Verdades e mentiras

Honra à verdade

Desta vez, vamos meditar sobre as mentiras, grandes e pequenas, da nossa vida cotidiana: «a nossa mentira de cada dia…».

Alguém, com humor pessimista, dizia que a mentira é um esporte tão amplamente praticado que bate de longe todos os demais e cada dia adquire técnicas e requintes de maior quilate.

Opinião semelhante era a do escritor que há anos deixou estampados estes comentários:

«Mente-se por palavras, mente-se por atos, mente-se por atitudes, mente-se por escrito, mente-se pelo silêncio, mente-se pelas curvaturas da espinha dorsal, mente-se pelo olhar, mente-se nas ruas, nas vitrines, nos negócios, nas escolas, nas assembléias, nas reuniões, mente-se despudoradamente” (Gladstone Chaves de Melo, O reino da mentira, na revista A Ordem, vol. XLIII, n. 6, junho, 1950).

Uma repulsa como esta, acre e forte, manifesta “em negativo” um sentimento que está arraigado no fundo da alma de todos: o amor à verdade, o mal-estar que causa ver a verdade ofendida. Poucas coisas nos revoltam tanto como sermos vítimas de um engano, cair numa armadilha, sofrer uma fraude, ser feitos de bobos. Sim, a mentira dos outros causa-nos repugnância (ainda que nem sempre, infelizmente, nos causem o mesmo sentimento as nossas próprias mentiras).

É natural que isso aconteça, pois a mentira “é uma profanação da palavra que tem por finalidade comunicar a outros a verdade conhecida. O propósito deliberado de induzir o próximo em erro por palavras contrárias à verdade constitui uma falta à justiça e à caridade” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2485).

Todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, que é Luz e Verdade, “tende naturalmente para a verdade. É obrigado a honrá-la e testemunhá-la” (ibid., n. 2467).

Quem foge da mentira, além de amar e honrar a verdade, honra e ama com isso o seu próximo. “Os homens – diz São Tomás de Aquino – não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade uns aos outros […]. Um homem deve honestamente a um outro a manifestação da verdade” (cf. ibid., n. 2469). Um ambiente em que não se sabe que terreno se está pisando, em que é preciso adivinhar sempre segundas intenções, em que só o esperto é que singra, torna-se irrespirável, um verdadeiro inferno.

Daí a importância que a doutrina cristã atribuiu, em todas as épocas, à virtude da sinceridade ou veracidade, “que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar – como define o Catecismo –, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia” (n. 2468). Esta bela virtude, que Deus preceitua no oitavo mandamento da sua Lei – não levantar falso testemunho nem mentir –, apresenta, como uma alta montanha, duas vertentes: “A veracidade observa um justo meio entre o que deve ser expresso e o segredo que deve ser guardado; implica a honestidade e a discrição” (ibid., n. 2469). Se falamos, falemos unicamente a verdade. Mas, quando o amor ou a justiça assim o exigirem, protejamos então a verdade com o silêncio. Nesta meditação focalizaremos apenas a primeira vertente; a segunda é tema de outra meditação, intitulada Segredos e Silêncios, que também está incluída neste site.

Desonrar a verdade

A veracidade é uma peça mestra da vida moral e do convívio humano. É lógico, por isso, que a Bíblia afirme que o Senhor odeia a língua mentirosa (Prov 6, 17), e, em geral, a duplicidade, a simulação e a hipocrisia. (cf. Ecli 5, 11; Sl 4, 3; Mt 23, 13 e segs.; Apoc 21, 27 e 22, 15).

A mentira é muito mais do que um simples engano, ou um lapso do pensamento ou das palavras. Pertence à sua essência um ingrediente perverso, que é a “intenção de enganar”. Assim definia essa filha espúria da língua Santo Agostinho: “A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar” (De mendacio, 4, 5).

A língua mentirosa quer deliberadamente despejar névoa escura na mente do próximo para ocultar ou deformar assim a verdade. É uma névoa que surge sempre dos fundões sujos do coração.

