João Guimarães Rosa, o transparente contemplador

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O poeta do nome novo
Encabeçando as sete novelas que constituem Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, vão-se escalonando sete citações de Plotino e do místico flamengo Ruysbroeck, o Admirável, como degraus de acesso a essas surpreendentes narrações. «Vede – exclama Ruysbroeck, citando o Apocalipse –, eis a pedra brilhante dada ao contemplativo; ela traz um nome novo, que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe”.
Quer-me parecer que é sobretudo essa última frase a que nos inicia no clima que envolve boa parte da obra narrativa de Guimarães Rosa. Este escritor, que desde o seu aparecimento nunca deixou de assombrar a crítica pela força enigmática de um estilo inédito, é sobretudo o poeta do nome novo, o cantor do irrepetível. Desde um primeiro contato, o fenômeno de linguagem é o que primeiramente surpreende. Muito se tem comentado, entre leitores de fala portuguesa, já a partir de Sagarana, a sua primeira obra, sobre a magia desse estilo que, a cada passo, renova a língua de que se serve.

Mas, ainda que a linguagem seja a primeira a impressionar-nos nos escritos de Guimarães Rosa, a sua novidade só pode ser explicada em função do sentido total da obra. Nela, a fusão do binômio forma-fundo opera-se no mesmo nível que na poesia. Eu me atreveria a dizer que essa obra nunca deixa de ser, essencialmente, poesia. A palavra nova não tem nela outro sentido senão o de uma exigência interna do olhar com que o escritor se abre à contemplação da perturbadora novidade do mundo.

A linguagem de Guimarães Rosa tem as qualidades da vara de um vidente, que desperta no escuro e no inadvertido a surpresa do único, e lhe dá um nome novo. Por isso, uma mesma palavra não pode cingir-se à estabilidade do já definido, mas deve abrir-se ao que, por se apresentar sempre com luminosidade intocada, é de algum modo inefável. Isso explica que a palavra “irrompa”, se torne plástica e maleável, entre em tensão e transborde para além de si mesma. Assim pode captar de algum modo a pureza irrepetível de cada instante. «Não há nada igual neste mundo. Não quero palavra, mas coisa, movimento, vôo» .

Um abismo sem fundo

Guimarães Rosa interna-se, por meio da palavra, na contemplação de um mundo em que nada é, em rigor, igual. Em todos os seus livros há uma sensação de riqueza cósmica em que irrompe o espiritual. O mundo e a vida resistem a esgotar-se, a serem classificados. Nada pode cristalizar em moldes que o aprisionem porque, para além das aparências, continua sempre a abrir-se um abismo sem fundo, um abismo divino.

Instrumento do escritor que contempla, a palavra torna-se assim cristal sutilíssimo da alma, aberta em transparência para a própria transparência do mundo. A contemplação é uma incessante penetração no âmago do que há por trás e para além do mundo aparente. As coisas – os objetos, as pessoas, as situações –, no seu aparecer mutável, são como janelas que na noite se entreabrem, para ir assomando o homem à perspectiva de uma plenitude, da qual elas são símbolo, espelho fragmentado e mensagem: « Só vemos pedacinhos, fragmentos de uma coisa sempre maior».

Aqui, o olhar é a porta da alma. E a alma tem uma ilimitada capacidade de avançar, atravessando a opacidade do mundo. «Nenhuns olhos têm fundo, a vida, também, não» . Saber contemplar é, então, abrir-se por entre sombras para uma espécie de fulguração, na qual o mundo reverbera como um diamante de mil faces, de mil espelhos expostos, em ângulos imprevisíveis, à inesgotável irradiação do Ser.

