar é a porta da rua. Não se conhece. Isso é perigoso.

O conhecimento próprio é a eterna aspiração dos sábios e dos santos. «Conhece-te a ti mesmo», nosce teipsum, foi – e continua a ser desde há milênios – um caminho necessário para alcançar a sabedoria da vida. Mas não é fácil.

Em primeiro lugar, temos que vencer o orgulho, que, como dizia São Josemaria, «cega tremendamente», encobre e justifica todas as falhas.  A vaidade, a soberba, a autocomplacência – que colocam óculos disformes nos olhos – sempre oferecem argumentos para nos convencer de que o errado está certo, e de que os defeitos que todo o mundo vê em nós são falhas da ótica deles.

São Josemaria lembrava a antiga sentença que diz que o melhor negócio do mundo seria comprar os homens pelo que realmente valem, e vendê-los pelo que creem que valem.

Todos nós precisamos de ouvir humildemente as palavras de Cristo na sétima carta do Apocalipse: Conheço as tuas obrasDizes: Sou rico, de nada necessito –e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu… Aconselho-te que compres de mim um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro (cf. Ap 3,17-18). Vamos pedir a Deus esse colírio?

…Nem conformados

Outras vezes não negamos, reconhecemos os nossos defeitos: Sou preguiçoso, falta-me delicadeza, sou desordenado, não dou para isso ou aquilo. Mas, que fazer – pensamos depois –, se eu sou assim, se esse é o meu jeito… Paciência!

Quando nos ocorra um pensamento desse tipo, deixemo-nos sacudir por esta frase de Caminho:  «Não digas: “Eu sou assim…, são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem» (n. 4). E por essa outra, dedicada aos pessimistas: «É muito cômodo dizer: “Não presto, não me sai bem uma só coisa”. Além de que não é verdade, esse pessimismo encobre uma poltronice [uma “covardia”] muito grande» (Sulco, n. 68).

Aquele que não aspira a mudar, a melhorar, não aspira a viver. O conformismo com os defeitos equivale a desistir da realização e optar por ficar empalhados em vida, é vegetar como o frango conservado no freezer.

Com razão Deus poderia dizer-nos: “Você é assim mesmo, certo. Mas já quis ser diferente, já tentou ser melhor, alguma vez?“.

Como conhecer-nos?

A resposta a essa pergunta já deu origem a muitos livros. Agora só vou apontar três pistas, dentre as sugeridas por Cristo, para que você procure ver a verdade no fundo do coração (Salmo 51,8).

Primeira: Onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração (Mt 6,21).

“Tesouro” é aquilo que mais prezamos, que mais amamos. Pode ser uma pessoa querida, ou o nosso sucesso, ou o dinheiro, ou o prazer… O “coração” – o mundo íntimo dos nossos pensamentos, sonhos, projetos e desejos – está centrado naquilo que mais estimamos e julgamos necessário para a nossa felicidade.

Qual é seu “ tesouro”? Qual o “rei” que domina em seu mundo íntimo?

– para muitas pessoas, o “tesouro” são os três esses: Sucesso, Satisfação, Sossego. Se você se enquadra aí, não duvide: precisa urgentemente começar a lutar contra o egoísmo.

– para outras, o “tesouro” consiste em “acumular riquezas”, entrar na lista dos “mais”. Não entendem que, se os bens materiais são o seu Tesouro – assim, com maiúscula –, estão a caminho de um suicídio moral, e podem despedir-se da felicidade que Cristo promete: Felizes os pobres em espírito [os que são desprendidos e generosos, ainda que tenham bens], porque deles é o Reino dos céus (Mt 5,3).

– para outros é a liberdade. Por enquanto, vou limitar-me a perguntar: Liberdade para quê? Dependendo da resposta, você vai conhecer seu coração. Se é liberdade para “fazer o que eu quero”, você é um lamentável egoísta; se for liberdade para poder dar-se mais a Deus e dedicar-se a grandes ideais em favor dos outros, você tem a virtude da generosidade. Medite.

Segunda: A boca fala daquilo de que o coração está cheio (Lc 6,45)

– De que fala mais você? De você mesmo? Fala muito e escuta pouco? Não precisa refletir muito: você tem que lutar contra a vaidade. Talvez o despertem estas palavras de Caminho: «Obstinas-te em ser o sal de todos os pratos… e – não te zangues se te falo claramente –tens pouca graça para ser sal… Falta-te espírito de sacrifício. E sobra-te espírito de curiosidade e de exibição» (cf. n. 48).

– Você critica muito os outros? Acha logo defeito em tudo? Precisa adquirir a virtude da compreensão. E, se curte mágoas e rancores, precisa – mais do que o ar que respira – aprender a virtude da misericórdia.

– Você é boca-suja, que não para de falar de sexo e baixarias? Precisa descobrir e começar a praticar uma virtude que provavelmente ignora e até despreza, a castidade; e precisa também praticar a veracidade, isto é, lutar para não ficar enganando, traindo os compromissos de fidelidade que assumiu.

Você pensa até dormindo – como se fosse um ingrediente imprescindível da felicidade – em requintes de comida, em bebidas, em prazeres do gosto que não consegue largar? Também é urgente que aprenda como se adquire a virtude da temperança.

Terceira: Por que estais tristes?  (Lc 24,17)

É a primeira pergunta que Jesus ressuscitado fez aos discípulos de Emaús, quando voltavam para casa desesperançados, depois do “fracasso” da Cruz. As alegrias e as tristezas (não falo das que procedem do amor a Deus aos outros) são excelentes radiografias das doenças do coração.

– Alegra-o o “fácil” ou o “certo”? Diz, todo feliz: “Consegui driblar um compromisso”?  Então, no seu coração há um buraco negro no lugar que deveria ocupar a virtude da responsabilidade.

– Alegra-o mais o que recebe do que aquilo que dá? Há um vazio no lugar da caridade e da abnegação.

– Quando se porta mal, entristecem-no as suas ofensas a Deus e ao próximo, ou só a humilhação de se ver fraco e ruim? Precisa, então, de ganhar as virtudes da humildade e do arrependimento.

Alegra-o o fracasso dos outros, quando faz brilhar mais o seu sucesso? Não demore a iniciar uma luta séria contra os feios vícios da inveja e a vanglória.

As perguntas poderiam prosseguir, e continuarão em outros capítulos. Mas vou terminar agora com palavras de um sermão de Quaresma de São Bernardo, que inspiraram as perguntas acima: «Examina com cuidado o que é que amas, o que é que temes, de que te alegras, com que te entristeces. Todo o coração consiste nestes quatro afetos» (Sermão no começo do jejum, n. 2, 3).

As virtudes que nos faltam são um cartaz luminoso. Cada uma delas nos lança um apelo: – Veja o caminho que ainda deve percorrer, e comece a andar.

Pense. Reze. Peça luz a Deus e procure ver a verdade no fundo do seu coração.