Fé: um encontro com Cristo

Um encontro que é uma descoberta
(continuação da meditação:‎ “‏Fé ou amor‭”)

No comentário de‭ ‬Michel‭ ‬Quoist sobre a fé,‭ ‬citado na meditação‭ ‬“Fé ou amor‭”‬ (que se encontra nesta mesma seção dom site‭)‬,‭ ‬víamos que esse autor,‭ ‬depois de dizer que a fé é uma graça,‭ ‬acrescenta que ela nos ajuda a‭ ‬reencontrar uma pessoa viva,‭ ‬Jesus Cristo,‭ ‬e nos permite adquirir a‭ ‬certeza de que Ele fala a Verdade.‭ ‬Vamos refletir‭ ‬agora‭ ‬um pouco sobre isto.

Uma das cenas mais bonitas do Evangelho é a narração da cura de‭ ‬um cego junto‭ ‬em Jerusalém.‭ ‬Andava certa vez Jesus pelas dependências externas do Templo de Jerusalém,‭ ‬quando encontrou‭ ‬incidentalmente um cego de nascença,‭ ‬um rapaz que nunca tinha visto a luz,‭ ‬que jamais se extasiara com as cores da natureza nem se comovera fitando um rosto amado.‭ ‬Ao chegar perto dele,‭ ‬Cristo exclamou:‭ ‬Enquanto estou no mundo,‭ ‬eu sou a luz do mundo.‭ ‬E,‭ ‬imediatamente,‭ ‬realizou o milagre de lhe abrir os olhos.‭

Foi-se o antigo cego,‭ ‬deslumbrado pela beleza do mundo,‭ ‬a rir e a contar a todos a sua felicidade.‭ ‬Horas depois,‭ ‬Cristo reencontrou-o e,‭ ‬olhando-o com carinho,‭ ‬sorriu,‭ ‬enquanto lhe perguntava:‭ – ‬Crês no Filho do homem‭?‬ O cego entendeu logo a pergunta‭ (‬bem sabia que a expressão‭ “‬Filho do homem‭” ‬era um título‭ ‬usado pelo‭ ‬profeta Daniel‭ ‬para‭ ‬designar o futuro Messias‭) ‬e respondeu:‭ – ‬Quem é ele,‭ ‬Senhor,‭ ‬para que eu creia‭? ‬Disse-lhe Jesus:‭ – ‬Tu o vês,‭ ‬é o mesmo que fala contigo.‭ – ‬Creio,‭ ‬Senhor‭! – ‬disse ele.‭ ‬E prostrando-se diante dele,‭ ‬o adorou‭ ‬(Jo‭ ‬9,‭ ‬1‭ ‬e segs.‭)‬.‭

Quem é ele,‭ ‬Senhor‭? ‬Essa é a grande pergunta que todos nós deveríamos fazer.‭ ‬Quem é Cristo‭? ‬Quem és Tu,‭ ‬Senhor‭? ‬Porque são muitos os que falam de Cristo,‭ ‬dizem que acreditam nEle e que o admiram,‭ ‬mas muito poucos o conhecem de verdade.‭ ‬Em vez de possuírem a verdadeira imagem de Cristo,‭ ‬têm dEle uma idéia distorcida pela ignorância,‭ ‬pela confusão de opiniões e pela fantasia.‭

Com a ajuda da graça de Deus,‭ ‬o primeiro passo da fé cristã deve ser‭ ‬conhecer Cristo.

É muito importante perceber que o Cristianismo‭ – ‬a fé cristã‭ – ‬começou assim:‭ ‬com um encontro alegre,‭ ‬com o feliz deslumbramento produzido pelo encontro com Cristo.

