Espontaneidade e autenticidade

Uma janela

Ser espontâneo. Não é este um dos valores que o homem e a mulher atuais mais apreciam? Para muitos, ser espontâneo é a única maneira de ser autêntico. Perdida a espontaneidade, perdida a autenticidade.

Vamos refletir um pouco sobre isso, e possivelmente chegaremos a conclusões um pouco surpreendentes. Porque espontaneidade e autenticidade são duas atitudes que não se identificam, ainda que muitos pensem o contrário.

Para esclarecer esse equívoco, é preciso afirmar que a espontaneidade, em si, não é nem boa nem má, pela simples razão de que a espontaneidade é apenas uma constatação: a única coisa que fazem o pensamento espontâneo, a palavra espontânea, o gesto espontâneo é abrir uma janela na alma, mostrar como que através de um vidro o que há no nosso interior. O que temos dentro vê-se pelo que sai espontaneamente para fora. Se você tem preguiça, vai sair preguiça; se guarda rancor, vai sair rancor; se cultiva amor, vai sair amor. Como uma chapa de pulmão, que revela, mas não melhora nem piora a saúde.

Então, por que chamamos “autenticidade” a uma coisa como a espontaneidade que, em termos de valor, é perfeitamente neutra?

No caso, a confusão não é só de palavras, mas de idéias; e isso é muito perigoso, porque as idéias determinam a conduta.

Nada há, talvez, mais espontâneo em nós do que os nossos desejos, bons ou ruins. Pois bem, se confundirmos a autenticidade com a espontaneidade, será lógico pensarmos – como muitos fazem – que a atitude mais “autêntica” é a de seguir os nossos desejos sejam eles quais forem, deixar-nos levar pelas nossas apetências e “vontades”.

– Seja autêntico! – proclamam muitos “espontâneos” –. Não se reprima, repressão faz mal. Você tem vontade de berrar? Berre. Tem vontade de beber? Beba! Tem vontade de pular todas as cercas? Pule-as! E você, mulher, não é verdade que está farta do marido e dos filhos, que gostaria de novas experiências, que sonha em realizar o que, presa à família, nunca conseguiu fazer? Largue a família! Siga as asas dos desejos! Já está na hora de ser autêntica, de ser você mesma, de se realizar!

Nunca ouviu frases assim? Com certeza já assistiu a essa telenovela.

Um adjetivo

Isto faz-me lembrar a repelente história de um “autêntico” que não há muito ouvi contar. Um professor de ginástica – aprendiz de Schwarzenegger – declara alto e bom som à platéia de colegiais que o escuta: – Eu não ligo para essa babaquice de religião! O que eu quero é curtir a vida e, acima de tudo, o sexo. Olhem, eu sou muito sincero, eu procuro ser autêntico. Quando saio com as garotas, falo bem claro desde o começo: “A única coisa que me interessa é sexo, curtir o sexo. Está avisada. Por isso, se você ficar grávida, é assunto seu. Aborte, faça o que quiser. Eu não tenho nada com isso. Ficou claro?”.

Sei de uma pessoa que, quando ouviu contar essa história repulsiva, não se conteve e comentou, com um gesto de náusea: – Muito autêntico, sim. Ele é mesmo um autêntico cafajeste!

Com esse comentário, sem reparar, pôs os pingos nos iis. Não só nos iis do cafajeste musculado, como nos da gramática e do pensamento, pois percebeu que “autêntico” é um adjetivo, e não um substantivo.

Não há ninguém que seja “autêntico” e mais nada, só autêntico. Um adjetivo assim isolado, pendurado no ar, não tem sentido. O adjetivo “bom”, por exemplo, está à espera de um substantivo: “Homem bom”, “Bom dia”, “Bom restaurante”…

Por isso, quando alguém nos diz: “Eu quero ser autêntico”, deveríamos perguntar-lhe: – “Você quer ser um autêntico quê?” Pois tanto pode ser um autêntico irresponsável como um autêntico responsável, um autêntico trapaceiro como um autêntico trabalhador, um autêntico criminoso como um autêntico santo.