Ao lermos essas obras personalíssimas não podemos deixar de perceber, com peculiares tonalidades, aquela atitude contemplativa que caracteriza a mística de inspiração neoplatônica. Em Guimarães Rosa há um olhar insaciável dirigido a algo de ulterior às coisas, algo de mais sutil e profundo, um pressentimento espiritual do que elas nos comunicam através dos seus véus, numa verdadeira mística de transparência. «Eu sempre fui místico», afirma esse autor que quer extrair da noite do universo os segredos da Luz.

Tendo por base essa atitude, é natural que a palavra se faça nova cada vez que é pronunciada. Palavra nascente para o fulgor nascente das coisas. Guimarães Rosa pensava que era terrível que um livro tivesse que parar. Cada livro deveria ser uma realidade em devir, reflexo da novidade cativante do que se contempla. E, uma vez que isso não é possível, o estilo procura uma mobilidade ondulante – fluxo e refluxo em que o tempo é abolido –, uma espécie de irradiação, e a palavra ganha aquela tensão propriamente poética, que é capaz de sugerir para além dos seus limites.

A narração vai adquirindo, então, uma insinuação mágica. Avança como uma crepitação, como uma ondulação marinha através da qual – como estamos reiterando uma e outra vez – tenta-se refletir a cintilação do irrepetível. Vem à mente a expressão bíblica da «centelha que corre no meio do canavial» (Sab 3:7).

Ainda que o espaço de quase todas as histórias seja uma paisagem semivirgem, rica de cores, sons, seres, nunca encontramos uma verdadeira descrição nem, portanto, um quadro estático da paisagem com simples função ambiental. Todas as coisas emergem num fervilhar luminoso, assim como os homens – os personagens – só se revelam na medida de cada um de seus atos, sem uma prévia definição de caracteres. Tudo com um sabor de novidade, que é caçada no seu vôo, com golpe rápido de palavra. Muito significativamente lemos em Sagarana que as palavras «têm canto e plumagem» , com a aérea mobilidade dos pássaros. «E, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinqüenta metros de tronco e fronde, quem não terá o ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo… na direção da altura?” .

“Olhos novos”, para contemplar

Contemplar é desvendar, fazer surgir da escuridão o nome novo que cada coisa guarda dentro de si: « O Menino repetia-se em íntimo o nome de cada coisa (…). Todas as coisas, surgidas do opaco. Sustentava-se delas sua incessante alegria, sob espécie sonhosa, bebida, em novos aumentos de amor. E em sua memória ficavam, no perfeito puro, castelos já armados. Tudo, para a seu tempo ser dadamente descoberto, fizera-se primeiro estranho e desconhecido» .

Uma análise dos personagens das histórias de Guimarães Rosa mostra-nos que o autor escolhe aqueles que se encontram em melhores condições para penetrar na vida com uma visão elementar, de nascentes descobertas.

Os olhos de maios plasticidade para fazer a estréia do mundo são os da infância. E, de fato, há um longo desfilar de crianças em todas essas histórias, olhares que podem captar as coisas com contornos isentos de preconceitos e rotina. Da pequenina Maria Euzinha, protagonista da estória “Tresaventura” do livro Tutaméia , diz-nos o autor que «ficava no intato mundo das ideiazinhas ainda». E a silenciosa e efêmera Nhinhinha de “A menina de lá”, com a sua exclamação predileta: «“Tudo nascendo!» , é todo um símbolo.

A par das crianças, encontramos a presença dominante do homem primitivo, que se expande num vasto mundo nascente: a figura do vaqueiro do sertão quase intocado dos Campos Gerais, homens de impulsos primários, de instintos elementares, de ingênua receptividade, no meio de uma envolvente natureza. Almas que se dilatam em forças originais e nítidas: a sua capacidade de ternura, os seus amores, invejas, ódios e nostalgias, a sua ardente procura, a balouçar entre o delicado amor e a brutalidade. Nesse aspecto, a figura de Riobaldo, o protagonista de Grande Sertão: Veredas adquire relevância singular. Neste romance de vastas proporções e entrecruzadas perspectivas, a alma de Riobaldo vai-se mostrando quase que à flor da pele, ansiosa por transmitir aos borbotões – numa longa narração monológica – a sua inexprimível experiência: «mas principal quero contar é o que eu não sei se sei» .

