8-PACIÊNCIA: A SANTA IMPACIÊNCIA

Tudo o que fomos considerando nesta sequência de meditações, não poderia incentivar-nos talvez a procurar uma paciência feita de passividade calma, de abandono nas mãos de Deus, muito confiante, mas também excessivamente inerte?

Não. Quando um cristão repete, com o salmo: Só em Deus repousa a minha alma, é dEle que me vem a paciência (Sl 62, 6), não está fazendo a oração das desistências cômodas, como se dissesse: – “Eu durmo tranquilo reclinado sobre o peito do meu Deus, desligo de tudo, e Ele que faça o que julgar melhor”.

O bom cristão é sempre parecido com São João, pelo menos em uma coisa: o seu modo de repousar em Deus consiste em reclinar a cabeça sobre o Coração de Cristo. E o Coração de Jesus está em chamas: mais do que repouso, contagia ardores.

Queremos saber qual é a fogueira que lhe anda no peito? Ouçamos umas palavras que pronunciou pouco antes da sua Paixão, e que deixam entrever as labaredas da santa impaciência que o consumia por dentro: Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Tenho de receber um batismo [o derramamento do seu sangue redentor], e como estou ansioso até que isto se cumpra! (Lc 12, 49-50).

O Senhor aguardava, ansioso, a “sua hora”, o momento em que levaria à plenitude, no alto da Cruz, a obra redentora, e esse desejo queimava-o por dentro. Queria com todas as suas forças – disposto a dar a vida até à última gota de sangue – que a Verdade e a Vida divinas se alastrassem em chamas por toda a terra. E aguardava essa hora – deixando na mão do Pai os tempos e os momentos –, em serena e fervente tensão. Não vivia a calma passividade dos falsos pacientes. Era puro fogo, brasa em crepitação.

Por isso, se nestas oito meditações tivéssemos dado, nem que fosse de leve, a impressão de que a paciência é apenas uma arte de sofrer, de aceitar, de persistir no sacrifício, e mais nada, estaríamos deixando o leitor com um equívoco na alma. “A paciência cristã – diz um autor – nada tem a ver com os temperamentos fleumáticos […]. O fleumático nunca se impacienta, porque para ele nada existe que o comova interiormente […]. Quem não tem interesse por alguma coisa, é natural que possa esperar muito tempo: nunca perderá a calma, nunca experimentará a urgência estimulante, nunca sentirá impaciência” (D. von Hildebrand, A nossa transformação em Cristo, Ed. Aster, págs. 202-203.].

Mas aquele que possui o ideal cristão e experimenta o zelo pela missão que Deus lhe confiou, não se acomoda numa calma mole. Estimulado por uma nobre inquietação, tem pressa em aproveitar – por amor a Deus e aos homens – todos os instantes da sua vida, e, sem permitir que a pressa o torne precipitado, não deixa para amanhã o que hoje pode oferecer ao Senhor.

O quadro completo da paciência só se abrange quando se tem presente a frase lapidar de Santo Tomás de Aquino: “Só o amor é causa da paciência”. É nisto que está a autenticidade desta virtude. Aquele grande amor que, com a ajuda da graça divina, nos dá forças para aceitar, sorrindo e de olhos postos em Deus, as pequenas contrariedades e as grandes dores; aquele grande amor que nos dá energia para sermos fiéis e persistir pacientemente na luta um dia após outro, é o mesmo amor que acende na alma os grandes ideais e nos impele a realizá-los com a maior vibração e prontidão possíveis.

A mesma paciência que “aceita” torna-se divinamente impaciente em seus desejos de amar, de dar, de edificar. Não se atira atabalhoadamente à ação, mas tem pressa, quer andar – como gostava de dizer São Josemaria – “ao passo de Deus”, ao ritmo das graças e das oportunidades que o Senhor dá, sem nada perder, sem nada atrasar.

Por isso, não é incoerente que nós, que começamos estas meditações com a frase “Tenha santa paciência”, terminemos – com o favor de Deus – espicaçando o leitor a que se lance com brio a dar o melhor de si mesmo e a cumprir com entusiasmo a missão que certamente Deus lhe confiou, enquanto lhe dizemos, como despedida: “Tenha santa impaciência!”

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, A paciência, 3ª ed., Quadrante 2015