A razão, a fé e a vida

As três faces da razão

A razão lúcida

Na Encíclica Fides et ratio (“A fé e a razão”), João Paulo II começa dizendo: “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. Embora fale da fé em primeiro lugar, o Papa dedica esse documento principalmente a defender a capacidade da nossa razão para atingir verdades fundamentais. A razão humana é como que uma faísca do entendimento divino, que nos foi dada com a alma espiritual; é uma luz, é uma janela da alma – criada à imagem e semelhança de Deus – que está aberta à verdade sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre o mundo e sobre Deus. Ou seja, que tem a potência de captar a verdade.

Esta “asa da razão” já fez voar muito alto, séculos antes de Cristo, homens sábios que não possuíam ainda a verdade cristã. Há um grande patrimônio de verdades objetivas que foram captadas, ao longo dos milênios, pelos grandes filósofos, pensadores e mestres espirituais do Ocidente e do Oriente, verdadeiros gigantes da inteligência e do espírito. Quero cingir-me agora às verdades sobre as virtudes que fazem com que o homem e a mulher sejam “bons” (e, por isso mesmo, felizes).

Não é preciso ser filósofo, basta ser uma pessoa mentalmente sadia e de boa fé, para entender, com a razão que Deus nos deu, que fumar crack é suicida; que descambar para o consumo abusivo de álcool é perigoso; que encher-se de gorduras sendo cardíaco é uma enorme tolice; que expor, sem proteção, em pleno meio-dia, uma pele muito branca ao sol da praia é candidatar-se ao câncer; que exagerar no emagrecimento pode ser fatal; que varar noites a fio, preso a um jogo eletrônico ou a um desafio da Internet acaba criando distúrbios de saúde, e até pode levar (como já aconteceu) à morte ou à perturbação mental; que “cair” no conto do namoro com pessoa desconhecida, pelos chat da Internet, é uma insensatez, que pode trazer lágrimas aos olhos e fortes danos para o bolso; que deixar-se arrastar como um bicho descontrolado pelo apelo imediato de sexo, além de desumanizar e aviltar o amor, pode levar ao contágio de doenças fatais ou a armadilhas muito bem armadas por pessoas inescrupulosas, etc. Da mesma maneira, os bons filósofos pagãos sabiam avaliar – como o fazem os bons cristãos – a superioridade do casal fiel (pensemos em Ulisses e Penélope) e da família unida sobre o egoísmo volátil do “amor passatempo”.

Esta é a razão lúcida ou reta razão em funcionamento.

Alguns dizem que isso é utopia, que não existem as tais verdades objetivas, que só há opiniões e pontos de vista, que podem ser contrários uns aos outros; que tudo é relativo e “depende” de cada pessoa, e que, afinal, cada um é livre de escolher a sua verdade, a sua moral e os seus princípios, e que… tudo bem.

Na realidade, porém, tudo mal. A verdade e o bem não são trezentas coisas que se contradizem umas às outras, que se eliminam mutuamente, que se anulam. Matar um inocente será sempre um ato radicalmente contrário à reta razão, mesmo que muitas pessoas o aprovem ou que se torne permitido pelas leis de muitos países, como no caso do aborto e da eutanásia. O vício das drogas será sempre um mal, algo de anormal, mesmo que, pela força dos costumes, acabe tornando-se “comum” em quase todas as festas e comemorações, como em certos países já está acontecendo. Enganar a mulher ou o marido será sempre uma traição.

O que cega a inteligência, a lucidez mental, muitas vezes, é uma lamentável confusão entre o “normal” e o “comum”. Muitas pessoas chamam “normal” ao que, socialmente, se tornou “comum”, o que é uma falta de racionalidade notável. Com este critério estatístico que declara “normal” o que a maioria das pessoas acaba defendendo e fazendo, teríamos que admitir que, na Alemanha nazista, na longa época em que, por enfeitiçamento coletivo, a maioria do povo apoiava Hitler, dado que se tinha tornado “comum” perseguir os judeus, isso seria “normal”. No entanto, sob qualquer ponto de vista que se adote, esse crime nefando foi e será sempre aberrante, tudo menos “normal”. Digo isto para que fiquemos precavidos em face dos critérios de “moral estatística” que muitos jornais, revistas, programas de tv, conferencistas e professores de todos os níveis costumam usar como argumento. Com isso criam um “monstro” voraz, que suga o raciocínio e bestifica o ser humano, tornando-o massa manipulada: o monstro cego do “hoje em dia todos pensam assim” ou do “todo-o-mundo faz”.

