Justiça nas palavras

[PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

21.  GUIA: JUSTIÇA NAS PALAVRAS

1. O fariseu da parábola de Cristo, que desprezava os demais, fazia no Templo uma oração vaidosa: Não sou como os demais homens: ladrões, injustos… (Lc 18,11).

Nós achamos detestável essa arrogância do fariseu, mas devemos perguntar-nos: Será que eu não penso como ele, e me orgulho também de não ser ladrão ou injusto?

Talvez Deus nos diga ao ouvido: Será que não é?

Há ladrões de carros, de casas, de bancos, de joias, de gado, de cargas…

Mas há ladrões de um tesouro maior: a reputação, a boa fama, a honra, o bom nome. Será que nunca roubamos esses tesouros, que nunca fomos injustos ao criticar alguém?

Veja o que lembra o Catecismo: «A honra é o testemunho social prestado à dignidade humana. Todos gozam de um direito natural à honra do próprio nome, à sua reputação, ao seu respeito» (n. 2479). Atropelar esse direito, portanto, é uma injustiça. Pense como é fácil roubar esses bens, servindo-nos da arma da língua: falando mal, caluniando.

Falar mal, sem razão justa, sempre prejudica a pessoa criticada. Dá pé a antipatias, desconfianças, preconceitos, desunião, suja o nome e a fama. É bom lembrar o que escreve São Tiago em sua Carta: A língua é um mal irrequieto, cheia de veneno mortífero. Com ela bendizemos o Senhor, nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à imagem de Deus (Tg 3,8-9).

2. Primeira injustiça contra a honra: a difamação

            A difamação ou detração é a maledicência que consiste em revelar os defeitos e faltas reais dos outros a pessoas que não os conhecem, sem ter para isso uma razão objetivamente válida (cf. Catecismo, n. 2477).

Devemos pensar que, aos olhos de Deus, não há um só pecado que nos manche – a nós e aos outros – irreparavelmente. Porque a graça de Deus pode mudar o coração e a conduta do maior pecador arrependido, e fazer do covarde um forte, do mentiroso um coração sincero e de um devasso um casto… Ninguém pode ser “classificado” como uma borboleta de coleção.

A maledicência, porém, tem o efeito de manchar a honra com uma tinta difícil de limpar, às vezes, indelével. Quer queiramos quer não, quando divulgamos defeitos e faltas de alguém, a pessoa fica “marcada”, “etiquetada” e, de fato,  em muitos casos essa imagem negativa é a que vai permanecer para sempre na vida social.

Por que falamos mal dos outros? Sobretudo por dois motivos:

a) o orgulho: Quem fala mal julga se colocando por cima. A pessoa humilde é compreensiva, pois sabe que também tem defeitos e faltas, reconhece humildemente que custa vencê-los e tem experiência de que, muitas vezes, mesmo tendo a maior boa vontade voltamos a recair e temos que nos levantar.

O orgulhoso, pelo contrário, parece que sente necessidade de rebaixar os outros com suas críticas, para se sentir superior e justificar no íntimo as suas próprias faltas. A muitos se poderiam aplicar essas palavras enérgicas de São Josemaria: «Que errônea visão da objetividade! Focalizam as pessoas e as iniciativas com as lentes deformadas dos seus próprios defeitos e, com ácida desvergonha, criticam ou se permitem vender conselhos» (Sulco, n. 644).

b) A inveja: também São Josemaria põe aqui o dedo na chaga: «A maledicência é filha da inveja; e a inveja, o refúgio dos infecundos» (Sulco, n. 912).  Acrescente a essa frase esta outra: «O despeito afiou a tua língua. Cala-te!» (Caminho, n. 654).

Não esqueça que a difamação – essa divulgação de faltas alheias, reais, mas não conhecidas – pode ter muita gravidade. Concretamente, tem a mesma gravidade que a das faltas que se divulgam. Por exemplo, se só comentamos detalhes pequenos de preguiça, a falta é leve. Mas se revelamos sem motivo grave pecados sérios, reais (adultério, aborto, mentiras que causaram tragédias morais, etc.), a gravidade da maledicência é do mesmo nível que a desses pecados divulgados.

Não acha bom fazer um pouco de exame de consciência, para ver se não há dentro de si algum desses males?

3. Segunda injustiça: a calúnia

Pior que a difamação é a calúnia, que consiste em falar mal dos outros, mentindo: “Por palavras contrárias à verdade, prejudica a reputação dos outros e dá ocasião a falsos juízos a respeito deles” (Catecismo, n. 2477).