“Há as mentiras de conveniência, as mentiras diplomáticas, as mentiras administrativas, as mentiras de defesa, as mentiras profissionais, as mentiras engenhosas, as mentiras oficiais, as mentiras vitais” (G. Chaves de Melo, op. cit., pág. 68).

E, no bojo de todas elas, está quase sempre:

– a covardia, o medo de enfrentar a verdade, para não ter de arcar corajosamente com as suas conseqüências ou para não precisar defendê-la;

– a vaidade, que nos leva a mentir, enfeitando os acontecimentos e atuações, para sairmos engrandecidos; ou a desculpar-nos das falhas, e até mesmo a fazer recair sobre um inocente a responsabilidade das mesmas, a fim de não prejudicarmos a nossa “imagem”;

– o interesse egoísta, pai de inúmeras mentiras, pois para o egoísta “vale tudo” quando se trata de obter vantagens, estreitar relações convenientes, galgar posições, lucrar nos negócios ou fugir aos deveres penosos.

Não existe – não pode existir – uma fonte limpa de mentiras, e é por isso que a mentira não se justifica por motivo algum. “A mentira é condenável pela sua própria natureza […]. O propósito deliberado de induzir o próximo em erro por palavras contrárias à verdade constitui (já o lembrávamos acima) uma falta à justiça e à caridade” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2485).

As três espécies de mentira

Dizíamos que a mentira é como a névoa. E, como a neblina, é mutável, variando constantemente os seus formatos. Neste sentido, é clássica a distinção das três principais espécies de mentiras:

1) Em primeiro lugar, encontra-se – quase intocada pelo mal – a mentira jocosa. Como indica o nome, é a mentira bem-humorada, proferida com a finalidade de brincar, por divertimento e sem intenção de ofender ninguém. Neste capítulo podem ser incluídas tanto as lorotas de 1º de abril como a sorridente afirmação da simpática velhinha nonagenária de que só tem trinta e cinco anos.

Dizíamos que é uma mentira praticamente inocente, ainda que as brincadeiras possam proceder, às vezes, de sentimentos muito maldosos, e constituir por isso um pecado, até mesmo grave, contra a caridade: por exemplo, se se mente brincando para humilhar em público, ridicularizando-a, uma pessoa inocente, defeituosa ou pouco inteligente.

Mas, se não existe essa conotação maldosa, essas mentiras, ainda que literalmente digam “o que é falso”, não mentem, porque nem pretendem nem conseguem “induzir em erro” ninguém. Portanto, em si, não constituem pecado algum.

2) Numa segunda categoria enquadram-se as mentiras oficiosas. O nome é clássico, técnico, na teologia moral, para designar a mentira “que tende a favorecer uma pessoa, grupo ou ideologia” (R. Sada e A. Monroy, Curso de Teologia Moral, Ed. Rei dos Livros, Lisboa, 1989, pág. 232). É a mentira proferida em proveito próprio, da pessoa ou do grupo.

Essa é uma das primeiras mentiras que aprendemos em crianças: “Não fui eu que fiz”, “não tinha ouvido”, “perdi o dinheiro que o papai me deu” (gasto no carrinho da esquina do colégio). As mais comuns, dentre as desta categoria, são as mentiras forjadas para evitar um castigo, um desgosto, um dever custoso, ou para furtar-se a um favor ou a um serviço que não temos vontade de prestar. Aí entra a série interminável de falsas “explicações” e “desculpas” que a nossa fraqueza nos leva a dizer para evitar maus bocados: “Não tive tempo”, “perdi o ônibus”, “fiquei doente” (talvez com atestado médico anexo, tão falso quanto a escusa), “o chefe pediu-me que ficasse trabalhando até tarde”… E mais a prática estudantil da cola (que é mentirosa quando não se estudou e, portanto, se finge um saber que não se tem), bem como tantas outras mentiras e mentirinhas lançadas como névoa perfumada para “ficar bem”.

