Justiça e verdade

[PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

22.  GUIA: JUSTIÇA E VERDADE

1. A veracidade

Assim como o ar é vital para o homem e a água para o peixe, a confiança é um elemento vital para a convivência humana (familiar, social, profissional, etc.).

Ora, só pode haver confiança quando se honra a verdade. Quando falha a sinceridade − a virtude da veracidade − e nos sentimos envoltos na mentira, no engano ou na trapaça, não é possível conviver com harmonia e segurança.

Neste sentido, Santo Tomás de Aquino dizia que «os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade uns aos outros» (Suma Teológica 2-2,109,3). É evidente que, sem a verdade, não se sustenta a amizade, nem é possível a colaboração, nem há condições para manter a família unida…

O Catecismo ensina que «a veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia» (n. 2468). Santo Tomás lembra que essa virtude é um dever de justiça porque, por justiça, «um homem deve honestamente a outro a manifestação da verdade »(Ibidem e Catecismo, n. 2485).

O Catecismo acrescenta a isso um esclarecimento importante: «A veracidade obseva um justo meio entre o que deve ser expresso e o segredo que deve ser guardado» (n. 2469). Dois deveres que analisaremos neste e no próximo capítulo.

2. Dizer a verdade

É difícil que, na vida, não nos tenham escapado algumas mentiras, pequenas ou grandes. Por isso, é bom lembrar que, para haver uma verdadeira mentira, são necessárias duas coisas:

a) Dizer o que é falso com a intenção de enganar (S. Agostinho, De mendacio, 4,5 e Catecismo, n. 2482);

b) Querer induzir em erro aquele que tem alguma razão, motivo ou direito de conhecer aquela verdade (cf. Catecismo, n. 2489).

São dois focos para esclarecer o que é um pecado de mentira e o que não o é: o pecado consiste em enganar uma pessoa ou entidade que tem o direito de conhecer a verdade”, dizendo-lhe uma coisa falsa (com palavras ou atitudes) com a “intenção de enganá-la”.

Daí se deduz:

1º) que não é mentira omitir ou ocultar uma verdade a alguém que não tem alguma razão, motivo ou direito de conhecer determinada verdade. Como diz o Catecismo, «ninguém é obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de conhecê-la» (n. 2489). Não há, portanto, a obrigação de dizer a verdade a quem faria um uso injusto e daninho dela, ou àquele em quem provocaria uma dor ou um dano desnecessários, ou a um curioso intrometido. Nestes casos, o melhor é achar uma forma de desconversar sem mentir.

2º) que não há mentira quando não existe “intenção de enganar”: é o caso da “mentira jocosa” (exagero ou fantasia de mera brincadeira), e da “mentira social” (usar expressões inexatas que todos entendem, como louvar por gratidão uma refeição ou um presente que não nos agradaram, ou dar uma desculpa com expressões “clássicas”, “consagradas” nos “usos sociais”, que não enganam ninguém).

Mas querer enganar a quem deveria conhecer a verdade é sempre errado. Infelizmente, há muitas maneiras de enganar. A lista seria interminável.

Além da calúnia, já comentada anteriormente, poderíamos incluir na lista as fraudes nos negócios, as concorrências desleais, as licitações com cartas marcadas, as “recomendações” (“pistolões”) que guindam incapazes a funções de que ficam excluídos os que as merecem; as mentiras políticas ou administrativas de todo o gênero, que causam enormes danos ao país e com frequência aos mais desprotegidos; as mentiras sobre a história e sobre a Igreja, ditas de alegre  por um professor ou um jornalista sectário ou irresponsável; as mentiras nos termos ou nos dados dos contratos; a ocultação de defeitos no objeto vendido; as falsificações, as vigarices, as trapaças de toda a espécie…

Sobre a gravidade da mentira, é muito claro o que ensina o Catecismo:

─ «A gravidade da mentira se mede segundo a natureza da verdade que ela deforma, de acordo com as circunstâncias, as intenções daquele que a comete, os prejuízos sofridos por aqueles que são suas vítimas. Embora a mentira, em si, não constitua senão um pecado venial, torna-se mortal quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade» (n. 2484).

