Mansidão

[PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

31.  GUIA: A MANSIDÃO

            Uma paixão que precisa de rédeas

Uma virtude que faz parte da temperança é a mansidão. Tem por objeto “moderar” a paixão da ira. Todos conhecemos por experiência a força tremenda da ira (a nossa e a dos outros), e por isso entendemos bem a necessidade de uma virtude que a modere, que a governe.

Como no capítulo anterior, é preciso frisar que “moderar” não significa suprimir nem eliminar. Quer dizer, então, que a ira pode ser boa? Sim, pode. É o que veremos daqui a pouco.

Mas, para começo de conversa, lembremos a doutrina sobre as paixões (sentimentos, emoções) que, como a ira, têm o lado espiritual e o lado somático (perturbação nervosa, taquicardia, sobe a pressão, etc).

«Em si mesmas – lembra o Catecismo – as paixões não são boas nem más. Só recebem qualificação moral na medida em que dependem efetivamente da razão e da vontade»  (n. 1767). Isto é, se são emoções conduzidas retamente pela razão e a vontade, são boas. Pelo contrário, se ofuscam a inteligência e encampam a vontade, são más.

No mesmo Catecismo lemos que «as emoções e sentimentos podem ser assumidos em virtudes ou pervertidos em vícios» (n. 1774), dependendo de que – como acabamos de dizer – a razão e a vontade (fortalecidas pela fé e o amor) lhes segurem ou não as rédeas.

Existem iras com razão?

Sim. Às vezes nos indignamos com toda a razão perante um ato cruel, uma injustiça, uma mentira deslavada, uma ofensa a Deus ou à sua Igreja, uma série de crimes impunes…

Essa indignação é boa. A indiferença diante desses males seria uma indecorosa falta de solidariedade com os injustiçados e de senso moral. Ouçamos dois grandes santos, citados por Santo Tomás:

— Um deles é São Gregório Magno, que diz: «A razão enfrenta o mal com grande combatividade, e a ira (a indignação) contribui para isso», e comenta Santo Tomás: «A capacidade de irar-se (de indignar-se) é a verdadeira força de resistência da alma» (Suma Teológica, 1,81,2).

— Cita também São João Crisóstomo: «Quem não se indigna, quando há motivo, peca». A falta de indignação ante o mal «semeia vícios, alimenta a negligência e facilita que não só os maus, como também os bons, pratiquem o mal» (Ibidem, 2-2, 158,8).

Não podemos nem devemos ficar frios ou resignados perante as ideias daninhas, os abusos e as mentiras, cada vez mais frequentes, como se fizessem parte da paisagem. Devemos reagir, tentar combatê-las com armas limpas e pacíficas, com elevação intelectual e moral, em privado ou através da mídia.

Mas, cuidado! Mesmo a ira boa pode se tornar má

Quando? Quando não é apenas ira contra o mal, mas ódio contra a pessoa que fez ou propagou o mal. A falta de caridade estraga tudo. Ira justa, movida por ódio, represália ou espírito de vingança, corrompe-se e deixa de ser um bem. Com fórmula breve, Santo Agostinho dava a receita certa: «Detestar o erro, mas amar o que erra».

 

As nossas iras cotidianas

As iras cotidianas nós as conhecemos bem. “Explodi”, “Não aguentei”, “Esse vai me ouvir”, “Espera que eu te apanhe”… Expressões quase sempre adicionadas de palavrões e injúrias. Essa nunca pode ser “ira boa”. Precisa ser firmemente “moderada”.

Santo Tomás, de acordo com Aristóteles, menciona três tipos de ira ruim (Suma Teológica, 2-2, 158,5):

— A ira aguda. É a da pessoa que se irrita logo por qualquer motivo leve.

— A ira amarga. É a da pessoa que guarda a ira por muito tempo, e não a tira da memória. Chama-a ira encerrada nas vísceras (“inter viscera clausa”).

— A ira difícil ou vingativa. A dos que não param até darem o troco, se possível em dobro.

São Tomás não teoriza. Conhece o ser humano. E em alguma dessas classificações provavelmente nós nos reconhecemos.

 

Como combater a ira ruim?

Vivendo a virtude da mansidão, que não é a virtude dos fracos, mas dos fortes.  Só uma alma forte, que está com Deus, pode segurar as rédeas desse cavalo indômito da ira.

A) Com a humildade. Jesus nos marca o caminho certo: Aprendei de mim,. que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para as vossas almas (Mt 11,29). Já vimos que a humildade é o “húmus” fecundo de todas as virtudes.