Na aventura da procura do nome novo, Guimarães Rosa compraz-se em desentranhar o paradoxo da beleza, da pureza e do mistério que o mundo esconde sob as aparências da vulgaridade, o crime ou a loucura. Adeja em toda a obra o sentido de uma realidade “outra”, “sobre-natural”. Poderíamos recordar aqui uma sensacional galeria de personagens, como o fantástico louco da novela Buriti , o chefe Zequiel, que capta na noite as vozes secretíssimas da terra, inaudíveis para os que, em sua cordura, tem com que ensurdescer a alma. Ou o Moço muito branco , de alienígena mudez, surgido misteriosamente de engenhos voadores nos desconcertos de um terremoto, como o mago que conjura brancas pazes entre a inveja e o ódio. Ou a comovente história da Benfazeja , a mendiga marcada por um crime de morte que, dentro de uma sórdida e dolorida violência, abriga uma incontida vontade benfazeja.

Vale a pena transcrever fragmentos do diálogo com que os vaqueiros de outro obscuro personagem – o árido e inabordável Cara-de-Bronze – comentam o que acabam de descobrir acerca dos inexplicáveis interrogantes que queimam o coração do velho fazendeiro, o estranho patrão que enviara, para pesquisá-los, o jovem vaqueiro Grivo, em viagem sem destino compreensível: « Não requeria relatos de campeação… as querências das vacas parideiras, o crescer das roças, as profecias do tempo… Nem não eram outras coisas proveitosas, como saber de estórias de dinheiro enterrado em alguma parte… Agora ele indaga engraçadas bobéias… Aquilo não tinha rotinas… Por exemplo: – A rosação das roseiras. O ensol do sol nas pedras e folhas. O coqueiro coqueirando. As sombras do vermelho no branqueado de azul… A brotação das coisas… Ele queria uma idéia como o vento… que relembra os formatos do orvalho… E bonitas desordens, que dão alegria sem razão e tristezas sem necessidade. Não-entender, não-entender, até se virar menino. Jogar nos ares um montão de palavras, moedal… Era só uma claridade diversa diferente… Queria era que se achasse para ele o quem das coisas!” .

Guimarães Rosa acende-se em terna poesia quando nos pode mostrar, oculto no homem, onde menos se esperava, um poder de criança. Surge, então, a vida com frescor de nascença, como uma floração de incessantes aberturas. Numa época em que a humanidade parece encolher-se nas pregas de um mundo gasto, as suas palavras têm o eco orvalhado dos primeiros dias da criação.

Beleza do mundo, transparência do eterno

Essa luminosidade que nos abre aos absconsos do mundo não desemboca, como talvez poderia pensar-se, no êxtase da fusão do homem com o cosmo, ou num panteísmo monístico. Seu caminho vai além.

O que nutre a alma do contemplador não é tanto a riqueza do mundo como a sua transparência. A luz que vislumbra não é a que as coisas têm em si, mas a que elas revelam, sempre reflexo parcial da verdadeira “realidade”, da realidade divina. É preciso passar por elas – sem deixar que nos amarrem – como o olhar passa através do cristal.

As coisas, sem dúvida, atraem com seu brilho. Prometem: a fulguração cativante de cada um de seus instantes parece prometer uma plenitude eterna. Logo, porém a experiência ensina a sua dolorosa fugacidade, e nela se aprende que a alegria não consiste em possuí-las. Prender é perder. Ninguém pode cristalizar para sempre uma faísca. Muito platonicamente, Guimarães Rosa declara que «o meu amor exige distância».