– Certo – dirá alguém –, entendo, mas mesmo assim não vejo claro. Eu acho que falar de uma pessoa que é autêntica faz sentido…

– Pode fazer sentido, sim, se se subentende que a palavra “autêntico” é um adjetivo, de maneira que, na realidade, o que queremos dizer é que essa pessoa é “um homem autêntico”, “uma mulher autêntica”. Isso, sim, está carregado de significado.

O que é uma “pessoa autêntica”?

Conta o Evangelho de João que, no dia em que Cristo viu pela primeira vez Natanael – o que viria a ser o apóstolo Bartolomeu –, exclamou, cheio de alegria: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade (Jo 1,47).

Se traduzíssemos essa frase com uma ligeira variação – eis um verdadeiro homem, eis um autêntico homem –, o seu significado permaneceria inalterado. A felicidade de Cristo ao proferir esse elogio procedia do fato de estar perante um homem de verdade, um homem a quem o adjetivo autêntico podia ser aplicado com justiça.

Quais diríamos que são as características, as qualidades de um homem autêntico (varão ou mulher, que ambos os sexos entram, em boa gframática, no vocábulo “homem”)?

Vejamos. Quando alguém diz “isto é ouro autêntico”, quer dizer que é ouro mesmo, tem a natureza do ouro, e não a do chumbo, nem a do cobre, nem a de uma liga de metais. Tudo, nesse objeto, corresponde à natureza, às propriedades, às características do ouro.

Da mesma forma, quando se diz “este é um homem autêntico”, quer-se dizer que tudo nessa pessoa – o seu pensamento, a sua atuação, o seu relacionamento com os outros – corresponde à sua natureza de homem. Não à natureza de um animal, nem à de uma pedra, nem à de um robô, nem à de qualquer outra coisa que não seja especificamente humana.

Pode-se perguntar, então, o que é o especificamente humano. Creio que a melhor resposta ainda é a de Aristóteles, acompanhado por tantos outros: o homem é um animal racional. Isto é, tem todas as características biológicas do animal, do ser “animado”, do ser vivo. E, acima delas, possui a inteligência, a razão, que os animais não têm.

É, portanto, um ser inteligente, consciente, capaz de pensar, entender e julgar; e possui também o que os filósofos chamam apetite racional, isto é, a vontade livre, pela qual é capaz de querer, de escolher, de decidir e de agir com base no que a razão lhe faz ver.

Se o homem fosse apenas um animal, agiria movido de maneira determinista, pela bioquímica, por compulsões irresistíveis, por instintos e reações irreprimíveis, por reflexos condicionados, pela simples atração ou repulsão do meio…

Mas o homem não é um pedaço de matéria orgânica cega. Tem a inteligência e a vontade, tem o poder, a capacidade de pensar – em si mesmo, no mundo e na vida –, e de tomar posição.

Por isso, se quiser ser coerente consigo mesmo – ou seja, autêntico homem –, deve pensar, deve esforçar-se por entender o sentido da sua vida; deve orientar a sua vida, consciente e livremente, pelos rumos que a razão lhe indica. “Para que nos foi dada a razão – perguntava o filósofo Jaime Balmes – senão para nos servirmos dela e empregá-la como guia das nossas ações?” (El Criterio, BAC, Madrid, 1974, pág. 293).

Portanto, só é autêntico o homem que pensa e procura sinceramente uma resposta inteligente a estas perguntas: “Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Para que vivo? Qual é o verdadeiro bem da minha vida? Qual é o verdadeiro bem do mundo, da sociedade de que faço parte e pela qual sou responsável?”…

Quem prescinde dessas perguntas e vive impelido pelo instinto, movido só pela atração do prazer – como aquele indesejável musculado –, pelas vontades, pelos sentimentos superficiais, pelo imediatismo do que “gosta” e “tem vontade de fazer”, esse não é um autêntico homem. É um infra-homem. Ficou no estágio animalesco. Está traindo-se a si mesmo. Está desertando da humanidade para reduzir-se à bestialidade.

Uma vida com sentido

“A razão foi-nos dada para empregá-la como guia das nossas ações”, dizia Balmes.

Há muitos que “pensam que pensam, mas não pensam”. Não é um trocadilho; é a realidade. Muitos, com efeito, julgam que pensam, mas só usam o “pensamento” para proporcionar respostas superficiais aos instintos e aos desejos mais egoístas; e, infelizmente, não usam o pensamento para o que é mais importante, para descobrir o “sentido” da sua vida: “Para que vivo eu?”

