1-COMPREENSÃO

FAZER A VIDA AMÁVEL

 1- COMPREENSÃO

Compreensão em voz ativa

Como é agradável sentir-se compreendido: em casa, no trabalho, entre os amigos mais chegados. E como amargura a alma sofrer a incompreensão. Dói ouvir, repetidamente,  frases como estas: “Meu marido não me compreende”, “Lá em casa não me entendem”, “Meu chefe só vê defeitos, não reconhece o bom trabalho que eu faço”…

Na vida de todos – na sua e na minha – é inevitável que haja malentendidos e incompreensões…, provavelmente menos dos que imaginamos por causa da nossa suscetibilidade. Como é ruim passar a vida queixando-nos de que somos incompreendidos. É um “vitimismo” mórbido, infantil ou patológico, além de uma perda de tempo.

Por isso, é importante que demos uma virada ao verbo compreender, e o passemos da voz passiva (“não sou compreendido”) para a voz ativa (“eu tenho que compreender”).

Você sabe por experiência – se for sincero − que compreender os outros não é nada fácil.

Para começar, exige ter um coração limpo. Tinha razão o padre Vieira quando, num sermão de Quaresma, dizia que «os olhos veem pelo coração», que tinge com seus bons ou maus sentimentos a imagem que fazemos do próximo. «Muitos – escreve, no mesmo sentido, São Josemaria – focalizam as pessoas com as lentes deformadas de seus próprios defeitos» (Sulco, n. 644). Você já deve ter percebido que o mau humor, o rancor, a decepção, a raiva, a inveja e outros defeitos nossos são lentes tortas que deformam o modo de olhar para os outros.

Dois olhares contrapostos

Vamos buscar luz no Evangelho. São Lucas narra que certo dia, enquanto Jesus estava à mesa com outros convivas na casa do fariseu Simão, uma mulher “pecadora na cidade” entrou inesperadamente na sala, ajoelhou-se atrás de Jesus e, chorando, começou a banhar-lhe os pés com suas lágrimas, a ungi-los com o perfume que trazia num vaso de alabastro, e os beijava e enxugava com seus cabelos (cf. Lc 7, 36-38).

Todos a olham espantados. Mas o Evangelho concentra o foco em dois olhares contrapostos: o do fariseu e o de Jesus.

─ O fariseu fulmina com o olhar aquela mulher, e critica intimamente Jesus que lhe permitiu aproximar-se dele: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora (v.39).

─ Jesus vê outra coisa: Voltando-se para a mulher, disse a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta com as suas lágrimas regou-me os pés…Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor (vv. 44-47).

─ Simão só vê uma mulher manchada pelo pecado.

─ Jesus só vê um coração arrependido, cheio de amor e de delicadezas.

O que nós vemos?

Certamente só vemos o que o nosso coração nos permite ver. Se teu olho é são, todo o corpo será bem iluminado… Vê que a luz que está em ti não sejam trevas, alerta-nos Cristo (Lc 11, 34-35).

Há corações escuros, que só veem o mal nas pessoas, enxergam apenas sombras sem perceberem as luzes. As principais causas dessa distorção são duas: o orgulho e a inveja. O orgulho julga, critica e despreza; a inveja é  um olhar contaminado pela tristeza azeda e o rancor pela superioridade alheia (nada a ver com o “mau olhado” da superstição!).

Não é verdade que temos muita facilidade para descobrir defeitos naquelas pessoas cujas virtudes nos humilham? Ou naquelas que são mais queridas do que nós? Ou para detectá-los logo nos familiares que nos irritam – esposa, marido, filhos −, porque não são fantoches dóceis aos nossos gostos e vontades?

Pensando nisso tudo, vale a pena perguntar-nos: Qual é o primeiro passo que devo dar para melhorar a minha capacidade de compreender? Creio que o mais urgente é decidir-nos a descobrir, reconhecer e agradecer as qualidades boas que os outros têm. Se tentarmos fazer serenamente o elenco dessas qualidades, vão nos surpreender. É impressionante constatar a quantidade de virtudes que lembramos de uma pessoa recém falecida. Não seria melhor ter enxergado esses belos valores antes de que a pessoa morresse?

Examinemos a consciência. Como agradecemos até agora – com palavras e atitudes − as virtudes, sacrifícios, serviços, delicadezas, etc, que familiares, colegas e amigos têm habitualmente para conosco? Como lhes manifestamos, de forma discreta e amável, essa gratidão; e como damos graças a Deus por tanta coisa boa que eles nos dão, em vez de criticá-los?

Aprendamos a olhar com amor humilde

─ Veja o que Santa Teresinha dizia as suas noviças: «Devemos sempre julgar os outros benignamente, porque o que parece aos nossos olhos negligência pode muitas vezes, aos olhos do Senhor, ser um ato de heroísmo. Uma irmã que tenha uma dor de cabeça ou atravesse provações espirituais cumpre mais quando faz metade do seu trabalho do que outras irmãs sadias de corpo e alma que fazem tudo bem».

Se víssemos o que Deus vê, choraríamos de pena pelas nossas faltas de compreensão.

─ Além disso, tentemos fazer o que aconselha São Josemaria: «Põe-te sempre nas circunstâncias do próximo: assim verás os problemas ou as questões serenamente, não te desgostarás, compreenderás, desculparás…» (Sulco, n. 958).

─ E ainda pensemos que só chegaremos a ser compreensivos se observarmos ao pé da letra o que Cristo nos manda: Por que olhas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho, e assim verás para tirar a palha do olho de teu irmão (Mt 7,3.5).

Esta última frase de Cristo – assim verás para tirar… − é importante, e exige uma reflexão mais ampla, que procuraremos desenvolver no próximo capítulo.

Por ora, encerremos este início de reflexão formulando apenas duas perguntas:

─ Quais são as pessoas que mais me aborrecem, de modo que quando as encontro ou penso nelas, a primeira coisa que me vem à cabeça são os defeitos desagradáveis que   têm? Por que as vejo assim? Não diga: “porque são chatas, porque não me tratam bem, porque me incomodam”. Seja sincero, e diga: “Porque sou eu que tenho esse e aquele defeito, que não reconheço, e isso influencia meu modo de criticar os demais”.

─ Já fiz o exercício de me perguntar: Será que eu não tenho exatamente os mesmos defeitos que me incomodam nos outros? Será que “acho” que não os tenho, ou que não têm importância? Não percebo que isso é ser como os fariseus hipócritas, que se julgavam justos e desprezavam os demais? (cf. Lc 18,9).