1-PACIÊNCIA: O ESTOJO AVELUDADO

Um suave estojo

Se olharmos com sinceridade para dentro de nós, é bem possível que descubramos que um dos nossos desejos mais íntimos é que o mundo (a vida, as coisas, os acontecimentos e as pessoas) funcione como um estojo aveludado e perfeitamente modelado, em que se encaixem sempre suavemente, sem colisões nem atritos, os nossos sonhos, os nossos desejos, os nossos caprichos, as nossas manias e até mesmo os nossos defeitos.

Ah, se tudo na vida fosse assim! Para o meu mau humor, o estojo de cetim da compreensão dos outros; para a minha doença, o estojo de seda de um serviço público de saúde com a aparelhagem funcionando bem e sem filas; para o meu trabalho, o estojo adamascado de chefes que me louvem e subordinados que em tudo me obedeçam; e, lá em casa, o veludo amabilíssimo dos filhos dóceis e agradecidos, sempre prontos a sussurrar com um sorriso carinhoso: – “Mamãe e papai têm razão”, e o de um marido ou uma mulher que, sem pensarem em problemas e cansaços pessoais, só saibam dizer, com o olhar mais terno: – “Meu bem, que gostaria de fazer hoje?”

Que fantástico um mundo assim! Se o mundo fosse o nosso suave e ajustado estojo (tendo, além disso, um Deus tão “bom” que nos fizesse sempre as vontades), todos seríamos pacientes e calmos. Só que esse mundo não existe.

Estojos desajustados

A verdade é que, como não vivemos no País das Maravilhas, como Alice, e sim na Terra dos Homens de que falava Saint-Exupéry, forçoso reconhecer que a toda a hora o “estojo” do mundo falha, machuca, não abre, não fecha, se desajusta ou se desengonça. E então a impaciência começa a brotar, e a crescer, e a se manifestar em forma de irritações, lamentos, tristezas, reclamações e lágrimas.

As formas desse desajuste são tão variadas quanto as espécies de insetos num livro de entomologia. Bastaria observar, com um pouquinho de atenção, relatos de um único dia na vida de qualquer família normal para podermos elaborar um volumoso dicionário de impaciências. Lembremos algumas das mais óbvias e corriqueiras, a título de exemplo.

Papai acorda mais cedo e vai preparar o café (ofício cada dia mais masculino). Primeira “fechada” naquela hora de olhar estremunhado e nervos mal temperados: da torneira não sai um pingo d’água, porque é dia de corte devido à estiagem; e o pior é que o jornal tinha avisado, e já é a quarta vez que se esquece disso. Segunda “fechada”: a menina, após a explosão de um estrondoso rádio despertador e mais três séries de violentas batidas da mãe na porta do quarto, continua a dormir; e o pobre progenitor de emprego ameaçado, que já está atrasado para o serviço, vai ter que deixá-la antes, a ela e ao Rodrigo, na escola. Ó estojo mal ajustado! Mal começamos!

Mas o que mal começa, mal continua. Quando o aflito pai vai ligar para o escritório, avisando que uma “emergência” o impedirá de chegar na hora, o servidor dos celulares da família está fora do ar, e a tentativa de ligar pelo velho telefone de gancho  choca-se com o muro impenetrável de um  permanente “ocupado”.

Finalmente, quando o pobre homem, esfalfado antes de ter começado a trabalhar, consegue sair à rua com o velho carro usado, adquirido a preço camarada de um colega, os olhos batem instantaneamente no para-lama arrebentado…, e a última que pegou no carro foi a mulher. – “Mais uma vez, outra vez!”, exclama o nosso protagonista, praticando sem o saber um ato teologicamente perfeito de impaciência.

Será, porventura, preciso acrescentar que, ao conseguir entrar na avenida, com um barulhinho no motor que deixa o coração em sobressalto, o trânsito está parado? O engarrafamento é monumental, fora do comum – que vai sendo comum mesmo –, devido a uma carreta que se incrustou de frente no canteiro central e está atravessada na pista. – “Mais essa! E depois dizem que não existe a lei de Murphy!”

Se quiséssemos continuar pintando esse quadro escuro de contrariedades cotidianas, não poderia faltar uma referência aos comentários mordazes dos colegas de escritório, porque o time dele “mais uma vez” perdeu, nem faltaria a queixa contra o infernal barulho da rua que tanto dificulta trabalhar; e assim, após inúmeros aborrecimentos, veríamos o nosso homem voltar para casa à noite vergado e pálido, num tal estado de ânimo que qualquer pergunta da mulher lhe pareceria uma ofensa.

Poderíamos, sim, pintar este quadro, mas – ainda que tivesse um fundo realista – seria completamente falso.

A verdade é que, salvo em raros dias que são exceção, a vida não se compõe de uma sequência ininterrupta de contrariedades. Graças a Deus, há também muitas satisfações e muitas alegrias e, normalmente, para quem não estiver cego, o mais justo é terminar o dia fazendo uma enorme lista de bênçãos recebidas de Deus, de males e perigos evitados, de proteções “descaradas” dos Anjos da Guarda, além de muitos detalhes simpáticos do próximo, de modo que o coração sinta a necessidade de elevar uma emocionada ação de graças. Se fôssemos sinceros, veríamos que o elenco das bênçãos – tão belas como habituais – é normalmente bem superior ao das contradições.

Então, seria muito mais fácil vencer a tentação das queixas e broncas, e descobrir que ser agradecido é um eficaz vacina do coração contra o mal da impaciência.

Mas sobre este assunto há ainda muito a meditar. Iremos vendo-o.

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, A paciência, 3ª ed., Quadrante 2015