Preconceitos contra a Igreja

A tentação do cristianismo sem Igreja

Para qualquer observador católico atento, é palpável que um fenômeno marcante da sociedade atual é a atitude de descrença, antipatia e desconfiança de muitos católicos em relação à Igreja, à sua hierarquia e aos seus ensinamentos. São numerosas as pessoas que se chamam católicas e julgam sê-lo, que ocasionalmente vibram com o Papa, como vimos em 2007 na visita de Bento XVI ao Brasil, mas que, na hora da verdade, que é a vida real, não aceitam a autoridade e a doutrina da Igreja.

Rejeitam-se sem escrúpulos pontos essenciais da fé e da moral católica, ao mesmo tempo que se acolhem sem crítica doutrinas e posições práticas que contradizem frontalmente as verdades de fé e de moral ensinadas, com a autoridade dada por Cristo, pelo Magistério da Igreja. É uma dolorosa confusão que se nota tanto nas questões de fé (como a indissolubilidade do matrimônio, o valor e a necessidade da Confissão individual; a condição de estar em graça para poder comungar, etc.), como em bastantes questões de comportamento moral (especialmente as relacionadas com o casamento e o divórcio, com as práticas anticonceptivas, com o comportamento sexual dos solteiros e casados e com os problemas de bioética).

Já foi dito, com razão, que a grande tentação diabólica, nos tempos modernos, é a de um cristianismo sem Igreja. Perante essa realidade, é natural quem nos perguntemos: Por que acontece isso?

Tentaremos responder a essa pergunta apresentando três véus, três dos obstáculos que mais freqüentemente afetam a fé dos católicos na Igreja e lhes tapam com preconceitos os olhos da mente e do coração.

O primeiro véu: a ignorância religiosa

Já o Papa Pio XII costumava frisar que o maior inimigo de Deus no mundo contemporâneo é a ignorância religiosa. Por seu lado, o cardeal Ratzinger, poucos anos antes da sua eleição como Papa, deplorava o que ele chamava “o resultado catastrófico da catequese moderna”, a partir dos anos sessenta do mesmo século XX. “Sem querer condenar ninguém – constatava com pena –, é evidente que hoje a ignorância religiosa é tremenda; é só conversar com as novas gerações…”. Essas “novas gerações” são precisamente as dos que atualmente têm de sessenta anos para baixo, e que constituem o que muitos chamam “a grande geração perdida”.

Na verdade, não é fácil encontrar católicos dessas gerações que tenham as mais elementares noções sobre o Evangelho, a vida de Cristo, a história do Cristianismo, a história da Igreja, as verdades da fé, os sacramentos, a moral e as virtudes cristãs, etc. Em geral, desconhecem até a terminologia religiosa mais elementar, e nem mesmo conseguem enunciar corretamente a lista dos dez mandamentos ou dos sete sacramentos. Uns poucos textos bíblicos mal explicados, mal entendidos e, as mais das vezes, manipulados para uma tendenciosa propaganda política, foram a única “doutrina” que muitos receberam.

O resultado é que milhares e milhares de católicos estão quase na estaca zero em matéria de doutrina. São as vítimas da crise de embriaguez de “novidades” que, a partir da década de sessenta, levou muitos responsáveis pela formação cristã – pessoas e instituições eclesiásticas e religiosas –, embriagados por um superficial entusiasmo “adolescente”, a querer mudar tudo, a experimentar novos métodos, formas inéditas, teorias novas …, desde que fossem o contrário do que até então a Igreja tinha ensinado. As vítimas dessa euforia imatura foram gerações consecutivas de crianças, adolescentes e jovens utilizados pelos palpiteiros inovadores, sem má vontade mas com enorme cegueira, como “cobaias”. Que aconteceu? A resposta mais benigna é a que dava Ratzinger: “não sabem nada”.

Será que percebemos o perigo que corre uma pessoa cheia de boa vontade, mas ignorante? Porque, nesse vazio da ignorância, é muito fácil despejar todas as idéias e teorias erradas, os maiores absurdos, as mentiras e falsificações mais grosseiras, tipo Código da Vinci… Muitos católicos as engolem (mesmo algumas e alguns que não saem da igreja) como se fossem verdades, porque o seu quase absoluto despreparo em matéria de doutrina, os deixa desarmados, sem um mínimo de sadio espírito crítico; faltam-lhes até as luzes básicas, as noções mais elementares de cultura religiosa que poderiam abrir-lhes os olhos.

