6-O CUME DA MISERICÓRDIA

FAZER A VIDA AMÁVEL

6. O CUME DA MISERICÓRDIA

“Vivamente impressionados”

No final do Sermão da Montanha – compêndio da pregação de Cristo –, diz São Mateus que, quando Jesus acabou de falar, a multidão ficou vivamente impressionada com a sua doutrina (Mt 7,28).

Não era para menos, como fica patente pelo ensinamento que vamos meditar neste capítulo: Tendes ouvido que foi ditoamarás a teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem (Mt 5,43-44).

Recordávamos, no capítulo anterior, que devemos perdoar aos que nos ofendem, quando mostram sinais de arrependimento. Agora ouvimos o Senhor mandar-nos perdoar também aos que, sem ter arrependimento nenhum, nos ofendem, perseguem e maltratam.

Você dirá: “Isto é superior às nossas forças!”. E eu lhe direi: “É mesmo, concordo que é impossível”. E a Igreja também concorda conosco. Veja o que diz no Catecismo:

─ «Esta exigência crucial do mistério da Aliança é impossível para o homem. Mas “tudo é possível a Deus” (Mt 19,26)» (n. 2841).

─ «Só o Espírito [Santo]… pode fazer “nossos” os mesmos sentimentos que teve Cristo Jesus…, esse Amor que ama até o extremo do amor» (n. 2843).

─ «O perdão dá também testemunho de que, em nosso mundo, o amor [cristão] é mais forte que o pecado. Os mártires, de ontem e de hoje, dão este testemunho de Jesus (n. 2844).

 

Com Cristo, pelo Espírito Santo

O máximo paradigma divino e humano do perdão dos inimigos foi dado por Cristo agonizante na Cruz. Depois de ter sofrido em silêncio as piores injustiças, brutalidades e torturas físicas e morais, nosso Senhor pediu: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23,34).

São João Paulo II, meditando neste mistério, comentava: «Crer no Filho crucificado significa crer que o amor está presente no mundo e que este amor é mais forte do que toda espécie de mal em que o homem, a humanidade e o mundo estão envolvidos» (Dives in misericórdia, n. 50).

Com a força de Cristo e o dom do Espírito Santo, os discípulos de Jesus foram capazes de atingir esse cume supremo do amor. Atingiram-no, desde o primeiro mártir – o diácono Santo Estêvão, que morreu rezando de joelhos: Senhor, não lhes leves em conta este pecado (At 7,60) –, até a incontável multidão de homens e mulheres, jovens, velhos e crianças que – em todos os tempos – morreram entre tormentos indizíveis, perdoando e orando pelos seus carrascos. Estes são – diz poeticamente o Apocalipse – os que lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro (Ap 7,14).

Com Cristo, o impossível se torna possível.

As palavras de Jesus

Vamos meditar agora as palavras de Jesus sobre o perdão dos inimigos, que citamos no começo deste capítulo (Mt 5,43-44). São três breves frases:

1) Primeira fraseAmai os vossos inimigos. Nunca esqueçamos que amar, querer bem, é “querer o bem” da pessoa (amigo ou inimigo). Vejamos alguns exemplos:

─ São Paulo, perseguido de morte em Jerusalém e preso em Cesareia marítima, foi apresentado diante do procurador romano Pórcio Festo e seu convidado, o rei Agripa. Serenamente Paulo apresentou a sua defesa, com a têmpera da fé. Festo, impressionado, diz: Estás louco, Paulo! E o Apóstolo se dirige, então, ao rei Agripa: “Crês, ó rei, nos Profetas? Bem sei que crês!”. Disse então Agripa a Paulo: “Por pouco não me persuades a fazer-me cristão!” Respondeu Paulo: Prouvera a Deus que, por pouco ou por muito, não somente tu, senão também quantos me ouvem, se fizessem hoje tal qual eu sou… à exceção destas correntes (At 26,24-28). Anelava Paulo que também os seus juízes recebessem o benefício da fé.

─ São Pedro, por sua vez, exortava assim aos discípulos envolvidos numa cruel perseguição: Não pagueis mal com mal, nem injúria com injúria. Ao contrário, abençoai, pois para isto fostes chamados, para que sejais herdeiros da bênção (1Pd 3,9).  É óbvio que abençoar, aqui, significa desejar para os perseguidores os dons de Deus.

─ Nos nossos dias, o arcebispo vietnamita Francisco Xavier Van Thuân, falsamente acusado, esteve preso pelos comunistas, a partir de 1975,  durante treze anos (nove deles em cela de isolamento). Quase no final do cativeiro, admirado pela sua bondade, o carcereiro perguntou-lhe: «O senhor nos ama verdadeiramente? ― Sim, eu os amo sinceramente. ― Mas nós o tivemos preso durante tantos anos, sem julgá-lo, sem condená-lo, e o senhor nos ama? É impossível, isso não é verdade! ― Estive muitos anos com vocês. Você viu que isso é verdade. ― Quando for libertado, não vai mandar os seus fiéis incendiar as nossas casas e matar as nossas famílias? ― Não. Mesmo que você queira matar-me, eu o amo. ― Mas, por quê? ― Porque Jesus me ensinou a amar a todos, mesmo aos inimigos. Se eu não o fizer, não sou digno de ser chamado cristão. ― É muito bonito, mas difícil de compreender…» (Cinco Pães e dois peixes, Ed. Santuário, pp. 54-55).