Os primeiros discípulos de Jesus‭ – ‬Pedro,‭ ‬André,‭ ‬João,‭ ‬Tiago,‭ ‬Filipe…‭ –‬,‭ ‬depois de estarem com Ele pela primeira vez,‭ ‬num entardecer inesquecível à beira do rio Jordão,‭ ‬foram,‭ ‬irradiando felicidade‭ – ‬com os olhos‭ ‬brilhantes e a palavra ofegante pela emoção‭ – ‬comunicar,‭ ‬um ao irmão,‭ ‬outro ao amigo,‭ ‬a grande notícia:‭ – ‬Encontramos o Messias‭ (‬que quer dizer o Cristo‭)! ‬É Jesus de Nazaré‭!‬ (Jo‭ ‬1,‭ ‬41.45‭)‬.

‎“‏Conhecer‭” ‬Cristo deixa uma marca indelével.‭ ‬Descobrir‭ ‬mesmo Cristo produz um deslumbramento inefável:‭ ‬mete no coração uma luz que não se esgota,‭ ‬uma vitalidade nova,‭ ‬uma alegria que jamais envelhece.

São João,‭ ‬um daqueles primeiros discípulos que víamos junto de Jesus,‭ ‬muito tempo depois,‭ ‬quando já estava com a idade de quase cem anos,‭ ‬escreveu as lembranças do seu convívio com Nosso Senhor,‭ ‬e nelas testemunhava com viço juvenil:‭ ‬O que era desde o princípio‭ ‬[Cristo,‭ ‬o Verbo,‭ ‬Deus e homem verdadeiro‭]‬,‭ ‬o que ouvimos,‭ ‬o que vimos com os nossos olhos,‭ ‬o que contemplamos e as nossas mãos apalparam no tocante ao Verbo da vida‭ ‬[…‭]‬,‭ ‬nós vo-lo anunciamos,‭ ‬para que também vós tenhais comunhão conosco‭ [‬…‭]‬.‭ ‬Escrevemo-vos estas coisas para que a vossa alegria seja completa‭ (‬cf.‭ ‬1‭ ‬Jo‭ ‬1,‭ ‬1-4‭)‬.‭ ‬João tinha tanta alegria dentro do peito que queria compartilhar com todos a sua fé transbordante de felicidade.

A nossa imagem de‭ ‬Cristo

E nós‭? ‬É bem provável que,‭ ‬a muitos de nós se possam aplicar as palavras do livro‭ ‬Caminho:‭ “‬Esse Cristo que tu vês não é Jesus.‭ – ‬Será,‭ ‬quando muito,‭ ‬a triste imagem que podem formar teus olhos turvos…‭ – ‬Purifica-te.‭ ‬Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência.‭ ‬Depois…‭ ‬não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor.‭ ‬E terás uma visão perfeita.‭ ‬A tua imagem será realmente a sua:‭ ‬Ele‭!”‬ (Caminho,‭ ‬8‭ ‬a.‭ ‬edição,‭ ‬Quadrante,‭ ‬São Paulo,‭ ‬1995,‭ ‬n.‭ ‬212‭)‬.

Nós não‭ “‬vemos‭” ‬Jesus,‭ ‬a maior parte das vezes,‭ ‬devido à nossa ignorância,‭ ‬porque pouco sabemos dEle.‭ ‬Por isso,‭ ‬far-nos-á bem reconhecer com‭ ‬humildade:‭ “‬Não sei quase nada.‭ ‬Nunca me preocupei de conhecê-lo a sério‭”‬.‭ ‬E,‭ ‬penitenciando-nos por esse desinteresse,‭ ‬que é uma falta de amor,‭ ‬também nos fará bem acrescentar:‭ “‬Sinto muito este descaso,‭ ‬dói-me esta superficialidade,‭ ‬este desleixo‭”‬.‭ ‬Então,‭ ‬surgirá sozinha dentro da nossa alma uma conclusão:‭ “‬Preciso conhecê-lo,‭ ‬e conhecê-lo a fundo‭”‬.‭ ‬Mas,‭ ‬como conseguirei‭?