Tudo isso é certo. Mas não seria cristão ficar apenas constatando-o e lamentando-o. Este panorama negativo exige que cada um de nós se pergunte: Que posso eu fazer para sanar, pelo menos em parte, essa carência de doutrina, que se revela espiritualmente suicida?

O que podemos? Melhor será dizer o que “devemos”: esforçar-nos, com todos os meios ao nosso alcance, por difundir a autêntica, a boa doutrina da Igreja. Não pensemos que somos poucos ou que podemos muito pouco. Lembremo-nos de que os primeiros cristãos “podiam” muitíssimo pouco, numa sociedade radicalmente pagã que perseguia de morte o Cristianismo; no entanto, espalharam a luz da fé pelo mundo inteiro, uma catequese sobre a fé que, durante séculos, proporcionou até aos mais simples do povo, aos menos instruídos, uma riqueza de doutrina que hoje nos deixa boquiabertos.

É assombroso ler, neste sentido, os sermões que Santo Agostinho pregou à população – analfabeta na sua maior parte – da pequena cidade portuária de Hipona, no norte da África. Aos católicos cultos do século XXI, esses sermões parecem tratados de teologia de nível de pós-graduação… Sim. Durante muitos séculos os cristãos receberam constantemente doutrina, boa doutrina; dava-se-lhes doutrina, e não divagações vazias ou comícios político-partidários. Por isso, que contas prestarão a Deus os que, entre as décadas de sessenta e oitenta, em vez de oferecer ao povo cristão o pão sadio e vital da doutrina católica, só lhe passaram perfumaria sentimental e política fantasiada de religião.

Mas – é importante não perdermos o rumo! –, não é hora de lamentar, é hora de trabalhar. Comecemos, pois, por nós mesmos, procurando aprofundar na doutrina da fé e da moral de uma maneira sistemática e perseverante: lendo, estudando, conhecendo bem os documentos da Igreja. É um dever sobre o qual o Papa Bento XVI não se cansa de falar. No dia 13 de maio de 2007, por exemplo, dizia aos bispos reunidos em Aparecida:

“Convirá intensificar a catequese e a formação na fé, tanto das crianças como dos jovens e adultos. A reflexão madura da fé é luz para o caminho da vida e força para sermos testemunhas de Cristo. Para isso se dispõe de instrumentos muito valiosos como o Catecismo da Igreja Católica e sua versão mais breve, o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.

“Neste campo, não devemos limitar-nos só às homilias, conferências, cursos de Bíblia ou teologia, mas é preciso recorrer também aos meios de comunicação: imprensa, rádio e televisão, sites da Internet, foros e tantos outros sistemas para comunicar eficazmente a mensagem de Cristo a um grande número de pessoas”.

Tomemos nota, e não fiquemos na teoria nem na boa vontade inoperante. Pensemos, com realismo “generoso” em tudo o que nós poderíamos ter feito e poderemos fazer desde já para difundir a boa doutrina, certos de que Deus abençoará este nosso esforço. Sim, levemos a mão à consciência, peçamos perdão a Deus e aos nossos irmãos pelas nossas omissões, e comecemos por preparar um plano de formação pessoal muito concreto, para recuperar o tempo perdido e nos prepararmos cada vez melhor para avançar nesse urgente apostolado.

O segundo véu: os escândalos dentro da Igreja

O segundo véu é o desconcerto causado por condutas escandalosas, reprováveis, de alguns membros do clero. Ventilados pela mídia, esses escândalos abalam a confiança na Igreja e, às vezes, desencadeiam um movimento interior de aversão em não poucos católicos (e não católios).

Jesus já previu essa dificuldade. No capítulo dezoito do Evangelho de São Mateus, que é chamado pelos escrituristas a “Instrução sobre a vida da Igreja”, nosso Senhor fala com crueza: Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa! Chega a dizer, hiperbolicamente, que seria melhor que o jogassem ao mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço (cfr. Mt 18, 6-7).

Nenhum desses escândalos se justifica. Qualquer caso de pedofilia, por exemplo, é abominável. E não adianta dizer que a mídia apresenta esses casos com lente de aumento e mais dois zeros atrás da cifra estatística, nem que, entre professores leigos casados e, sobretudo, dentro do âmbito das próprias famílias, escândalos desse tipo são muitíssimo mais freqüentes. Isto é verdade, verdade estatisticamente comprovada. Mas um só desses escândalos na Igreja de Cristo já é demais.

O que é doloroso, e não se justifica, é que esses males se transformem numa nuvem de fumaça que impeça de ver e amar a grande multidão, que ninguém pode contar (Apoc 7, 9), de sacerdotes, religiosos e religiosas e de leigos católicos bons, virtuosos, fiéis aos ideais cristãos e até mesmo santos, grandes santos, que há também hoje na Igreja e a tornam bela e atraente.