2) Segunda fraseFazei bem aos que vos odeiam. Já víamos que é nisso – querer o bem – que consiste amar. Vale a pena ilustrá-lo também com alguns exemplos:

─ São Josemaria Escrivá. Durante a guerra civil espanhola (1936-1939) foi perseguido pelos comunistas e anarco-sindicalistas – como acontecia com todos os sacerdotes –, e se refugiava onde podia, em constante perigo de morte. Sofreu inúmeras penalidades, descritas em parte em outra obra[1], e nas biografias. Depois da guerra, em 1941, teve que tomar um táxi em Madrid, e conversou cordialmente com o taxista, frisando a necessidade, a beleza, da concórdia e da união. O taxista manteve-se calado e carrancudo. No fim, perguntou: “Onde é que o senhor esteve durante a época da guerra?” ― “Em Madrid”, respondeu-lhe o sacerdote. ― “Que pena que não o tenham matado”, replicou o motorista.

O Padre Josemaria perdoou-o e, para que visse que não lhe guardava nenhum rancor, tirou todo o dinheiro que trazia no bolso, entregou-lhe e disse-lhe: ― “O senhor tem filhos?” Vendo-o fazer um gesto afirmativo, acrescentou: ― “Fique com o troco. Compre uns doces para os seus filhos”.

─ Por sua vez, o arcebispo Van Thuân relata: «Uma noite, veio-me um pensamento: “Francisco, tu és ainda muito rico. Tens o amor de Cristo no teu coração. Ama-os como Jesus te ama”. No dia seguinte comecei a amá-los, a amar Jesus neles, sorrindo, trocando palavras gentis. Comecei a contar-lhes histórias das minhas viagens ao exterior, como vivem os outros povos […], a economia, a liberdade, a tecnologia. Isso estimulou a curiosidade dos guardas e incitou-os a perguntar-me muitas outras coisas. Pouco a pouco nos tornamos amigos. Queriam aprender línguas estrangeiras, francês, inglês… Os meus guardas tornavam-se meus alunos!

“ A atmosfera da prisão mudou muito. A qualidade do nosso relacionamento melhorou muito. Até com os chefes da polícia. Quando viram a sinceridade do meu relacionamento com os guardas, não só pediram para continuar a ajudá-los no estudo de línguas estrangeiras, mas ainda me mandaram novos estudantes”[2]. Isto é o que São Paulo chamava vencer o mal com o bem!

 

Mas… e a justiça?  – perguntará alguém–  Onde fica? Será que agir como esses santos homens não é uma tolerância passiva para com a injustiça? Vou deixar que responda a isso João Paulo II: «É óbvio que a exigência de ser tão generoso em perdoar não anula as exigências objetivas da justiça… Em nenhuma passagem do Evangelho o perdão, nem mesmo a misericórdia como sua fonte, significa indulgência para com o mal, o escândalo, a injúria causada, ou o ultraje feito».

Como já mostrava Santo Agostinho, ao dizer que “é preciso combater o erro e amar o que erra”, uma coisa é amar e perdoar a “pessoa”, e outra coisa é deixar que a injustiça fique triunfante, impune, sem que haja  – como diz o mesmo Papa –«a reparação do mal e do escândalo, o ressarcimento do prejuízo causado e a satisfação pela ofensa feita…» (Dives in misericordia, n. 97). Mas sempre o amor cristão acompanha e vivifica a justiça, que foge de ódios, revides e vinganças.

3) Terceira fraseOrai pelos que vos maltratam e perseguem. Voltemos ao exemplo de São Josemaria. Nos anos prévios à guerra civil espanhola, a perseguição religiosa avançava num crescendo. Muitas igrejas queimadas, padres torturados ou mortos… Quase todos os dias São Josemaria era insultado ou ameaçado pelas ruas de Madrid. Em 18 de setembro de 1931 anotou em seus apontamentos íntimos:

─ «Tenho de agradecer ao meu Deus uma notável mudança: até há pouco tempo, os insultos e as chacotas que, por ser sacerdote, me dirigiam desde a vinda da República (antes, raríssimas vezes) tornavam-me violento. Decidi rezar por eles com uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, quando ouvisse grosserias ou indecências. Assim o fiz. Custou-me. Agora, ao ouvir essas palavras ignóbeis, regra geral, fico comovido, considerando a desgraça dessa pobre gente que, se procede assim, julga fazer uma coisa honesta, porque abusando da sua ignorância e das suas paixões, a fizeram crer que o sacerdote, além de ser um parasita vadio, é seu inimigo, cúmplice do burguês que o explora»[3]. A isso ele chamava «apedrejar com Ave-Marias»[4].

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Uma apostila final: Estivemos falando, neste capítulo, do perdão dos inimigos, daqueles que – como diz Jesus – nos querem mal, “nos maltratam e perseguem”, e não se arrependem. Sob esta luz, releia de novo, nem que seja por cima, o capítulo anterior. Talvez Deus o ajude a abrir os olhos e a perceber que, para viver o perdão no convívio familiar, na vida ordinária, a nossa misericórdia tem que ser muito maior do que talvez imaginamos. Peçamo-la a Deus, e procuremos compreender um pouco melhor o que é “fazer a vida amável”.

 


[1] O homem que sabia perdoar,  Ed. Indaiá  2011. Cf. págs. 29-30

[2] Ibidem, pág. 54

[3] O homem que sabia perdoar, pág. 29

[4] Ibidem, pág. 28