Como‭? ‬Um bom roteiro é o que traçava‭ ‬São Josemaria Escrivá:‭ “‬Que procures Cristo.‭ ‬Que encontres Cristo.‭ ‬Que ames a Cristo.‭ – ‬São três etapas claríssimas.‭ ‬Tentaste,‭ ‬pelo menos,‭ ‬viver a primeira‭?‬ (Caminho,‭ ‬n.‭ ‬382.‭)‬ Eis,‭ ‬a seguir,‭ ‬algumas sugestões que nos podem ajudar a percorrer essas etapas:‭

* Ler todos os dias algum trecho‎ (‏ainda que seja só uma página,‭ ‬meia página,‭ ‬durante cinco minutos‭) ‬do Evangelho,‭ ‬do Novo Testamento.‭ ‬Melhor se for numa hora fixa‭ – ‬de manhã,‭ ‬antes do trabalho,‭ ‬ou antes do jantar,‭ ‬por exemplo‭ –‬,‭ ‬lutando por adquirir esse bom hábito.

‎* ‏Procurar um bom livro‭ – ‬do tipo‭ “‬biografia‭” – ‬sobre a vida de Cristo,‭ ‬e ir lendo-o devagar,‭ ‬com o texto do Evangelho ao lado para conferir,‭ ‬até fazermos uma idéia completa da vida de Jesus‭ (‬Uma biografia excelente,‭ ‬entre outras,‭ ‬é:‭ ‬J.‭ ‬Pérez de Urbel,‭ ‬A vida de Cristo,‭ ‬2a.‭ ‬ed.,‭ ‬Quadrante,‭ ‬São Paulo,‭ ‬1998‭)‬;

* Depois de conhecer um pouco melhor a vida de Cristo,‎ ‏de nos termos familiarizado mais com ela,‭ ‬meditar as palavras e os atos de Nosso Senhor que os Evangelhos conservam.‭ ‬Talvez a melhor maneira de fazê-lo seja a que também aconselhava‭ ‬São Josemaria:‭ ‬ler as passagens do Evangelho‭ “‬metendo-nos nelas,‭ ‬como um personagem mais‭”; ‬e então olhar para Cristo e pensar no seu exemplo e nas suas palavras como uma interpelação pessoal,‭ ‬como se Ele se dirigisse a nós e esperasse a nossa resposta‭; ‬podemos estar certos de que‭ – ‬dado que Cristo vive‭ – ‬esse modo de proceder estará mais perto da realidade do que da imaginação‭ (‬Ver a homilia‭ ‬Vida de oração,‭ ‬no livro‭ ‬Amigos de Deus,‭ ‬Quadrante,‭ ‬São Paulo,‭ ‬1979,‭ ‬págs.‭ ‬203‭ ‬e segs‭)‬.

‎* ‏Estudar a doutrina cristã sobre Nosso Senhor Jesus Cristo,‭ ‬ou seja,‭ ‬conhecer os aprofundamentos sobre o mistério de Jesus Cristo alcançados pelos grandes santos,‭ ‬pelos místicos cristãos e pelos bons pastores e teólogos da Igreja‭; ‬por outras palavras,‭ ‬a doutrina guardada,‭ ‬aprofundada e transmitida pelo Magistério da Igreja ao longo de vinte séculos,‭ ‬que é exposta de maneira clara e acessível nos Catecismos e em muitos bons livros de formação cristã‭ (‬Ver o amplo‭ ‬Catecismo da Igreja Católica,‭ ‬Ed.‭ ‬Vozes-Loyola,‭ ‬São Paulo‭ ‬1993,‭ ‬ou,‭ ‬pelo menos,‭ ‬e o‭ ‬Compêndio do Catecismo da Igreja Católica,‭ ‬Ed.‭ ‬Loyola,‭ ‬São Paulo‭ ‬2005‭)‬.

‎* ‏E,‭ ‬ainda,‭ ‬esforçar-nos por chegar à amizade com Cristo,‭ ‬conversando com Ele freqüentemente‭ – ‬em casa,‭ ‬no quarto,‭ ‬na rua,‭ ‬no trânsito,‭ ‬no trabalho,‭ ‬em todo o lugar‭ –‬,‭ ‬de modo que a nossa amizade com Cristo se torne cada vez mais íntima.‭ ‬Então,‭ ‬o coração descobrirá coisas que a cabeça sozinha nunca seria capaz de perceber.‭

Que devo fazer‭?

