2-COMPREENDER E CORRIGIR

FAZER A VIDA AMÁVEL

2. COMPREENDER E CORRIGIR

Saber corrigir

Um dos aspectos mais nobres da compreensão é saber corrigir. Sim, isso mesmo: corrigir os erros dos outros com amor e com ânimo de ajudar é uma maneira excelente de compreender.

É bem possível que alguém diga: “Espere um pouco. Fora o caso da educação das  crianças, “corrigir” não é uma espécie de ato de orgulho, de superioridade…? Não seria mais próprio da compreensão procurar apenas desculpar, relevar, não julgar, olhar só para o lado bom da pessoa, como víamos no capítulo anterior?”

Não me parece que Cristo  pense assim, tendo em conta que Ele nos diz: Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e corrige-o a sós. Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão (Mt 18,15). Nem São Paulo pensa de outra forma: Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão (Gl 6,1). E ainda – como víamos no capítulo anterior –, Jesus, ao falar da pessoa que vê o cisco no olho do irmão conclui falando do dever de corrigir: Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar o cisco do olho de teu irmão (Mt 7,5).

Como vê, o mesmo Jesus, que nos ama e nos desculpa com infinita misericórdia, nos manda corrigir, precisamente porque, acima de tudo, quer o nosso bem, e para isso deu a vida. E por isso mesmo, porque nos quer bem e nos compreende (“comprehendere”, em latim, é abranger completamente), não hesita – como fez com os Apóstolos − em alertar-nos, em corrigir-nos, em abrir-nos os olhos ainda que doa, em repreender-nos. Ele não pode nos ver caindo sem estender-nos a mão. E manda que o imitemos: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jn 13,34).

Só o coração que ama corrige bem

─ Quem é que não consegue corrigir e ajudar com amor? O egoísta indiferente, aquele que diz:  “Isso é lá com ele, eu não me meto, que faça o que quiser…” E, quando o outro se afunda, tranquiliza-se pensando: “Foi ele que quis, eu não tenho a culpa”. Como acabamos de lembrar ao falar do cisco e a trave, Jesus deixa claro que não quer que nos omitamos: “tira” o cisco do olho de teu irmão.

             ─ Também não consegue corrigir o sentimental mole, que acha que quer bem os outros porque passa por cima de tudo com compreensão piegas. Nunca adverte nem corrige por receio de magoar e de perder a estima. A esse, o Espírito Santo diz no livro dos Provérbio: Melhor é a correção manifesta do que uma amizade fingida (Pr 27,5). Pior ainda que o tolerante mole é o psicólogo de araque que acha que corrigir é “traumatizar” ou tirar a “liberdade” (Meu Deus! Quando deixaremos de ouvir essas patacoadas?).

─  Pelo contrário, consegue corrigir bem aquele que tem afeto pela pessoa, que, antes de mais nada, a desculpa sinceramente, que sofre quando percebe alguma coisa errada que lhe pode causar um mal; e por isso deseja dar-lhe a mão, oferecendo-lhe um conselho ou sugerindo uma retificação que o ajude.

─ Como se deduz do anterior, não está em condições de corrigir (a não ser na urgência de cortar um perigo imediato) aquele que não tem carinho, mas se irrita com os defeitos da pessoa, ou se sente ofendido por ela, ou está “cansado e aguentá-la”. O que esse tal deve fazer é acalmar-se, ser humilde, calar e rezar – pedindo a Deus o amor que não tem − e talvez confessar-se da sua falta de caridade.

─ Também pode corrigir com eficácia aquele que sente dificuldade em fazê-lo: custa-lhe falar francamente com o interessado, pois sofre com o receio de que – apesar de explicar tudo com afeto – o outro não o entenda e possa se melindrar. Mas é preciso falar: é uma questão de coragem e de lealdade.

─O que é deslealdade é calar-se, fingir, dar um sorrisinho hipócrita e depois criticar pelas costas . Vem aqui à tona um episódio da vida do célebre escritor Chateaubriand. Conta em suas Memórias que certa vez o rei Luís XVIII lhe pediu sua opinião sobre uma medida que acabava de adotar e sobre a qual Chateaubriand discordava. O escritor tentou esquivar a resposta mas, perante a insistência do monarca, falou francamente, e começou assim: «Sire, pardonnez ma fidelité»  (“Senhor, perdoai a minha fidelidade”).

─ Especialmente covarde é o pai, a mãe, o superior, o educador que, para evitar passar um mau bocado, se omite e deixa o barco correr (à deriva!). Falando desses “comodistas”, São Josemaria comenta: «Talvez poupem desgostos nesta vida …, mas põem em risco a felicidade eterna – a própria e a dos outros – pelas suas omissões, que são verdadeiros pecados» (Forja, n. 577).

Como viver a “correção fraterna”?

Vamos encontrar belas respostas a essa pergunta em dois santos, que amaram, desejaram para si e praticaram a correção evangélica.

A) São Josemaria Escrivá:

─ «Quando é preciso corrigir, deve-se atuar com clareza e amabilidade, sem excluir um sorriso nos lábios, se for oportuno. Nunca – ou muito raras vezes – aos berros» (Sulco, n. 823). A delicadeza no modo de falar exige sempre falar a sós, como diz Cristo  (cf. Mt 18,15), nunca corrigir em público.

─ «Quando tiveres de corrigir, faze-o com caridade, no momento oportuno, sem humilhar… e com vontade de aprender e de melhorares tu mesmo naquilo que corriges» (Forja, n. 455). Como é importante o “momento oportuno”: nem na hora – quando a coisa está quente –, nem deixando a correção para um depois que acabará sendo nunca.Delicadeza é ainda corrigir no lugar propício e discreto, e no momento psicológico que se veja melhor (sem fazer disso desculpa para protelar).

─ Neste sentido, o mesmo santo diz: «Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender» (Caminho, n. 10).

─ Outro texto, dirigido aos pastores da Igreja, mas com um conselho aplicável a todos: «Governar, muitas vezes, consiste em saber “ir puxando” pelas pessoas, com paciência e carinho» (Sulco, n. 405). São Josemaria sempre aconselhava a não se afobar após uma correção, querendo ver logo os “resultados”, a mudança; mas ter paciência, dar tempo ao tempo e confiar na boa vontade das pessoas.

─ E ainda, para frisar o valor da correção, mais umas palavras de São Josemaria: «O exercício da correção fraterna é a melhor maneira de ajudar, depois da oração e do bom exemplo» (ForjaI, n. 641).

B) São João Bosco:

O grande educador que, com a graça divina, soube tirar santidade do barro, aconselhava assim a seus discípulos, com palavras aplicáveis sobretudo à correção das crianças:

«Quantas vezes, meus filhinhos, no longo curso da minha vida, tive que me persuadir desta grande verdade: é mais fácil encolerizar-se do que aguentar; ameaçar a criança do que persuadi-la; direi mesmo, mais cômodo para nossa impaciência e soberba impor castigos aos obstinados do que corrigi-los, tolerando-os com firmeza e suavidade […]

»É muito difícil, ao punir, manter o domínio sobre si, mas tão necessário para que não surja a dúvida de agirmos por autoritarismo ou exaltado nervosismo […]

»Não haja agitação na mente, nem desprezo olhar, nem injúria na boca, mas misericórdia no momento presente, esperança do futuro, como convém a pais que de verdade se empenham em corrigir e emendar. É melhor nas situações gravíssimas rogar, súplice e humildemente a Deus, do que fazer correr um rio de palavras que ofendem os ouvintes, sem nenhum proveito para os culpados» (Epistolário, 4,201-203).