O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-V)

O CARVÃO E O RUBI
Na noite de um para dois de junho de 1974, véspera de Pentecostes, São Josemaria, por causa de uma indisposição física, não conseguiu dormir quase nada. É natural que um homem de setenta e dois anos, com a saúde fragilizada, depois de uma noite em claro, tenha acordado sentindo uma grande fadiga.
Justamente para essa manhã de Pentecostes estava programada uma ampla reunião para centenas de pessoas de todas as idades – homens e mulheres, solteiros e casados, anciãos e adolescentes… –, que teria lugar no auditório do Palácio Mauá, na Praça João Mendes de São Paulo.
Mal começou a “tertúlia”, vários dos assistentes ficaram assombrados ao verificar que nunca tinham visto Mons. Escrivá tão bem disposto, transbordante de vitalidade e alegria, ágil de pensamento e de palavra.
Tinha-se a impressão de que o Espírito Santo, na sua grande solenidade, quis aquecer-lhe a alma com “o fogo do seu amor”.
Foi uma manhã de diálogo animadíssimo, em que muitos perguntavam ao Padre e ele respondia, transmitindo alegria, bom humor e luzes de Deus. Vamos lembrar agora somente um desses diálogos, como amostra do que foi aquele encontro inesquecível.
Levantou-se um juiz, e perguntou-lhe qual seria o melhor modo de ajudar os outros a se aproximarem de Deus:
  – «Meu filho – foi a resposta −, que bom dia hoje para falarmos disso! É verdadeiramente o Espírito Santo quem coloca no seu coração e na sua boca essa pergunta».
São Josemaria espraiou-se, então, numa resposta que mostrava um traço essencial da mensagem do Opus Dei:  recordou-lhe que é dever de todos os cristãos comuns –  de todos! – procurar a santidade e o apostolado no meio do mundo; e fez-lhe ver que, por outro lado, o apostolado só pode ser eficaz se for um ”transbordamento” da vida interior, do amor de Deus. A resposta, um tanto longa, densa de doutrina, terminou com uma comparação:
«Todos os cristãos temos a obrigação de ser apóstolos. Todos os cristãos temos a obrigação de levar o fogo de Cristo a outros corações. Todos os cristãos temos que fazer com que se alastre a fogueira da nossa alma.
»Olhe, você e eu somos pouca coisa … No fundo do meu coração, vejo-me como uma espécie de nada. Vamos dizê-lo com uma comparação: vejo-me a mim mesmo como um carvão que nada vale: preto, escuro, feio… Mas o carvão, metido no fogo, se acende e se converte numa brasa: parece um rubi esplêndido. Além disso, dá calor e luz: é como uma joia reluzente. E caso se apague? Outra vez carvão! E caso se consuma? Um punhadinho de cinza, nada.
»Meu filho, você e eu temos de inflamar-nos no desejo e na realidade de levar a luz de Cristo, a alegria de Cristo, as dores e a salvação de Cristo a tantas almas de colegas, de amigos, de parentes, de conhecidos, de desconhecidos – sejam quais forem as suas opiniões em coisas da terra –, para dar a todos um abraço fraterno. Então, seremos rubi aceso, e deixaremos de ser esse nada, esse carvão pobre e miserável, para sermos voz de Deus, luz de Deus, fogo de Pentecostes!»
Adaptado de trechos do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil,  Quadrante 2007, pp. 31 a 35