Uma das mais belas estórias de Guimarães Rosa tem o significativo título de “As margens da alegria» . O protagonista é um menino, que de repente depara com o encanto de uma paisagem desconhecida. Para ele «as coisas vinham docemente de repente»; as árvores, os animais tinham «qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento». Mas quando estava no auge do embevecimento, um dia acorda e, atordoado, vê por terra as coisas mais amadas e belas. Cortaram a graciosa árvore, o peru admirado é prosaicamente servido num almoço. «Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podiam? Por que tão de repente?… Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama de morte». Eis a vida a iniciar o homem nas suas brutais lições: «descobria o possível de outras adversidades, no mundo maquinal, no hostil espaço, e que entre o contentamento e a desilusão, na balança infidelíssima, quase nada medeia. Abaixava a cabecinha». «Mesmo um menino – lemos em outro lugar – sabe, às vezes, desconfiar do estreito caminhozinho por onde a gente tem de ir-beirando entre a paz e a angústia» . Chega a tristeza. O bosque, as negras árvores da noite, são para a criança um montão excessivo. Como o mundo. Mas na borda fosca da amargura, eis que de repente, fugacíssima e frágil, brilha uma nova luz: o “vaga-lume”, «tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria».

Quando a alegria inicial se ensombrece, uma nova claridade fura a noite e é como que o prenúncio sutil de outra Alegria, ulterior às tristezas deste mundo. O vaga-lume – leve impacto repetido na noite – tem um simbolismo claro. Ainda que o visível se feche, efemeramente, na fronteira das suas sombras, sempre nos envia através das coisas uma nova mensagem, que é uma chamada incansável do eterno. Os instantes passageiros não podem ser apreendidos como uma posse estável, mas revelam, pela luz que nos enviam, a abertura ilimitada da alma e a grandeza a que ela é chamada. Dessa experiência emerge o homem com dimensão mais profunda, mais próximo daquela grandeza para a qual toda a vida se abre e da qual as coisas são mensageiras. O nome novo que elas balbuciam – esfinges amigas e benévolas – é o nome verdadeiro do homem.

A chegarmos a este ponto, parece-me significativo recordar que quase toda a obra de Guimarães Rosa se situa num mesmo ambiente geográfico e humano regional. É um campo voluntariamente delimitado, como que para indicar que a identidade profunda, o nome novo, não se conquista pelo acúmulo e variedade das “muitas coisas”, mas – como acabamos de ver – pelo abismo que por meio delas se vislumbra. Acentua-se assim o fato de que, ao avançar no olhar maravilhado da contemplação, o que cresce não é tanto o “mundo”, aos olhos do homem, como o próprio homem por dentro. Muitos dos personagens de Guimarães Rosa são seres que avançam, que vão crescendo, em aumentos de grandeza e claridade. A alma aparece como uma luz vaga, que desabrocha, se define e torna nítida ao purificar-se. Aqui estamos num ponto decisivo da “mística” do nosso autor, que vale a pena considerar mais de perto.

Contemplar: uma atividade que “purifica”

Na obra de Guimarães Rosa, a experiência contemplativa aparece, dentro de um clima fortemente platônico, como um processo de libertação por meio do qual o homem consegue encontrar-se a si mesmo. A irradiação da beleza do mundo é apenas um ponto de apoio. Ao contrário do que se poderia supor pelo nível de intensa e constante poesia de sua obra, para Guimarães Rosa a beleza que se capta – e que é imensa – interessa sobretudo pela alma que liberta, que “desencadeia”. O mundo sensível é limitado e fechado sobre si mesmo, mas o homem pode romper sua aparente muralha material e transcendê-lo. « Eu acho que nós bois – dizem os bois conversadores de Sagarana – assim como os cachorros, as pedras, as árvores, somos pessoas soltas, com beiradas, começo e fim. O homem não: o homem pode se ajuntar com as coisas, se encostar nelas, crescer, mudar de forma e jeito… O homem tem partes mágicas” .

