O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-IV)

UM CARTÃO E UMA TALHA
O relógio marcava meio-dia. Aquela manhã de junho de 1974 tinha a suavidade aconchegante do sol de inverno em São Paulo. São Josemaria regressava ao Centro Universitário do Sumaré – onde residiu durante a sua estadia no Brasil – após uma hora de reunião familiar (“tertúlia”) com um grupo de suas filhas brasileiras.
Faltava ainda um tempo para o almoço e alguém teve a ideia de convidá-lo a visitar uma ala de escritórios do edifício, que ainda não conhecia. Foi aí que apareceu o cartão. Porque tudo começou com um cartão de Natal colocado a um canto da mesa de um pequeno escritório. Era um cartão canadense de Boas Festas, com a reprodução fotográfica de uma talha em madeira da Sagrada Família sobre um fundo verde escuro: os três − Jesus, Maria e José – caminhando; o Menino no meio, de mãos dadas com a Mãe e São José.
Essa imagem atraiu logo São Josemaria; e ali ficou, sentado à mesa, enquanto contemplava encantado as três figuras.
Todos sabíamos do arraigado amor do Fundador do Opus Dei à Sagrada Família, que vinha crescendo ao longo da sua vida como uma maré impetuosa de devoção, carinho e delicadezas. Mal desembarcou no Brasil confidenciou o propósito espiritual que tinha feito para aquele mês de maio: ir «a Jesus, por Maria, com José».
De repente, um dos presentes lembrou-se de mencionar uma talha de madeira da Sagrada Família, de quase meio metro de altura, que se conservava naquela casa à espera do destino definitivo em outro Centro. Bastaram uns momentos para que aquela imagem de Jesus, Maria e José, caminhando de mãos dadas como as do cartão, repousasse sobre a mesa diante do santo.
Punha os olhos, cativado, em cada uma das três figuras, beijava-as, acariciava-as com as mãos. Transparecia nessas atitudes a fé enamorada com que tratava habitualmente, dia e noite, com Jesus, Maria e José. Muitas vezes lhe tínhamos ouvido que seu desejo seria «estar sempre com os três».
Foi uma bela lição de piedade pessoal, e um lembrete vivo – para os que o conhecíamos e meditávamos as suas obras – das luzes que, desde 1928, não se cansou de difundir e que cumularam de fé e ideal muitos corações de cristãos correntes, de “cidadãos comuns”. Deus pode e deve ser encontrado na vida diária – vida de família, de trabalho, de amizades – como a que viveu durante trinta anos a Sagrada Família. E ali, no trabalho e nos deveres cotidianos, “vulgares”, podem ser alcançados os cumes da santidade, os mais altos patamares do Amor cristão.
«Jesus – tinha escrito −, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida comum de cada dia, tem um sentido divino. Por muito que tenhamos considerado essas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da vida de Jesus entre seus irmãos, os homens. Anos de sombra, mas, para nós, claros como o sol. Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e que lhes dá uma autêntica projeção» (É Cristo que passa, n. 14).
A imagem de papel e a imagem de madeira foram um farol que projetava nos que o viam e ouviam o cerne da mensagem do Fundador do Opus Dei: que Deus chama todos os batizados à santidade, e que a vida cotidiana, corriqueira, comum, vivida na presença de Deus, colocando amor nos detalhes diários, pode e deve ser um luminoso caminho de santidade.
Adaptado do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil, Quadrante 2007, págs. 43-45