O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti – I)

UMA CAMÉLIA VERMELHA
A porta do oratório estava aberta e todas as luzes acesas. Eram 8,00 horas da noite de 22 de maio de 1974. O lugar, a sede do Opus Dei no Brasil, no bairro do Sumaré, em São Paulo. O clima, carregado de emotividade cálida, era de intensa expectativa. E não era para menos, pois se tratava da primeira vez em que São Josemaría Escrivá visitava os seus filhos da América do Sul, começando pelo Brasil.
Eu encontrava-me junto dessa porta. Por ela entrou São Josemaria, após ter cumprimentado antes, com grande afeto, todos os que o recebemos, recém chegado do aeroporto. Mal entrou no oratório, feito o sinal da cruz com a água benta, o seu olhar, brilhante, cravou-se no sacrário. Aproximou-se dele, direto, mirando-o embevecido,  como outros contemplam, cativados, a pessoa amada.
 Adorou Jesus presente na Eucaristia  – o “Amor dos amores” –  com uma genuflexão pausada, enquanto com a alma Lhe dizia: «Creio firmemente que és Jesus, o filho de Maria sempre Virgem, que estás aqui verdadeira, real e substancialmente presente, com o teu corpo, o teu sangue, a tua alma e a tua divindade. Adoro te devote…». Uma oração silenciosa, habitual nele, que nós viemos a conhecer quando nos confidenciou que costumava dizê-la, com o coração, ao adorar  Jesus na Santíssima Eucaristia.
Foi neste momento que aconteceu o episódio da flor.
Já ao entrar no oratório, o Bem-aventurado Álvaro del Portillo, seu fiel e inseparável colaborador, vindo de Roma com ele, entregou a Mons. Escrivá uma camélia vermelha. Ele tomou-a na mão e, encostando-a ao peito, quase que apertando-a contra o coração, subiu ao estrado do altar e  depositou-a na mesa, junto ao sacrário, ao pé de Jesus. Então, sorriu.
A história dessa flor e simples: apenas uma pequenina história do coração. São Josemaria Escrivá saía do aeroporto de Congonhas, aonde acabava de chegar num avião Bandeirantes, que o trouxe do Rio  – término do seu voo transatlântico  –, quando foi repentinamente “assaltado”.
Isso mesmo. Um grupo de cinco pessoas, meio embuçadas pela escuridão da noite, aproximou-se rapidamente da janela do carro através da qual se avistava o perfil de Mons. Escrivá. Só que, em vez de gritarem “É um assalto!”, gritavam “Padre, Padre!”, e, em vez de apontar-lhe ao peito um revólver, apontavam-lhe uma flor. Era uma camélia vermelha, grande, viçosa, bonita.
Um símbolo, que o Padre entendeu e agradeceu: – «Obrigado, obrigado! Que Deus vos abençoe!».  Nas pétalas estavam invisivelmente inscritos os nomes daqueles cinco amigos, mas a camélia tinha um simbolismo mais amplo: o do carinho para com o “pai” de centenas de filhos brasileiros do Opus Dei, que aquele grupo de amigos quis expressar por meio de uma flor, vermelha como o coração. São Josemaria não guardou a camélia para si. Tudo na sua vida era só para o seu grande Amor  – Deus  –  e para as almas que Ele ama. E, deste modo, lá no altar ficou a camélia até murchar, exalando seu perfume em honra de Jesus sacramentado.