Numa homilia pronunciada em 1993, o cardeal Ratzinger dizia:

“Se duvidamos da Igreja, com todas as suas brigas e misérias, olhemos então para esses homens e mulheres [os santos] que se abriram para Deus, para esses homens em quem Deus ganhou um rosto. Veremos como nos dão luz. Neles poderemos ver quem Deus realmente é; deles poderemos receber a coragem de que precisamos para ser homens. E também serão eles que nos hão de mostrar o verdadeiro rosto da Igreja, porque neles podemos enxergar o que a Igreja é e para que existe, e que frutos dá, apesar da miséria dos seus membros”.

É claro que há “miséria” nos membros da Igreja, também no clero, também em cada um de nós. Somos homens e não anjos. Mas não nos esqueçamos de que, desde a criação, como dizia alguém, “Deus trabalha com barro”. Por isso São Paulo reconhecia com humildade: Trazemos este tesouro [as graças concedidas por Deus aos Apóstolos] em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós (2 Cor 4, 7).

Às vezes, pode-se ter a impressão de que a Igreja, pelos pecados dos seus membros, é como uma daquelas pobres mulheres corroídas pela lepra, que a Madre Teresa de Calcutá assistia, na Índia, ao darem à luz; e a santa Madre sorria ao ver que, daquele corpo de mãe desfeito, nascia uma criança sadia, pura, bela. A Igreja é uma Mãe que, em seus membros – também entre suas autoridades –, ao lado de exemplos heróicos, cativantes, de santidade, ostenta também a “lepra” do pecado, da fraqueza humana, do escândalo; mas é a Mãe que Deus nos deu para transmitir-nos a Verdade e a Vida; e a doutrina que o Magistério autêntico da Igreja, com autoridade divina, nos transmite é e será sempre pura, bela, divina .

São Josemaria Escrivá não se cansava de manifestar a sua inabalável fé na Igreja e na sua doutrina, a despeito de todas as falhas humanas dos que a governam:

“A ninguém passa despercebida a evidência dessa parte humana. A Igreja, neste mundo, está composta por homens e para homens. Ora, falar de homens é falar de liberdade, da possibilidade de grandezas e de coisas mesquinhas, de heroísmos e de claudicações […]. No corpo visível da Igreja – no comportamento dos homens que a compõem aqui na terra –, aparecem misérias, vacilações, traições. Mas a Igreja não se esgota aí nem se confunde com essas condutas erradas […]. Considerai, além disso, que mesmo que as claudicações superassem numericamente as valentias, ficaria ainda esta realidade mística – clara, inegável, embora não a percebamos com os sentidos –, que é o Corpo de Cristo, o próprio Nosso Senhor, a ação do Espírito Santo, a presença amorosa do Pai”.

Com esse espírito de fé, ao contemplarmos as misérias dos homens, reforça-se ainda mais a nossa fé na doutrina da Igreja, e vemos o seu Magistério autêntico como o rio cristalino que fecunda constantemente a terra aviltada pelo pecado (Cf. Apoc 22,1-2). Com São Josemaria, eu lhe diria que “se, por vezes, não soubermos descobrir o rosto formoso da Igreja, limpemos nós os olhos; se notarmos que a sua voz não nos agrada, tiremos dos nossos ouvidos a dureza que nos impede de ouvir, no seu tom, os assobios do Pastor amoroso”.

O terceiro véu: a deturpação do Concílio Vaticano II

O terceiro véu é o da desorientação doutrinal provocada em muitos ambientes católicos, entre amplos setores do clero e dos religiosos, em comunidades e associações, escolas e instituições católicas, pelas interpretações deturpadas, erradas, que foram dadas aos ensinamentos do Concílio Vaticano II. Deturpações muitas vezes apresentadas altivamente como “dogmas” modernos e indiscutíveis. Essas interpretações e os que as ensinam constituem um “magistério inautêntico”, dentro da Igreja, contraposto e hostil ao Magistério autêntico do Papa e dos bispos que estão em comunhão com o Sucessor de Pedro.