Sim. Guimarães Rosa vê a experiência do viver com as tonalidades místicas de uma experiência espiritual de caráter contemplativo. Para ele, a contemplação não é passiva: nada tem do simples gozo admirativo do esteta, nem da mera apropriação intelectual. Contemplar é uma atividade que purifica. O gesto do «transparente contemplador» é o daquele que, depois de beber a mensagem sempre fluente das coisas, as redime, amando-as pelo que manifestam, mas deixando-as apagar-se no silêncio quando já cumpriram a sua missão. «Respeitava no tangimento – diz do tio Manantônio, protagonista de uma das Primeiras estórias –a movida e muda matéria; mesmo em seu mais costumeiro gesto – que era o de como se largasse tudo nas mãos, qualquer objeto. Distraído, porém, acarinhando-as, redimia-as, de outro modo, às coisas comezinhas?” .

É preciso largar as coisas e, para isso, o mais alto mestre da vida e da alegria é o sofrimento. As coisas nos são arrancadas com dor, mas o ato de nos desprendermos delas é, afinal, livrar-nos do véu que tapava e afogava a alma: « Miguilim, Miguilim – diz o pequeno Dito, pouco antes de morrer, ao irmãozinho, uma criatura aturdida pelos golpes inexplicáveis que a vida lhe vibra –, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!” .

Dentro dessa perspectiva, a aventura humana torna-se uma extrema aventura espiritual. Cada vida tem que forjar-se a si mesma, tirando a alma de suas prisões e projetando-a, livre, para um crescimento ilimitado. Fica claro, com isso, que a sugestiva transparência que o mundo oferece ao contemplador consiste justamente na superação dos seus muros sensíveis e na abertura de um vazio luminoso, como espaço livre para a ascensão. Quando o náufrago, subindo pela sinalização luminosa das águas que o envolvem, emerge ao ar livre, encontra-se no seu âmbito verdadeiro e respirável. Somente então se realiza.

«Vejo o ser humano – diz Guimarães Rosa – como rascunho do que vai ser». Hora a hora se faz, sem que a vida o possa deter, ligando-o às coisas passageiras ou fazendo-lhe esgotar as forças no irreversível engano das experiências que morrem matando. Nada na terra – nem as coisas, nem o tempo – é capaz de encarcerar o homem na sua pequenez. «A vida não tem passado. Toda hora o barro se refaz. Deus ensina» .

A experiência do espelho

Para exprimir esta aventura-limite de contemplação e purificação, Guimarães Rosa cria o seu próprio mito, com sabor de confidência pessoal: o do espelho. Na estória que leva esse título – O espelho –, relata a experiência do homem que um dia, ao contemplar o seu rosto no espelho, vê refletida nele uma estranha figura. “Aquilo” não é ele. Empreende então a árdua tarefa de se ver realmente a si mesmo. Tem que buscar seu verdadeiro rosto. O processo que segue é o da eliminação, purificando o modo de se mirar no espelho de tal forma que, na imagem refletida, “não veja” tudo o que de alguma forma é falso, enganoso ou acrescentado. Tem de «olhar não vendo», apagar aquilo que em seu rosto é ainda um simples reliquat bestial, ou traço recebido por herança, ou impressão deformante das paixões, até que enfim apareça, puramente, “ele”. Quando afinal é coroada a purificação de sombras estranhas, «me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o transparente contemplador?».

Aí comenta: «partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até a total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… des-almado? Então, o que se me fingia de um suposto eu não era mais que, sobre a persistência do animal, um pouco de herança, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influências, e tudo o mais que na impermanência se indefine? Diziam-me isso os raios luminosos e a face vazia do espelho – com rigorosa infidelidade. E, seria assim, com todos? Seríamos não muito mais que as crianças – o espírito do viver não passando de ímpetos espasmódicos, relampejados entre miragens: a esperança e a memória».