Está claro, portanto, que nos faz muita falta possuir uma razão lúcida, aberta com transparência à verdade objetiva e ao bem. Pois, como víamos acima, há um bem que, ao longo dos milênios, todos os que não estavam contaminados por distorções morais e ideológicas souberam descobrir, usando a reta razão e contando, mesmo que não o soubessem, com a ajuda que Deus dá sempre aos corações sinceros. Neste sentido, acho significativas, por exemplo, as palavras que, no “Senhor dos Anéis”, Aragorn dirige a Éomer de Rohan: “O bem e o mal não mudaram desde o ano passado; nem são uma coisa para os elfos e os anões e outra coisa para os homens. É papel do homem discerni-los, tanto na Floresta Dourada como em sua própria casa”.

É justamente nesta linha da razão lúcida, que o Catecismo da Igreja Católica afirma que os Dez Mandamentos constituem o resumo da “lei natural”, ou seja, das normas morais que correspondem à natureza humana, e que a reta razão manifesta à consciência de todos os homens de boa vontade, em todos os tempos e em todos os lugares. “A lei natural é imutável – diz o Catecismo – e permanente através das variações da história; ela subsiste sob o fluxo das idéias e dos costumes e constitui a base para o seu progresso”. E isso porque os Dez Mandamentos “proíbem o que é contrário ao amor de Deus e do próximo e prescrevem o que lhe é essencial. O Decálogo é uma luz oferecida à consciência de todo o homem, para lhe manifestar o chamamento e os caminhos de Deus e protegê-lo do mal”.

Não sei se o leitor viu um filme antigo, da época da “guerra fria”. Por um erro fatal, desencadeou-se um processo que levaria fatalmente à guerra atômica entre os Estados Unidos e a União Soviética, com o risco provável de acabar com a humanidade. As maiores inteligências do mundo, unidas num esforço gigantesco de urgência, trabalharam de noite e de dia na programação de um grande computador que pudesse processar uma solução de emergência, capaz de deter a hecatombe. Quando o aparelho, o mais sofisticado do mundo, ficou com o programa pronto, fez-se a consulta, e o computador respondeu apenas: “O Senhor teu Deus é o único Senhor… Não tomarás o nome de Deus em vão… Honrarás pai e mãe… Não matarás… Não cometerás adultério… Não furtarás… Não mentirás… Não desejarás a mulher do próximo… Não cobiçarás os bens alheios”. Os Dez Mandamentos.

A razão seqüestrada

Mas ter uma razão lúcida não é coisa fácil. Muito mais fácil é ter a razão seqüestrada.

Seqüestrada por quem? Por muitos seqüestradores! Vamos começar pensando, como exemplo concreto, num diabético grave que, por ocasião de uma festa, abusa tremendamente de doce e acha que uma exceção não faz mal. Ele, racionalmente, sabe que aquilo é extremamente perigoso, mas o “desejo” de saborear um enorme pedaço de floresta negra o torna irracional. A ânsia de prazer – no caso, a gulodice incontida– seqüestrou-lhe a reta razão. Será lógico que, quando for parar no pronto-socorro, o médico lhe diga, usando da razão lúcida: “Meu amigo, com o grau de diabetes que o senhor tem, da próxima vez – se repetir essa imprudência – não irá para o pronto-socorro, irá direto para o necrotério”.

O desejo de prazer irrefletido é um conhecido seqüestrador do raciocínio. E é poderoso, como o prova o fato de que tem milhões de pessoas trancadas no seu cativeiro. Sim, são muitos os que já se enfiaram no beco-sem-saída do vício e estão com a vida em frangalhos. A maioria deles começou só querendo experimentar uma sensação nova, um prazer inédito, iludindo-se a si mesmos com o falso pensamento de que: “Não acontece nada, é só para saber que sensação produz, eu sei me controlar”.

Primeiro foi o álcool; depois, a maconha; depois, veio a cocaína – só uma vez, para ver como é que é… -, e a seguir o hábito de aspirá-la em quase todas as festas…; até que um dia apareceu a heroína ou o crack; e, desse modo, o rebelde que amava a liberdade sem restrições terminou acorrentado pelas algemas do vício. Sua liberdade morreu assassinada, “suicidada”. Agora já não “pode” mais livrar-se do hábito, a não ser a muitíssimo custo e quase que por milagre. Talvez, quando o pai, a mãe, um bom amigo, um mestre sensato, o alertavam contra o perigo dessas experiências, ele (ou ela) se sentia incompreendido e se revoltava – tantos colegas seus as faziam – e não admitia que ninguém interferisse com a sua liberdade. Mas essa liberdade, defendida com tanto ardor, acabou sendo a que Santo Agostinho chamava “a minha liberdade de escravo”.