É um fato muito conhecido que os decênios posteriores ao Concílio Vaticano II – essa grande assembléia da Igreja Católica, fonte de imensas esperanças – viram surgir, ao lado de frutos esplêndidos de renovação, de santidade e de apostolado, uma onda crescente de interpretações errôneas e aplicações inaceitáveis do Concílio, que semearam uma deplorável confusão entre os fiéis católicos e produziram defecções e crises dolorosas em amplos setores do clero e dos religiosos, e desorientação em incontáveis leigos. Como alguém dizia, de modo rudemente expressivo, ao “autêntico pós-Concílio” parecia querer sobrepor-se, estrangulando-o, um “falso pós-Concílio”. De fato, sobretudo nessas décadas de 60 e 70, a Igreja, em todos os seus níveis, parecia varrida por um furacão de loucura anárquica, cujas seqüelas ainda se deixam sentir com força em bastantes ambientes atuais.

O Papa Paulo VI, representante e cabeça do Magistério autêntico, que encerrara o Concílio em 8 de dezembro de 1965, mostrava-se desolado. Lamentava, com angústia visível, essa “falsa e abusiva interpretação do Concílio”, que considerava, alarmado, como uma verdadeira “ruptura” com a Igreja, como uma tentativa – dizia – de criação de uma “Igreja nova, quase reinventada de dentro da sua constituição, tanto no dogma, como na moral e no direito”.

Diante desse panorama, entende-se por que, em dezembro de 2005, ao comemorarem-se os quarenta anos de encerramento do Concílio Vaticano II, o Papa Bento XVI quisesse fazer um balanço do pós-Concílio. Sintetizava então a confusão mencionada explicando que, após a assembléia conciliar, se enfrentaram duas interpretações, duas “hermenêuticas”: a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” que, como uma histérica crise de adolescência, queria modificar tudo na Igreja e anular toda a sua história: arrancar a fé, a moral, a disciplina e a liturgia católicas das suas raízes bimilenares, e transplantá-las para o atoleiro de ideologias incompatíveis com a fé; e a “hermenêutica da renovação na continuidade”, que corresponde ao espírito do Concílio, expresso por João XXIII, o Papa que o convocou, e que declarou com todas as letras que o Concílio queria “transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios”.

“Onde quer que esta interpretação [da renovação na continuidade] tenha sido a orientação que guiou a recepção do Concílio – acrescentava Bento XVI –, cresceu uma nova vida e amadureceram novos frutos. Quarenta anos depois do Concílio, podemos realçar que o positivo é muito maior e mais vivo do que podia parecer na agitação por volta do ano de 1968. Hoje vemos que a boa semente, mesmo desenvolvendo-se lentamente, vai crescendo, e cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio”.

Essa atitude positiva, sadia, é a que adotaram, no meio das diatribes violentas dos “teólogos” que “seqüestraram” o Concílio como se fossem seus donos exclusivos, os teólogos fiéis a Jesus Cristo e à sua Igreja. Dá alegria ver figuras de primeiríssima grandeza, como Henri de Lubac, declarar:

“Infeliz de mim se, sob pretexto de abertura ao mundo ou de renovação, me puser a adorar, como dizia Newman, vagas e pretensiosas ficções do meu espírito em lugar do Filho que vive para sempre na sua Igreja; se eu depositar a minha confiança nas novidades meramente humanas, cujo calor momentâneo já não é senão um cadáver prestes a desaparecer!… Possa eu compreender sempre que somente a minha fidelidade à Tradição da Igreja (Tradição que não é um peso mas uma força) será o dínamo dos meus empreendimentos audaciosos e fecundos!”

É maravilhoso ver os Papas, os santos e os bons teólogos defenderem sem hesitar a verdade. Mas essa vibração e essa responsabilidade – volto a insistir –deve ser a de todos e cada um de nós. Nenhum católico consciente pode ausentar-se desta batalha santa na defesa da verdade, nenhum pode ficar passivo. Deus nos pede, agora talvez mais do que nunca, ser sal da terra e luz do mundo (Cf. Mt 5,13-14).

Assim o recordava o Papa Bento XVI, em 10 de maio de 2007, no discurso dirigido aos jovens no Estádio do Pacaembu:

“Podeis ser protagonistas de uma sociedade nova se procurais pôr em prática […] um empenho pessoal de formação humana e espiritual de vital importância. Um homem ou uma mulher despreparados para os desafios reais de uma correta interpretação da vida cristã no seu meio ambiente será presa fácil de todos os assaltos do materialismo e do laicismo, sempre mais atuantes em todos os níveis […]. Eu vos envio para a grande missão de evangelizar os jovens e as jovens, que andam por este mundo errantes, como ovelhas sem pastor”.

Seja louvada esta grande Mãe

Tudo o que estivemos considerando até aqui é motivo mais do que suficiente para crescermos na fé e no amor à Igreja, nossa Mãe. Temos que agradecer muito a Deus que, por cima das ondas tempestuosas de erros e deturpações, o Magistério autêntico do Papa e dos bispos em comunhão com ele se tenha erguido sempre e continue a erguer-se como um farol brilhante, fincado no alto promontório da fé, a oferecer a todos os que navegam no mar encrespado do mundo o referencial seguro que orienta e guia todos para o porto da salvação.