Enquanto um ser humano não tiver uma resposta a essa pergunta, uma resposta que lhe mostre o significado da sua existência – a sua razão de viver, de amar, de lutar, de trabalhar… –, não é um autêntico homem. Será um bicho mais ou menos pensante que circula, come, bebe, dorme, se entrega ao sexo como uma posta de carne faminta, fuça, desfruta, enjoa, se ilude, se desilude, trabalha, briga, se deprime, vai ao psiquiatra, não sabe o que lhe acontece, envelhece e morre.

Faz um par de anos, uma crônica jornalística reproduzia a resposta de uma mocinha à pergunta sobre o que achava dos bandos de vândalos e pixadores que danificam instalações públicas: – “Para mim – dizia ela –, as pessoas não sabem mais o que fazer das suas vidas”. Sem grandes filosofias, essa menina lembrava que nós é que temos de “fazer a nossa vida”, que é preciso “fazer algo com ela”, e que não faremos nada de válido se não “soubermos o que fazer”. Justamente por termos uma inteligência e uma vontade livre, somos os responsáveis pela nossa vida. Que fazemos dela? Que faremos dela?

Essa filósofa-mirim trouxe-me à memória outra menina e outra reportagem de jornal. No caso, uma reportagem bem triste. Em agosto de 1990, uma estudante de 16 anos despencou – jogou-se? – da janela de um dos últimos andares de um prédio de apartamentos, onde uma turma de colegas consumia drogas. Morreu na hora. Entre os seus papéis, acharam-se rabiscos de umas confissões íntimas. Data: 06.05.90. Do texto, baste uma amostra: “Vou ver se aqui eu consigo dizer tudo o que sempre quis dizer. Em primeiro lugar, eu queria viver. Mas eu vivo, o problema não é esse. O problema é ter que viver para quê? Ou para quem? Eu quero encontrar algo que me faça querer viver eternamente” (Folha de S. Paulo, 17.08.90).

A pobre mocinha não tinha descoberto ainda para que vivia, e por isso se achava perdida, sem sentido e sem rumo. Isso faz pensar que, mesmo na sua trágica desorientação, tinha uma intuição profunda do sentido humano da vida. Reparemos que ela não colocava a sua realização em possuir bens, em enriquecer, gozar dos prazeres da vida (como seria de esperar, mexendo-se num ambiente consumista e hedonista), mas numa “razão de viver”, que não conseguia achar: “Eu quero encontrar algo que me faça querer viver eternamente”. Só por isso era humana: porque sentia a sede de sentido, sem a qual tudo acaba em absurdo e frustração.

À vista desses dois episódios, tornam-se incisivas estas perguntas: – Podemos dizer que estamos configurando, orientando a nossa vida de acordo com um ideal que a cumule de sentido, ou pelo menos que lutamos para chegar a isso? Esse ideal move-nos de maneira a vencermos a preguiça, os impulsos meramente instintivos, a inércia e a moleza que se lhe opõem? Estejamos certos de que só vivendo assim poderemos dizer que somos fiéis a nós mesmos, ao que somos, às condições e exigências profundas da nossa condição humana; em suma, poderemos dizer que somos autênticos seres humanos.

Mais uma pergunta a fazer

Há, porém, mais uma pergunta a fazer, sem a qual ficariam incompletas as anteriores interrogações sobre o homem autêntico.

A pergunta é: – Você se considera filho de Deus?

Talvez a questão, levantada assim de repente, nos deixe um pouco perplexos. Mas creio que a grande maioria das pessoas responderia: – “Sim. Eu me considero filho de Deus”.

– Você – poderíamos acrescentar –, você reparou que isso tem conseqüências, e conseqüências muito sérias?

Veja. Se você é filho de Deus, então, só será autêntico se for um autêntico filho de Deus, alguém que vive da maneira mais coerente possível com a sua condição de filho de Deus: de um filho “pensado” e “querido” por Deus; de um filho colocado por Deus com amor no mundo “para algo” – porque Deus não cria filhos para nada –; de um filho, portanto, com uma “vocação” e uma “missão” a cumprir; de um filho cuja vida não se esgota neste mundo, mas se projeta na eternidade.