Este tipo de enganos são verdadeiras mentiras, e por isso mesmo constituem sempre uma falta, um pecado, ainda que geralmente – como lembra o Catecismo da Igreja – não passem de pecado venial (n. 2484). Contudo, podem revestir-se de uma gravidade maior, e até muito grande, em diversas ocasiões: basta pensar no filho – mentiroso quanto à assistência às aulas – que defrauda a confiança e o sacrifício investido nele pelos pais; ou, num outro terreno, na força da mentira empregada na propaganda e nas pesquisas de opinião dirigidas a aliciar, com falsidade, o favor do público, mesmo que com essas mentiras não se chegue a causar um sério prejuízo aos iludidos, nem se prejudiquem terceiros, coisa de resto difícil de imaginar.

3) Mas, falando em prejuízos, já estamos entrando no campo do terceiro tipo de mentira, o pior deles: a mentira danosa ou prejudicial. O seu próprio nome a explica: mente-se, nestes casos, querendo causar um dano ou um prejuízo a alguém; ou então – mesmo que não haja intenção de prejudicar –, quando se sabe ou, pelo menos, se prevê que a mentira poderá causar um dano.

Não é preciso espremer muito os miolos para perceber as inúmeras faces desta mentira: baste lembrar as fraudes nos negócios, as concorrências desleais, as licitações com cartas marcadas, as “recomendações” (“pistolões”) que guindam incapazes a funções de que ficam excluídos os que as merecem; as mentiras políticas ou administrativas de todo o gênero, que causam enormes danos à nação, e com freqüência aos mais desprotegidos; a falsidade de colégios que se apresentam como “católicos” e ensinam doutrinas contrárias à doutrina da Igreja; as desorientações morais de um mau conselheiro espiritual; as mentiras nos termos ou nos dados dos contratos; a ocultação de defeitos na máquina vendida; as falsificações, as vigarices e trapaças de toda a espécie.

A pior das mentiras danosas

Mas um espécime particularmente venenoso de mentira danosa é a calúnia, que consiste em atribuir falsamente a uma pessoa ou entidade, ou sugerir insidiosamente a respeito dela, crimes ou faltas morais graves das quais essa pessoa é inocente. Caluniar é falar mal dos outros, mas acrescentando à crítica uma grave mentira: “Por palavras contrárias à verdade, prejudica a reputação dos outros e dá ocasião a falsos juízos a respeito deles” (Catecismo da Igreja, n. 2477).

Toda a calúnia é uma infâmia e traz a marca infame da injustiça.

Se qualquer agressão verbal mostra o que há no coração de quem fala, a calúnia denota uma alma especialmente sórdida: porque a calúnia, ou é filha da frivolidade irresponsável, que repete falsidades sem apurá-las, pelo prazer de falar mal; ou visa maldosamente destruir, afundar, denegrir, causar o mal. Entram aí na dança as paixões mais repulsivas, e especialmente o ódio e a inveja se mexem no campo da calúnia como no seu “habitat” predileto.

Infelizmente, caluniar transformou-se num “esporte social”, que com demasiada freqüência é praticado nas conversas privadas e nos meios de comunicação. Há como que uma espécie de compulsão de servir a toda a hora, de bandeja, reputações honestas decapitadas, como Salomé “serviu” a Herodes a cabeça de São João Batista; com a mesma futilidade e o mesmo sorriso desavergonhado (cf. Mc 6, 28).

Dizem-se e escrevem-se autênticas aberrações sem fundamento, baseadas muitas vezes numa simples suspeita, no que “se diz” (isto é, no que alguma pessoa ou algum grupo de pessoas mal intencionadas, ressentidas ou vingativas comentaram), no que aparece na televisão ou “é publicado” em reportagens escandalosas. Desta forma, por razões de ódio ou rivalidade pessoal, ou por motivos fanaticamente ideológicos, soterram-se pessoas e instituições debaixo de toneladas de lama, e se lhes envenena, com dente de cobra peçonhenta, o sangue limpo da reputação.

E o mais grave é que a superficialidade de muitos telespectadores e leitores, que não terão tempo nem vontade de apurar os fatos, engole a mentira hedionda como se bebesse um copo d’água. E então essa “opinião pública” forjada, falsificada, acaba tendo conseqüências funestas para muitas pessoas e instituições inocentes que, no mínimo, merecem o respeito e a estima devidas a quem se comporta com lisura e retidão, e procura trabalhar honestamente, fazendo o bem.