Depois disso, estou certo de que o leitor vai alegrar-se ao ler a bela expressão de fé e amor que vou transcrever para terminar: uma “declaração de amor” à Igreja do grande teólogo francês Henri de Lubac, acima citado. Trata-se, como muitos sabem, de um dos maiores teólogos do século XX, perito do Concílio Vaticano II. Apesar de ter sido julgado por alguns, durante anos, como um perigoso “progressista”, e de ter sido tratado, em boa fé, com desconfiança por algumas autoridades eclesiásticas, ancoradas em posições um tanto acanhadas, Lubac manteve sempre uma fidelidade exemplar à Igreja; uma fidelidade comovente quando se pensa que outros teólogos contemporâneos – não faltam casos lastimáveis entre nós –, por dificuldades ou incompreensões bem menores, se revoltaram magoados, e acabaram por encastelar-se em posições cada vez mais radicais e agressivas, que os puseram para fora da fé e do lar materno da Igreja.

Tendo isso em conta, ganha um valor inestimável o testemunho que insiro a seguir, contido no seu livro Meditations sur l’Église:

“O mistério da Igreja e da sua ação benfazeja sempre fica além do que nós dele vivemos praticamente. Só conseguimos apropriar-nos de uma fraca porção das riquezas que a nossa Mãe nos dispensa. Pelo menos, todo o católico, se não é um filho ingrato, canta no seu coração o hino da gratidão ao qual um poeta dos nossos dias deu a sua forma verbal. Todo o católico clama, com Paul Claudel: «Seja louvada para sempre esta grande Mãe majestosa, sobre cujos joelhos eu aprendi tudo» («Louée soit à jamais cette grande mère majestueuse aux genoux de qui j’ai tout appris!»).

“Sim, que seja louvada esta grande Mãe sobre cujos joelhos nós certamente temos aprendido tudo e tudo continuaremos a aprender todos os dias.

“É ela que, em cada dia, nos ensina a Lei de Cristo, nos põe na mão o seu Evangelho e nos ajuda a decifrá-lo. O que seria desse pequeno livro, ou em que estado teria ele chegado até nós se, por um impossível, não tivesse sido redigido, e depois conservado e comentado, dentro da grande comunidade católica? Que deformações não teria sofrido, que mutilações no seu texto e na sua compreensão?

“[A Igreja] é sempre esse Paraíso, no meio do qual o Evangelho é custodiado como uma fonte pura e se expande nos seus quatro rios (cfr. Gên 2, 11) pela terra inteira. Graças a ela, de geração em geração, o Evangelho é proposto a todos, tanto aos pequenos como aos grandes deste mundo; e quando ele não produz em nós os seus frutos de vida, a falha é toda nossa.

“Louvada seja mais uma vez esta grande Mãe pelo Mistério divino que nos comunica, introduzindo-nos nele pela dupla porta, continuamente aberta, da sua Doutrina e da sua Liturgia! Seja louvada pelos braseiros de vida religiosa que ela suscita, que ela protege, cuja chama ela alimenta! Louvada seja pelo universo interior que nos descobre e nos faz explorar, guiados pela sua mão! Louvada seja pelo desejo e pela esperança que faz arder em nós! Louvada seja também por todas as ilusões enganosas que desmascara e dissipa em nós para que a nossa adoração seja pura! Louvada seja esta grande Mãe!

“Louvada sejas, Mãe do belo amor, do temor salutar, da ciência divina e da santa esperança! Sem ti, os nossos pensamentos ficam dispersos e flutuantes; tu os ligas num feixe robusto; tu dissipas as trevas onde cada um de nós, sem reparar, se extravia, onde se desespera, onde tristemente amesquinha o romance do infinito à sua pobre medida. Sem nos desencorajares de tarefa alguma, tu nos guardas dos mitos enganadores, tu nos poupas aos desvios e às decepções de todas as igrejas feitas pela mão do homem…

“Por ti, enfim, nós temos nele – em Jesus – a esperança da vida. A tua lembrança é mais doce do que o mel, e quem te escuta jamais conhecerá a confusão. Mãe santa, Mãe única, Mãe imaculada! Ó grande Mãe, santa Igreja, Eva verdadeira, a única verdadeira «Mãe dos viventes»”.

(Adaptação de um trecho do livro de F.Faus: Otimismo cristão, hoje)