Mencionava os colegas. Eis aqui outro seqüestrador: o medo de ser diferente dos outros, de ser escarnecido pela “turma”; a vergonha de parecer ridículo, antiquado, moralista, criançola dominada por papai e mamãe. Por outras palavras, um seqüestrador temível é esse tipo de vergonha que se chama “os respeitos humanos”. E eis aí como uma menina decente começa a mergulhar no brejo da liberdade sexual, que outra coisa não faz senão roubar-lhe a dignidade, prostituir-lhe a alma e torná-la cada vez mais incapaz de um verdadeiro amor. E a única razão para agir assim é que ela – tão “livre”! – está totalmente “presa” ao que muitas coleguinhas – pobres pedacinhos de carne em exibição e oferta – iriam pensar e dizer se não o fizesse. Só de imaginar as gozações que sofreria se soubessem que “ainda era virgem”, fica tão aflita que não hesita em vender a alma, na base de aviltar o corpo: acorrentada pelas risadinhas das “amigas”, acaba juntando-se a elas na mesma prateleira moral de carnes consumíveis e descartáveis.

Em suma, seqüestradores são as nossas fraquezas e misérias; as nossas covardias perante a moda e o ambiente predominante; a nossa idolatria do prazer a qualquer custo; os nossos medos (por exemplo, o medo da menina que cede a tudo pelo pavor de perder o namorado); os nossos egoísmos mesquinhos…, inimigos todos que abafam a razão. Há quem beba por vaidade (para não ser menos que os outros ou as outras); há quem se inicie em aberrações sexuais, contrárias à natureza (que, racionalmente, lhe repugnam), porque lhe falta caráter para dizer não aos amigos que o convidam para ir a uma boate “muito especial”; há quem se deixe amordaçar pela curiosidade mórbida e a sexualidade solitária, porque se tornou cativo dos sites indecentes da Internet, ou dos programas pornográficos noturnos da tv, e assim vira um autêntico “escravo”, incapaz de agir com domínio e liberdade.

Santo Agostinho, que esteve tão enredado no abuso dos prazeres corporais, dirigia-se assim a Deus, às vésperas de sua conversão: “Eu estava como que acorrentado, não por ferros alheios a mim, mas pelos do meu próprio amor agrilhoado. O demônio era dono da minha vontade, e dela fizera uma cadeia em que me mantinha prisioneiro. Pois a vontade má nasce da concupiscência [isto é, dos desejos desregrados] e quando se obedece aos desejos da carne, estes tornam-se costume; quando não se quebra esse costume, torna-se necessidade. Com tais elos, entrelaçados uns nos outros, fizera eu a cadeia com que o demônio me mantinha acorrentado à mais dura escravidão”.

Quando o desejo de prazer espana, sempre se encontram mil “razões sem razão”, mil explicações, até “científicas”, para justificar o injustificável, e a lucidez da razão se apaga juntamente com a luz da consciência, como duas velas de cera que esgotam o pavio e se consomem. Então a razão lúcida é vista como engano e falsidade, e chega a ser temida e até odiada, como o pior inimigo: – “Não quero que me digam que estou errado!” – Se Deus não tem misericórdia dessa criatura, tudo está perdido.

A razão iluminada

A asa da razão lúcida quando voa em conjunto com a asa da fé, adquire, sem desprezar nenhuma das verdades racionais que conquistou, uma altura e uma luminosidade superior, que lhe permite ver as verdades e os valores com uma clareza e profundidade antes insuspeitadas.

Citávamos no começo a Encíclica de João Paulo II sobre “A fé e a razão”. O Papa, nesse escrito filosófico, além de defender o valor da razão, pretende rebater o engano dos que julgam que existe antagonismo entre razão e fé, de modo que seria preciso deixar de lado a razão para poder aceitar plenamente as verdades da fé. Não, não é assim. Razão e fé vêm ambas de Deus, ambas são capacidades dadas à alma humana pelo mesmo Criador, para que possa conhecer e abraçar a verdade e o bem, que também procedem do mesmo Criador. A fé faz com que o olhar da inteligência humana se eleve, ganhe uma perspectiva mais completa e mais alta, e participe da clareza da própria visão de Deus. Como dizia um teólogo, ter fé não é fechar os olhos, mas abri-los mais, tomando emprestada a Deus a sua “capacidade visual”.