─ «Toda falta cometida contra a justiça e a verdade impõe o dever de reparação, mesmo que o autor tenha sido perdoado» (n. 2487) Seria maravilhoso se a mídia obervasse sempre esse dever de justiça.

3. Dizer a verdade com caridade

Acabamos de citar a frase do Catecismo (n. 2484), que diz que a mentira pode ser pecado mortal «quando fere gravemente as virtudes da justiça e da caridade».

Certamente a mentira pode ferir gravemente a caridade (é o caso da calúnia). Mas é preciso ter em conta que também a verdade pode ferir gravemente a caridade, dependendo da intenção e do modo como é dita.

Existem pessoas que, com a desculpa  de serem − como elas dizem −, “muito sinceras”, “muito espontâneas”, dizem as verdades como quem atira uma pedra na cabeça ou dá uma bofetada na cara do próximo. Não só “dizem” a verdade, mas a “usam” como uma faca para ferir.

São Paulo escrevia aos efésios que é preciso fazer a verdade na caridade, viver segundo a verdade, no amor (cf. Ef 4,15).

Por isso, para não nos enganarmos dizendo que “eu sou muito sincero, muito franco”, é importante reconhecer qual é a “intenção íntima” que atira nos outros a verdade como uma pedra:

─ pode ser o desejo de ofender e humilhar: quando a verdade é atirada acusando ou achincalhando.

─ pode ser a inveja, que gosta da intriga: “O seu namorado me falou…”

─ pode ser uma verdade íntima de outra pessoa proclamada grosseiramente em público (voltaremos a isso no próximo capítulo)

─ pode ser a chantagem, que às vezes – infelizmente – é praticada inclusive entre parentes ou colegas.

Enfim, toda verdade dita com a finalidade de magoar ou de ofender é uma verdade mal-dita (também sem o hífen). São Tiago, que diz coisas fortes na sua Carta, afirma que há línguas inflamadas pelo inferno (cf. Tg 3,6). Isso deve ser para nós motivo de reflexão, sobretudo lembrando o que Jesus disse: A boca fala daquilo de que o coração está cheio (Lc 6,45). Pela nossa língua, podemos conhecer como é que está o nosso coração.

 

Questionário sobre a mentira

─ Amo e pratico a sinceridade no relacionamento com as outras pessoas? Percebo que a sinceridade – que foge da mentira, do fingimento e da hipocrisia – é condição imprescindível para o bom relacionamento humano?

─ Caio em pequenas mentiras com facilidade? Acho que não têm importância? Tenho o vício de mentir por exagerar ou por dizer apenas meias-verdades?

─ Minto por vaidade, para ficar bem e passar para os outros uma imagem superior à realidade do que eu sou e faço?

─ Tenho o vício de mentir para me desculpar, para justificar os meus erros? Já permiti, alguma vez, que essa minha falta de sinceridade fizesse recair as suspeitas ou as culpas em outra pessoa?

─ Sou pouco sincero com o confessor ou com o meu diretor espiritual? Escondo coisas para não passar vergonha, sem perceber que essas faltas de sinceridade fazem perder eficácia à ajuda espiritual que eu poderia receber.

─ Utilizei alguma vez a mentira para obter vantagens, na vida profissional, comercial, etc?

─ Caio na badalação? Finjo, por interesse, uma amizade, um afeto ou uma admiração que não tenho? Esqueço a pessoa quando a finalidade interesseira desaparece?

─ Critico pelas costas colegas ou amigos, sem ter a lealdade de lhes falar com caridade e simplicidade, tentando ajudá-los a corrigir um erro?

─ Educo os filhos, ou os alunos, no amor à sinceridade, animando-os a abrir o coração e mostrando-lhes com carinho que procuro compreendê-los, mesmo quando erram gravemente, facilitando assim que contem sem receio aquilo que lhes custa dizer?

 

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)