Riqueza da palavra e do silêncio

A força da língua

A língua é um fogo, como diz São Tiago (Tg 3,6). Existem fogos que purificam, aquecem e são fonte de energia. E existem fogos que destroem. A língua, como o fogo, é ambivalente… A experiência de alegrias e dores causadas pelas palavras alheias nos mostra bem isso.

Mas não há só chamas, há também cinzas. Porque, de fato, há línguas que não têm as qualidades, positivas ou negativas, do fogo, mas são apenas cinzas apagadas, neutras.

É a essa palavra-cinza que Cristo dá o nome de palavra “ociosa”, termo que também pode ser traduzido por palavra “vã”, ou palavra “inútil” (cf. Mt 12, 36).

O que impressiona em Jesus é a dureza com que se refere a esse tipo de palavras, justamente após ter ensinado que a boca fala do que transborda do coração, e de que o homem manifesta pela palavra o bom ou o mau tesouro que tem dentro de si: Eu vos digo: no dia do juízo, os homens prestarão contas de toda a palavra ociosa que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado (cf. Mt 12, 34-36).

São afirmações enérgicas que nos fazem pensar e que talvez nos deixem perplexos. É natural que ao ouvi-las nos perguntemos se Jesus, ao falar assim, quis porventura reprovar toda a espécie de fala ligeira, sem especial profundidade e proveito. Neste caso, estaria condenada, por exemplo, a prosa intranscendente e bem-humorada que se desenrola à volta da mesa numa comemoração familiar; ou o diálogo divertido no ônibus durante uma viagem de férias; ou a conversa de uma roda de amigos em torno de uma moderada cervejinha…

Quem conheça um pouco o Evangelho logo descartará essa interpretação rígida e desumana, pois bem sabe que o próprio Cristo manteve conversas de uma deliciosa simplicidade familiar com sua Mãe e São José, com os seus discípulos, com Marta, Maria e Lázaro, com os que com Ele compartilhavam do convite de uma refeição ou uma festa… Jesus, “perfeito homem”, não estava pregando a palavra de Deus a toda a hora. Ele, quando era tempo de conversar familiarmente, fazia-o com singeleza e, sem dúvida – como deixa entrever o Evangelho –, alegremente e com uma boa dose de simpatia. Ora, esse diálogo não é palavra inútil, é palavra humana, palavra cordial, palavra afetuosa, palavra que alegra e que, deste modo, traz consigo a carga positiva do amor.

Palavra ociosa é outra coisa. É aquela que não carrega consigo nada de bom, porque está vazia de idéias e sentimentos e, portanto, é inútil para o amor.

Com esse tipo de palavras, sim, devemos preocupar-nos, e estar cientes de que prestaremos boas contas a Deus de todas elas: das palavras sem substância alguma, sem interesse, afeto, ajuda, alegria ou verdade, que ocupam com a sua estéril presença o lugar que deveriam ter ocupado palavras construtivas.

São palavras ociosas, sobretudo, as palavras gastas, formais e sem vida, que se dizem gélida e cansadamente na vida familiar, no relacionamento profissional, na conversa de amigos, quando o amor ou a amizade já se tornaram uma ruína decadente. Tais palavras rotineiras, sem calor nem cadência de afeto, sem vibração de pensamento, sem entusiasmo nem sonhos escondidos em seu bojo, são uma monótona e persistente chuva de cinzas, que vai sepultando o amor.

Famílias outrora unidas, amizades velhas que acabaram, sabem desse mau sabor de cinzas, que é apenas o gosto do vazio, do bolor da alma empobrecida, dos resíduos de ideais queimados.