Pode ter mansidão a pessoa amante do bem e da justiça que não olha os outros de cima para baixo, que não os despreza, porque bem sabe que ele – se Deus não o amparar – pode cair nos mesmos ou piores erros. A Bíblia, no livro dos Provérbios, diz: A ira não tem misericórdia (Pr 27,4). A mansidão é inseparável da misericórdia.

Isso não significa que não se deva corrigir; mas sem precipitação, deixando a indignação esfriar, e seguindo os conselhos das almas experientes e  santas: «Quando é preciso corrigir, deve-se atuar com clareza e amabilidade; sem excluir um sorriso nos lábios, se for oportuno».  «Repreender? … Muitas vezes é necessário. Mas ensinando a corrigir o defeito. Nunca por um desabafo do teu mau caráter» (Sulco, nn. 823 e 822).

B) Lutando por praticar  atos de autodomínio.

Atos que não se fazem sem mortificação. Mais uma vez soa aos nossos ouvidos: «Onde não há mortificação, não há virtude» (Caminho, n. 180).

a) A primeira mortificação é calar. «Não repreendas quando sintas a indignação pela falta cometida. — Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda» (Ibidem, n. 10). É um pensamento já citado, mas que aqui vem a calhar.

b) Depois, pedir a Deus, como aquele jovem empresário: «Jesus, que eu faça boa cara» (Ibidem, n. 626).

c) Sempre, lutar para exercitar a mansidão esforçando-nos por fazer atos análogos aos que sugere Caminho:  Dizer a palavra acertada (e não a palavra ardida sobre a ferida); ter um sorrido amável para quem incomoda; calar ante um mal-entendido sem transcendência; manter conversa afável com os maçantes e os inoportunos; não dar importância cada dia a um pormenor ou outro, aborrecido e impertinente, das pessoas que convivem conosco… (n. 173) . E, no trânsito, não olhar para o rosto de quem fez barbeiragem e quase bateu no nosso carro (porque, sem ver a cara, é difícil ter raiva).

d) Corrigir nossos maus hábitos pessoais de desabafo, reclamação, protesto, e evitar os  comentários negativos.

e) Por fim,  nunca esqueçamos que “ter razão” não é motivo para irar-se com as pessoas nem de ficar com raiva delas. Procure gravar esta verdade: «Ninguém foi ao Céu por ter tido razão. Pelo contrário, por ter compreendido, perdoado, corrigido do modo certo e ter ajudado, muitos se salvaram».

 

Questionário sobre a mansidão

─ Perco a calma com facilidade, caindo em reações desproporcionadas? Percebo que a ira é, com frequência, um reflexo das nossas próprias fraquezas, especialmente do nosso egoísmo, do comodismo e da nossa falta de paciência?

─ Tenho reações bruscas, de cólera? Compreendo que a ira é uma fraqueza própria de uma pessoa que não luta por dominar as suas paixões?

─ Evito agredir os outros com comentários ferinos ou censuras ásperas?

─ Vejo claramente que a origem de muitas irritações é com frequência o orgulho, a dificuldade em aceitar pequenas humilhações ou contradições com humildade de coração?

─ Procuro ser generoso e sacrificado com os outros, estando mais inclinado a calar e rezar do que a repreender e criticar?

─ Estou disposto a lutar para ganhar um profundo espírito de misericórdia, imitando a mansidão de Cristo?

─ Esforço-me por ser compreensivo com os defeitos e limitações dos outros, e, ao mesmo tempo, procuro ser forte para corrigi-los com paz e afeto, buscando – sem arrogância –ajudá-los a melhorar?

─ Na vida em família, corrijo os filhos asperamente, só quando estou irritado, descuidando o diálogo sereno, paciente e perseverante, que é o meio mais eficaz de corrigi-los e ajudá-los?

─ Dou-me conta de que perder as estribeiras é próprio de almas fracas, e, pelo contrário, viver a mansidão exige muita fortaleza?

─ Fico indiferente perante as injustiças, as mentiras, as injúrias contra Deus, os Santos, a Igreja, as pessoas e instituições honestas? Compreendo que a “santa indignação” é virtude própria do autêntico cristão?

─ Tenho consciência de que a indignação não poderia ser santa se me levasse a ter ódio ou raiva dos que agem mal, pois o cristão deve detestar e combater o erro, mas amar os que erram?

 

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)