Sempre me impressionou a oração de Santo Agostinho no livro dos Solilóquios, quando, ainda pagão, começava a ser atingido pelos primeiros raios da fé: “Eterna verdade, verdadeiro amor, amada eternidade! Ela é o meu Deus; por ela suspiro dia e noite, e quando a conheci, levou-me consigo para que eu visse que existia aquilo que eu deveria ver e ainda não estava preparado para ver. Fez com que a debilidade dos meus olhos refletisse a sua luz, dirigiu com força os seus raios sobre mim, e estremeci de amor, e ao mesmo tempo de temor, pois percebi que me encontrava longe dela, numa região estranha”.

A fé é a máxima luz. E é importante projetar esse clarão – sobretudo o dos ensinamentos de Jesus Cristo – sobre a vida e sobre as virtudes.

Vale a pena recordar ensinamentos de Cristo, aparentemente contraditórios, que se harmonizam maravilhosamente com a luz da fé.

Comecemos evocando, para começar, o primeiro milagre que Cristo realizou, o das bodas de Caná. Faltava vinho nessa festa de casamento. A pedido de Maria, sua mãe, o Senhor transformou a água em vinho, e a alegria da celebração – que estava periclitando pela imprevidência das famílias – não ficou nublada. Não se pode negar que foi um milagre simpático, carinhoso, profundamente “humano”, pois a sua finalidade primeira foi a de manter a alegria festiva de uns convidados às bodas e evitar que os noivos sofressem vexame.

Este milagre tão amável, porém, fala – a quem souber enxergar – de várias outras coisas muito interessantes. Primeiro, ao participar de uma festa de casamento e colaborar diretamente na sua alegria, Jesus deixa claro que abençoa o amor dos esposos e santifica o casamento com a sua presença. Segundo, vê-se claro também que Jesus gosta das alegrias sadias da gente honesta e simples e as favorece. Sim, em Caná, não nos custa nada imaginar Jesus sorrindo, ao lado de sua Mãe santíssima, perante a alegria das canções e danças populares que nunca faltavam numas bodas judaicas. Em resumo, a fé nos mostra que Jesus ama e abençoa os prazeres simples e puros do mundo, deste mundo que foi feito por Ele, como lembra São João no prólogo do seu Evangelho, deste mundo que era bom, como proclama o livro do Gênesis, e que só foi manchado pelo pecado do homem. .

Somente quem percebe essas verdades é que pode entender outros ensinamentos de Jesus que parecem dizer o contrário. Concretamente, por que Jesus, a alguns que quer ter mais perto do seu Coração e transformar em íntimos colaboradores da obra da Redenção da humanidade, lhes pede a renúncia voluntária – alegre! – aos bens materiais do mundo e seus prazeres (Vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres – diz ao jovem rico), e aos amores humanos limpos (Aquele que, por minha causa, renunciar à mulher, aos filhos… – diz a Pedro e aos outros onze Apóstolos), à legítima liberdade de viver para planos pessoais (Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens – diz a Pedro, André, Tiago e João -, e eles, deixando tudo, o seguiram).

Nenhuma dessas renúncias é a condenação ou o desprezo de coisa alguma boa e nobre. Jesus não diz que casar-se seja mau (Ele que elevou o casamento à dignidade divina de Sacramento); nem que possuir e desfrutar honestamente dos bens da terra seja errado, desde que os compartilhemos com os outros; nem que sonhar em projetos pessoais seja condenável, quando na realidade é um dever sermos idealistas e lutadores. Ele diz, sim, que vale a pena renunciar com alegria a qualquer desses bens (que são bens mesmo) em troca de um bem maior, do grande ideal de seguir a Cristo pelo caminho do Amor total – com maiúscula -, e de dar a vida pelos nossos irmãos: O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida para redenção de muitos – dirá aos doze; e, na Última Ceia, sublinhará com força o motivo dessa renúncia, o amor: Que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos

Este é o resumo da história de muitas vidas de renúncia pessoal, que encheram de alegria a quem soube livremente esquecer-se de si mesmo e dar-se aos demais, e que iluminaram os caminhos da terra – como dizia São Josemaría Escrivá – “com o resplendor da fé e do amor”. A lista radiante, sorridente e feliz, dos santas e santos que encarnaram essa bela doação de amor é interminável.

(adaptação de um texto do livro de F.Faus, Autodomínio)