Se conhece um pouco a Bíblia e dá uma olhada pelo Novo Testamento, perceberá que a alegria de sermos filhos de Deus – com uma filiação que Cristo Redentor conquistou para nós, tornando-a a nossa verdadeira identidade – é uma alegria que perpassa todas as suas páginas.

Vede – diz, por exemplo, São João – que grande amor nos mostrou o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos! (1 Jo 3, 1). Essa é a nossa maravilhosa identidade! E São Paulo, por seu lado: Não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes um espírito de adoção de filhos pelo qual clamamos: Abbá! – isto é – Pai! (Rom 8, 15).

Se somos filhos – vale a pena repisá-lo –, a conseqüência lógica será vivermos, no dia-a-dia, como autênticos filhos de Deus, correspondendo ao amor do Pai com o nosso amor filial.

Aquele que não ama – escreve São João – não conhece a Deus, porque Deus é Amor (1 Jo 4, 8). São Paulo frisa esse mesmo ideal com outras palavras: Sede imitadores de Deus como filhos muito amados; e progredi no amor, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou… (Ef 5, 1-2).

Reconhecer que somos filhos de Deus evidencia uma realidade grandiosa e simples, já acima apontada: que Deus – que nos fez à sua imagem e semelhança (Gen 1, 27) e nos tornou seus filhos –, fez-nos, por isso mesmo, capazes do seu Amor, de uma íntima familiaridade e colaboração com Ele: destinados a compartilhar eternamente, pelo conhecimento e pelo amor, a sua vida divina (Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 356).

Daí a pungente e incurável insatisfação do ser humano que pretende achar a fonte da felicidade na procura egoísta de si mesmo e dos bens caducos, enquanto não descobre que só Deus pode acalmar a “sede” de infinito da sua alma imortal.

A ferida que clama por Deus

Numa das suas últimas obras, Life after God, Douglas Coupland, um escritor nascido em 1961 e que, como ele mesmo diz, pertence “à primeira geração americana educada sem religião”, retrata a falta de sentido e o tédio acumulado de muitos dos seus companheiros, criados no vácuo do prazer sem Deus (drogas, álcool, sexo, ausência de ideais e de compromissos).

No final do romance, o protagonista faz chegar uma mensagem à namorada, que é como que a síntese da sua vida vazia e sem sentido: “Pois bem… eis o meu segredo. Digo-o com uma franqueza que duvido voltar a ter outra vez; de maneira que rezo para que você esteja num quarto tranqüilo quando ouvir estas palavras. O meu segredo é que preciso de Deus; que estou farto e que já não posso continuar sozinho. Preciso de Deus para que me ajude a dar, pois me parece que já não sou capaz de dar; para que me ajude a ser generoso, pois me parece que desconheço a generosidade; para que me ajude a amar, pois me parece que perdi a capacidade de amar” (La vida después de Dios, Ediciones B, Barcelona, 1995, pág. 301).

O vazio do homem sem Deus é uma ferida que grita, que clama, e que nada, a não ser Deus, pode curar. Quanta razão não tinha, vendo isso, o Papa João Paulo II quando fazia o seguinte diagnóstico: “Talvez uma das mais notáveis debilidades da civilização atual esteja numa inadequada visão do homem. A nossa época é, sem dúvida, aquela em que mais se tem escrito e falado sobre o homem, a época dos humanismos e do antropocentrismo. Contudo, paradoxalmente, é também a época das profundas angústias do homem com respeito à sua identidade e destino, do rebaixamento do homem a níveis antes insuspeitados, época de valores humanos conculcados como jamais o foram antes.

“Como se explica este paradoxo? Podemos dizer que é o paradoxo inexorável do humanismo ateu. É o drama do homem amputado de uma dimensão essencial do seu ser – o absoluto [Deus] – e colocado deste modo diante da pior redução do seu próprio ser” (Discurso inaugural da III Conferência Geral do Episcopado Latinoamericano em Conclusões da Conferência de Puebla, Ed. Paulinas, São Paulo, 1979, págs. 23-24).

Será que não constatamos algo disso em nós?

Será que não está na hora de começar a pensar, a pedir luz a Deus…, e a mudar?

(Adaptação de trechos do livro de F.Faus: Autenticidade & Cia.)