Do seio do silêncio

As palavras que brotam desses corações são “ociosas” porque do coração vazio nada se consegue tirar e, em conseqüência, nada de válido se pode expressar nem transmitir; são só palavras “vãs”. Não estará precisamente aí o segredo do crescente vazio verbal, reflexo do vazio espiritual, que é patente em muitos homens e mulheres; e a explicação da progressiva redução do vocabulário empregado nas conversas habituais? Se, como é fácil comprovar, cada vez se usam menos palavras – e se usam de modo mais banal e redutivo –, é porque há no interior dos homens pouca riqueza de idéias, valores, reflexões, sentimentos e ideais; é porque o egoísmo predominante num mundo materialista está a espalhar na sociedade – como na História sem fim de Michael Ende – o império do Nada, que tudo devora e reduz a si mesmo: a nada!

É neste ponto que se torna urgente falar no silêncio, matriz fecunda da palavra. Há pobreza de palavras porque há pobreza de silêncio. Toda a palavra vale aquilo que valer a sua raiz, que é o silêncio. Pois só são grandes e valiosas as palavras que se geraram no seio do silêncio reflexivo, amoroso e orante.

Muitos são os que mergulham no silêncio apenas para “fugir”, para dormir; ou utilizam mil técnicas a fim de atingir um silêncio simplesmente relaxante; ou exercitam a “meditação” com o pensamento bloqueado, suspenso num vácuo silencioso, em que julgam elevar-se… e apenas dormitam. Sem darem por isso, buscam a paz do espírito na cinza, isto é, no vazio. Quando, na realidade, é preciso buscá-la no Fogo, ou seja, na Verdade e no Amor que vêm de Deus.

Só somos ricos se o formos diante de Deus, se não formos do gênero daquele rico-miserável de quem Cristo dizia que entesoura para si mesmo e não é rico aos olhos de Deus (Lc 12, 21).

Como andamos de riqueza interior? Que amadureceu, dentro de nós, no silêncio fecundo da reflexão, da leitura, da oração? É nesse seio escondido que se vai formando – com a graça de Deus e o nosso empenho – o verdadeiro “eu” de cada um de nós. Aí, no íntimo da alma do cristão que sabe orar, é que se elaboram em forma de critérios claros as luzes de Deus; aí, no silêncio sagrado do coração que reza, formam-se as convicções e enraízam-se as virtudes; aí se definem as linhas mestras da luta pessoal por melhorar cada dia um pouco mais; aí instala o seu laboratório permanente o amor, mestre de alquimias que transformam penas em alegrias, dificuldades em estímulos e mágoas em perdão.

Quando um homem ou uma mulher, por terem amadurecido no silêncio, se vão tornando ricos aos olhos de Deus, desse seu “bom tesouro” podem ir tirando, sem ficarem pobres nem serem nunca monótonos, palavras eternamente vivas, que são como ramos viçosos a irromper em frutos, pela seiva de amor, verdade e Graça que os vivifica.

Um grande conhecedor da grandeza inefável do silêncio com Deus, Ernest Psichari, escrevia: “A esses grandes espaços de silêncio que atravessaram a minha vida, devo eu afinal tudo o que em mim possa haver de bom. Pobres daqueles que não conheceram o silêncio! O silêncio, que faz mal e que faz bem, que faz bem com o mal! O silêncio que desliza como um grande rio sem escolhos…Por muitas vezes ele veio ter comigo, como um mestre bem-amado, e parecia ser um pouco de céu que descia até o homem para o tornar melhor… Então, eu parava cheio de amor e de respeito, porque o silêncio é também o mestre do amor” (Les voix qui crient dans le désert, Paris, págs. 266-267).

Desses sagrados abismos de silêncio sai a palavra que dá vida, sai a palavra que pode ser o reflexo e irradiação de Cristo, a Palavra divina que é Vida. Quem nos dera que pudéssemos dizer como São Paulo: Cristo vive em mim! (Gal 2, 20), porque então também poderíamos dizer: Cristo fala pelas minhas palavras.

Só as palavras dEle, ou as que estão impregnadas do seu espírito, é que podem transmitir amor e paz, estímulo e alegria aos outros corações.

(Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: A língua)