Mundo em crise e esperança

Crer no amor de Deus

Referindo-se à crise de valores espirituais e morais do nosso tempo, o Papa Bento XVI comenta, na parte final da encíclica Deus é amor (Deus caritas est), que «os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, “na bondade de Deus e no seu amor pelos homens” (Tit 3, 4). Apesar de estarem imersos, como os outros seres humanos, na complexidade dramática das vicissitudes da história, permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós»1.

E acrescenta, com palavras que convém meditar:

«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e, assim, gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! Desse modo, Ele transforma a nossa impaciência e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem o mundo nas suas mãos e que, não obstante todas as trevas, Ele vence […]. A fé que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita, por sua vez, o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única – que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir. O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, desse modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente encíclica»2.

Essa visão esperançosa, positiva, otimista, será uma utopia? Não. As utopias são divagações sonhadoras ou teimosos apriorismos ideológicos, divorciados da realidade. Cristo é “realista”. Nunca prometeu um triunfo geral e avassalador. Ninguém melhor do que Ele conhece o caráter sagrado da liberdade que Ele próprio nos outorgou. Podemos dizer-lhe “sim” e podemos dizer-lhe “não”. Podemos construir ou destruir. Ele nada quer impor-nos, apenas propor-nos: Eis que estou à porta do teu coração e bato. Se alguém escutar a minha voz e me abrir a porta, entrarei e cearei com ele… (Apoc 3, 20). A liberdade de dizer “não” sempre estará na mão de todos os homens, sempre poderá abrir os abismos do mal. Mas sempre estará também a liberdade de dizer “sim”, de aceder ao abismo da santidade de Deus e de mudar o mundo, lavando-o numa catarata de Verdade e de Amor.

«A vida – escreve ainda Bento XVI 3 – não é um simples produto das leis e dos acasos da matéria». Não estamos em um mundo cego, à deriva. «Em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo – prossegue –, há uma Vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus se revelou como Amor». Deus não deixará que o mundo se transforme num pião desvairado, mesmo que às vezes chegue à beira disso. Deus está presente e age: Meu Pai continua agindo até agora – disse Jesus – e eu ajo também (Jo 5, 17). E isso não é utopia, é uma verdade prodigiosa.

A pequena semente

Se quisermos mais um alicerce para a esperança no meio das sombras, basta constatar, lendo o Novo Testamento, que, se, por um lado, é verdade que nem Cristo nem os Apóstolos jamais nos prometeram um paraíso na terra, por outro, também é verdade que nunca falaram de uma devastação moral absoluta, que apagasse a esperança, nem sequer ao anunciar as piores crises de fé da humanidade e a vinda de muitos anticristos (cfr. 2 Tes 2, 3-4; 1 Jo 2, 18; 1 Tim 4, 1-2, etc.).

Jesus não prediz aos seus discípulos nem sucessos retumbantes nem derrotas catastróficas. O que Ele faz é propor-lhes reiteradamente um belo mistério de esperança, que às vezes esquecemos: O Reino de Deus – que com Cristo veio ao mundo – é como o grão de mostarda que, quando é semeado, é a menor de todas as sementes; mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra (Mc 4, 31-32). É uma imagem clara do que a presença de Cristo, do que a graça do Espírito Santo podem fazer, na alma e no mundo, se nós, os cristãos, formos fiéis.

Esta parábola do grão de mostarda complementa-se com a do trigo e o joio. O Reino dos céus é semelhante a um homem – Jesus – que tinha semeado boa semente em seu campo (o mundo). Aconteceu, porém, que, na calada da noite, o Inimigo (o demônio e os seus seguidores) espalhou joio, erva daninha, no meio do trigo. Ambos cresceram, e o dono do campo viu o joio crescer de mistura com o trigo, parecendo que iria com ele. O triunfo do bem só se verá no fim da História. Só na época da colheita – ou seja, no dia do Juízo – é que o joio será separado do trigo, e o trigo brilhará como o ouro. Os que fazem o mal serão lançados fora, e os justos, no Reino do Pai, resplandecerão como o sol (cfr. Mt 13, 24-30.36-43).

É com essa perspectiva positiva que João Paulo II escrevia: «Na realidade, a parábola pode ser tomada como chave de leitura para toda a história do homem. Com diverso sentido nas várias épocas, o “trigo” cresce juntamente com o “joio” e, vice-versa, o “joio” com o “trigo”. A história da humanidade é o palco da coexistência do bem com o mal. Isto significa que, se o mal existe ao lado do bem, também o bem persevera ao lado do mal, e cresce» 4. Isso é o que importa, Jesus garante que “o bem persevera”.

A boa semente sempre cresce, porque sempre encontra boa terra em almas generosas e fiéis. É alentadora essa promessa de que o grão de mostarda, o grão de trigo, existirá até o fim do mundo e de que sempre, de um modo ou de outro, crescerá, umas vezes de maneira oculta para nós; outras, de forma palpável e exuberante. Num e noutro caso, é nosso dever perseverar, colaborar, corresponder à graça divina, para que a semente arraigue e se desenvolva, mantendo a fé mesmo que, durante longo tempo, não esteja aparentemente a crescer.