A calúnia procede, muitas vezes, da frivolidade irresponsável, que repete informações falsas (de pessoas ou da mídia) contra a honra alheia, sem ter base nem comprovação alguma, só por tagarelice ou pelo prazer de criticar. Pior ainda é quando se visa deliberadamente – por ódio, preconceito ou inveja − destruir, desprestigiar, afundar, mentindo, pessoas ou instituições (a Igreja, uma escola, uma empresa, uma associação, etc.)

A calúnia nunca se justifica e é pecado muito grave quando deixa a fama da pessoa ou da entidade caluniada seriamente prejudicada.

 

4. Deveres de justiça

            Toda a falta contra a justiça exige atos positivos de reparação. A pessoa que roubou, fraudou ou danificou só poderá receber o perdão de Deus e a absolvição do confessor se tiver a decisão sincera de restituir o que roubou, ou de reparar o prejuízo que causou.

Também o dano moral contra a honra deve ser reparado. A pessoa responsável por algum mal provocado pela difamação ou a calúnia tem o dever de fazer tudo quanto está na sua mão para esclarecer a falsidade, ou para contrabalançar a desonra causada, ressaltando qualidades do difamado entre os que ouviram a calúnia.

“Toda falta cometida contra a justiça e a verdade– ensina o Catecismo −  impõe o dever de reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando se torna impossível reparar um erro publicamente, deve-se fazê-lo secretamente; se aquele que sofreu o prejuízo não pode ser diretamente indenizado, deve-se dar-lhe satisfação moralmente, em nome da caridade. Esse dever de reparação se refere também às faltas cometidas contra a reputação de alguém. Essa reparação, moral e às vezes material, será avaliada na proporção do dano causado e obriga em consciência” (n. 2487).

Uma última questão. Será que nunca se podem divulgar faltas verdadeiras, que ainda não são conhecidas? O Catecismo, de acordo com os princípios básicos da ética, afirma: «Torna-se culpado de maledicência, aquele que, sem razão objetivamente válida, revela os defeitos e faltas de outros» (n. 2477). Portanto, pode haver razão válida, motivo moralmente correto para divulgar erros alheios (jamais, como é lógico, para caluniar).

“Razões objetivamente válidas” podem ser:

─ O bem público. Por exemplo, é lícita e até obrigatória a denúncia pessoal, ou da mídia, de casos de corrupção administrativa, política ou moral que causam dano ao bem comum.

─ O bem de uma pessoa inocente. Por exemplo, alertar uma moça que está namorando de que o homem com quem pensa casar – e que nada falou disso –  é viciado há tempo em drogas duras, ou tem esposa legítima em outro lugar do país.

─ O bem próprio, quando denunciar é o único meio de exercer a legítima defesa. Por exemplo, o funcionário falsamente acusado de desonestidade numa empresa, tem o evidente direito de desmascarar o verdadeiro culpado.

 

Questionário sobre as palavras injustas

─ Tenho sempre presente que o respeito pela fama do próximo constitui um dever básico de justiça. Sou consciente da gravidade que encerra lesar injustamente a boa fama de alguém?

─ Antes de julgar ou comentar os defeitos dos outros, procuro ver os meus e lutar por corrigi-los? Percebo que só a pessoa humilde e sincera, que se conhece a si mesma, tem condições de compreender e avaliar os outros?

─ Compreendo que muitos juízos e críticas negativas são simples reflexo do malestar que deixam na minha alma o orgulho, a inveja ou o ressentimento?

─ Evito sempre qualquer tipo de crítica negativa feita com irritação, zombaria ou desprezo, que possa denegrir a imagem ética da pessoa verbalmente agredida?

─ Procuro seguir o conselho de São Josemaría Escrivá: de calar, não te arrependerás nunca; de falar, muitas vezes? Evito qualquer tipo de crítica que não seja construtiva?

─ Tenho consciência de que divulgar — sem um motivo justificado e grave — erros cometidos pelos outros, é um pecado de difamação, e que há obrigação de reparar o mal causado com esses comentários?

─ Deixo-me levar por informações superficiais, mexericos ou opiniões levianas ao falar de pessoas ou instituições? Percebo que esses comentários precipitados facilmente são verdadeiras calúnias?

─ Fiz tudo quanto era preciso para reparar o mal que os meus comentários podem ter causado à fama e à honra de outros? Estou consciente de que não basta pedir perdão a Deus por essa falta, mas que é um dever de justiça – também diante de Deus − restabelecer tanto quanto possível a fama lesada?

 

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)