Anos mais tarde, «ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei – não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância… Que luzinha, aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa?… São coisas que se não devem entrever; pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde – por último – num espelho. Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E… sim, vi, a mim mesmo, de novo, num rosto, um rosto, não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado, apenas-mal emergindo; qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que rostinho de menino, de menos-que-menino, só… Apalpo o evidente? Tresbusco. Será este nosso desengonço e mundo o plano – intersecção de planos – onde se completam de fazer as almas? Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria; sua técnica – ou pelo menos parte – exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o salto mortale… E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: Você chegou a existir? Sim? Mas, então, está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens?» .

Um ardente e luminoso pressentimento

Estamos no final da experiência. O contemplador despojado chega à evidência das raízes. Existir – já o víamos – é extrema aventura, radicalmente espiritual e voltada para o eterno. No aparente absurdo e desordem do mundo, dá-se uma tremenda intersecção de planos, o eterno se entrecruzando com o temporal e rasgando as vias por onde a alma se perfaz. Salta aí, feita em pedaços, a concepção materialista do homem, e se esfarela a atitude de resguardo egoísta da vida na sua autodestrutora contingência. A explicação do homem –diríamos nós – é o mistério da alma “capaz de Deus”, que sem Ele fica eternamente inconsumada.

A obra de Guimarães Rosa, como a mística plotiniana, toca os acordes de um sugestivo prelúdio, que só pode romper em cântico definitivo quando acabar de se internar no nódulo sobrenatural do mistério que a mística cristã alumia plenamente. Este é o necessário “salto mortal”.

Entre a angústia e a esperança, o homem de Guimarães Rosa queima num ardente pressentimento da Trindade. Ainda estamos longe do encontro da criatura humana com o Amor pessoal – o Deus transcendente e entranhadamente próximo – mediante o abraço transformador da Graça do Espírito Santo. A “mística” de Guimarães Rosa é, na realidade, uma mística pré-cristã que, num vale de luzes e sombras, galga os primeiros degraus de acesso aos fundões do mundo sobrenatural: «Porque – dizia São João da Cruz –, depois do exercício do conhecimento próprio, esta consideração das criaturas é a primeira, pela ordem, neste caminho espiritual para ir conhecendo Deus, considerando a sua grandeza e excelência por intermédio delas».

Fica, porém, um passo a dar. O que rompe os últimos enigmas e conduz em silêncio ao coração do mistério:

Adonde te escondiste,
Amado, y me dejaste con gemido?
Como el ciervo huíste
Habiéndome herido;
Salí tras ti clamando, e eras ido […].
¡Oh, bosques y espesuras,
Plantadas por la mano del Amado!
¡Oh, prado de verduras,
De flores esmaltado,
Decid si por vosotros ha pasado!
Mil gracias derramando,
Pasó por estos sotos con presura,
Y yéndolos mirando,
Con sola su figura
Vestidos los dejó de hermosura.
¡Ay, quién podrá sanarme!
Acaba de, entregarte ya de vero,
No quieras enviarme
de hoy más ya mensajero;
que no saben decirme lo que quiero! […]
Y véante mis ojos,
Pues eres lumbre de ellos,
Y sólo para ti quiero tenellos…

Quem adentrar nas obras de Guimarães Rosa sentirá o denso sabor do presságio que pulsa, muitas vezes, entre as sombras translúcidas da concepção neoplatônica do mundo ou do misticismo das religiões orientais. Cada passo que fere o claro-escuro da noite transparente, arrisca o contemplador a perder-se num abismo. O salto pode ser mortal. Mas, na tensa aventura, percebe-se incessantemente aquele gemido inefável da criação sensível, como uma dolorosa – e deliciosa – procura de Deus, do «Amor che move il sole e l’altre stelle» .

No limiar da Luz, este extraordinário escritor levantou a sua voz para cantar a grandeza da alma. E tudo – como numa das suas mais belas estórias – é arrastado para onde essa canção se encaminha.