Os mais cínicos tentarão justificar-se dizendo que não “afirmaram”, apenas levantaram uma hipótese com base em indícios e no “dever de informar”, pois se trata de coisas muito comentadas por aí. São conhecidos, nos manuais de Ética jornalística, exemplos de desonestidade caluniosa, como os destas hipotéticas manchetes sensacionalistas: “Nada indica que o Cardeal de Paris esteja envolvido no crime sexual do Bois de Boulogne”, ou “Não há indícios da participação ativa do Primeiro Ministro de tal país no affaire das drogas”. Maneiras indiretas – ou diretíssimas? – de caluniar inocentes, ligando os seus nomes a crimes com os quais nem remotamente têm nada a ver.

Os caluniadores e os “mercadores da suspeita” (cf. É Cristo que passa, n. 69) pecam, quase sempre gravemente, contra a justiça, e fica-lhes na consciência uma obrigação estrita, sem a qual não podem esperar o perdão de Deus nem nesta vida nem na outra: a obrigação de reparar, de retificar, de restituir a fama injustamente lesada. “Toda falta cometida contra a justiça e a verdade – ensina o catecismo da Igreja – impõe o dever de reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado. Quando se torna impossível reparar um erro publicamente, deve-se fazê-lo secretamente; se aquele que sofreu o prejuízo não pode ser diretamente indenizado, deve-se dar-lhe satisfação moralmente, em nome da caridade. Esse dever de reparação se refere também às faltas cometidas contra a reputação de alguém. Essa reparação, moral e às vezes material, será avaliada na proporção do dano causado e obriga em consciência” (n. 2487).

E a mentira social?

Uma vez terminado o comentário sobre as três espécies de mentira, parece-nos ouvir a voz de um leitor ou leitora que pergunta:

– E a mentira social? Não vai falar dela?

A esse hipotético leitor responderíamos que a expressão “mentira social” é muito ambígua, e que, por isso, gostaríamos que tivesse a amabilidade de nos esclarecer.

– Ora – poderia retrucar –, eu me refiro sobretudo à mentira telefônica e à mentira gentil, que não entraram na sua classificação. Por exemplo, ao caso do empresário que manda a secretária dizer que “está em reunião”, simplesmente porque está ocupado… Ou à senhora que diz que o marido “não está aqui no momento” quando liga alguém num momento muito inoportuno… Ou a qualquer um de nós, que, quando vê uma criança nada agraciada, coitadinha, diz à mãe: “Que gracinha, é linda!”; e, igualmente, após um almoço de gosto que é preferível não tentar definir, diz à anfitriã: “Estava uma delícia”…

Realmente, essa dúvida do leitor ou leitora não pode ser mais clara. Acontece, porém, que o esclarecimento também é claro.

Toda pessoa culta entende que a linguagem é simbólica, ou seja, que a palavra é “símbolo” que exprime algo que se quer comunicar, como o exprime um ícone ou uma expressão facial. Quando o símbolo é equívoco ou “induz em erro”, temos uma mentira. Quando é inequívoco, porque já se tornou uma forma de linguagem habitual, empregada constantemente para evitar expressões que poderiam ser indelicadas, ofensivas ou mal interpretadas, já não induz em erro, porque o “símbolo” é transparente para todos.

Quer dizer que, em muitos desses casos, não há de fato uma “mentira”, não existe a falta moral chamada “mentira”, porque ninguém quer enganar nem, de fato, engana. Por isso, a “mentira social e gentil” não entra em nenhuma das três classificações das verdadeiras mentiras. É lógico que, para manter-se na linha correta, deve limitar-se ao estritamente necessário e ser praticada amavelmente, usando das formas sociais já conhecidas aceitas no ambiente, formas que qualquer pessoa minimamente inteligente e com experiência da vida poderá compreender. Acrescentaria apenas que, quando se fecha uma porta com fórmula social, por motivos justificados, é preciso facilitar que essa porta se abra quando esses motivos cessam: por exemplo, tomando atenciosamente o recado, anotando um telefone com o qual seja possível comunicar-se, etc.

(Adaptação de trechos do livro de F. Faus: A língua)