Vamos agora dar ainda um novo passo na nossa reflexão, perguntando-nos: Essa pequena semente, o que é? Cristo disse, na parábola do semeador, que é a palavra de Deus (cfr. Lc 8, 11). Mas isso não esgota o seu significado. Há uma comparação audaz, utilizada por São João, que me parece enormemente sugestiva. Ele diz que o próprio Espírito Santo é a semente de Deus, que reside em nós, os cristãos unidos a Deus pela graça (cfr. 1 Jo 3, 9). Essa semente é Deus! É o seu Amor! É o Espírito Santo. E é próprio do Espírito Santo “produzir” – se é que se pode falar assim – almas santas. A partir delas, a partir dos santos – que nunca faltaram nem faltarão na história da Igreja –, é que a semente continuará a ser espalhada sem cessar pelo mundo e sempre dará fruto maduro e abundante.

Uma comparação e um episódio

Como ilustração do que acabamos de ver, vejamos a seguir uma comparação e um episódio histórico, que podem lançar uma luz clara sobre as razões da nossa esperança (1 Pedr 3,15).

Primeiro, a “comparação”, que, como todas as comparações, sempre será insuficiente para expressar de modo pleno as realidades divinas.

Talvez o leitor tenha assistido a um documentário excelente sobre o deserto da Namíbia, na África. Creio que, na versão brasileira, se chamava, com um toque de humorismo, Os bichos também são gente boa.

Mostrava a desolação espantosa desse deserto, na época da seca. Quem não conhecesse a realidade diria que era como um Saara irrecuperável. No entanto – como acontece de modo análogo no nosso sertão nordestino –, quando chegava a época das chuvas torrenciais, o deserto acordava, estremecia, pulsava, transformava-se num jardim exuberante de vida vegetal e animal: árvores frondosas, carregadas de frutos; arbustos; capim à farta; bandos de elefantes, búfalos, gnus, macacos…, lagos atulhados de peixes e povoados por aves inúmeras…

Os pessimistas, que julgam que, no mundo, está avançando de modo irresistível a “era pós-cristã”, têm uma visão saariana do mundo atual, e não se lembram de que, mesmo no pior momento, a semente de Deus, ainda que não se perceba e pareça ter morrido, está presente neste nosso mundo atrapalhado, e mantém nele a sua fecundidade divina. De cada vez que a chuva da graça cai em almas “generosas e boas” (cfr. Lc 8, 18), desponta e se alastra no mundo um vergel divino.

O “episódio” acima anunciado é um fato real, ao mesmo tempo trágico e luminoso, ocorrido em 1996 na Argélia, que a seguir vou resumir. Quem quiser um relato mais detalhado do episódio pode encontrá-lo num texto do pe. Fernando Pascual, incluído no web-site catholic.net.

Trata-se do martírio de sete monges trapistas franceses, que se encontravam num mosteiro nas montanhas da zona do Atlas, no Norte da África, concretamente em Tibhirine, perto da cidade de Medea. O mosteiro tinha recebido o nome de Nossa Senhora do Atlas. Dedicavam-se à oração e prestavam serviços humildes aos muçulmanos mais necessitados da região.

Em 26 de março de 1996, sete monges desse mosteiro foram seqüestrados por um comando radical de terroristas islâmicos. Após diversas vicissitudes, no dia 21 de maio desse mesmo ano os sete monges – entre eles, o abade – foram degolados. Só em 30 de maio é que os seus restos mortais foram achados perto de Medea.

Entre dezembro de 1993 e janeiro de 1994, o abade do mosteiro, padre Christian de Chergé, prevendo esse trágico desfecho, havia escrito um testamento espiritual, testemunhando nele o seu amor a Cristo e, por Ele, a todos os muçulmanos da zona. Reproduzo uns poucos parágrafos:

“Se algum dia me acontecesse ser vítima do terrorismo, eu quereria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Peço-lhes que rezem por mim.

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.

“Se Deus o permitir, espero poder mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, e contemplar assim, juntamente com Ele, os seus filhos do Islã tal como Ele os vê; que os possa ver iluminados pela glória de Cristo, fruto da sua Paixão, inundados pelo dom do Espírito… Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus”.

Finalmente, dirigindo-se ao seu futuro assassino, escrevia: “E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo, também a ti dirijo esta ação de graças…, e peço a Deus que nos seja concedido reencontrar-nos no Céu, como «bons ladrões» felizes no Paraíso, se assim Deus, Pai nosso, teu e meu, o quiser. Amém! Im Jallah!”.

Será que esse monge verá esse sonho realizar-se algum dia ? Parece muito difícil, mas não podemos esquecer que Deus faz coisas incríveis com a sua graça, sobretudo em resposta às orações dos que crêem nEle e o amam de verdade. Penso que esses monges, ignorados de todos e perdidos nos confins desérticos da Argélia, encarnam o mistério do grão de mostarda; e especialmente encarnam o mistério daquele grão de trigo de que falava Jesus pouco antes da sua Paixão: Se o grão de trigo, caindo na terra, morrer – morrer por amor –, produzirá muito fruto (cfr. Jo 12, 24).

A força do amor cristão e os seus frutos impressionantes não podem ser pesados por nenhuma balança humana. Estejamos certos de que a Providência fará com que, mesmo nas épocas mais confusas e afastadas de Deus, surjam muitos santos e santas, que, como tochas brilhantes, mantenham acesa a “sinalização divina” e arrastem para a fé e o amor cristão, com a suave pressão da sua oração e do seu exemplo, muitas outras almas, capazes de “renovar a face da terra” (cf. Sl 104,30).

[Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: Otimismo cristão, hoje]

1 Spe salvi, n. 38.
2 Spe salvi, n. 39.
3 Spe salvi, n. 5.
4 Memória e identidade, pág. 14.