Outro que conheceu,‭ ‬literalmente,‭ ‬o‭ “‬deslumbramento‭” ‬do encontro com Cristo foi São Paulo.‭ ‬Ele mesmo nos conta a sua experiência.‭ ‬Estava chegando à cidade de Damasco,‭ ‬na Síria,‭ ‬para onde me dirigi‭ – ‬diz ele‭ –‬,‭ ‬com o fim de prender os‭ [‬cristãos‭] ‬que lá se achassem e trazê-los a Jerusalém,‭ ‬para que fossem castigados.

Ora,‭ ‬estando eu em caminho,‭ ‬e aproximando-me de Damasco,‭ ‬pelo meio-dia,‭ ‬de repente me cercou uma forte luz do céu.‭ ‬Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia:‭ ‬Saulo,‭ ‬Saulo,‭ ‬por que me persegues‭? ‬Eu repliquei:‭ ‬Quem és tu,‭ ‬Senhor‭? ‬A voz disse-me:‭ ‬Eu sou Jesus de Nazaré,‭ ‬a quem tu persegues.‭ ‬Os meus companheiros viram a luz,‭ ‬mas não ouviram a voz que me falava.‭ ‬Então eu disse:‭ ‬Senhor,‭ ‬que devo fazer‭? ‬(At‭ ‬22,‭ ‬5-10‭)‬.

Derrubado pela voz de Cristo,‭ ‬literalmente deslumbrado pela graça da fé que lhe era concedida naquele momento,‭ ‬São Paulo fez a pergunta da‭ “‬autenticidade‭”‬:‭ ‬Que devo fazer‭?‬

Também nós,‭ ‬quando abraçamos sinceramente a fé em Cristo,‭ ‬devemos dirigir-lhe esta pergunta:‭ ‬Que devo fazer‭? ‬Senhor,‭ ‬que queres que eu faça‭?

Víamos antes‭ – ‬com palavras de Quoist‭ – ‬que a fé em Jesus Cristo,‭ ‬que nos permite adquirir a‭ ‬certeza de que Ele fala a Verdade,‭ ‬consiste,‭ ‬na prática,‭ ‬em‭ ‬esposarmos o seu olhar e em‭ ‬comprometer-nos em função desse olhar.‭ ‬Duas coisas ressaltam destas‭ ‬duas idéias sobre a fé.‭

Primeira,‭ ‬que,‭ ‬para um cristão que‭ ‬acredita mesmo,‭ ‬a palavra e a vida de Cristo são a Verdade,‭ ‬a Luz definitiva,‭ ‬que esclarece,‭ ‬ilumina e orienta todos os seus pensamentos,‭ ‬palavras e ações:‭ ‬Eu sou a luz do mundo‭; ‬aquele que me segue não andará nas trevas,‭ ‬mas terá a luz da vida‭ (‬Jo‭ ‬8,‭ ‬12‭)‬.

Segunda,‭ ‬que essa luz não é teórica,‭ ‬mas prática,‭ ‬é‭ ‬luz da vida‭; ‬de maneira que a fé só pode ser autêntica se for um‭ ‬compromisso‭ ‬de viver praticamente‭ ‬em função do olhar de Cristo,‭ ‬ou seja,‭ ‬de acordo com a visão‭ ‬que Ele tem,‭ ‬e que Ele nos transmite,‭ ‬sobre todas as coisas‭; ‬por outras palavras,‭ ‬de acordo com as perspectivas concretas que a Verdade cristã nos dá.

Assim o expressa o Papa João Paulo II:‭ “‬A fé‭ – ‬escreve na Encíclica‭ ‬Veritatis Splendor‭ (‬ns.‭ ‬88-89‭) – ‬é uma‭ ‬decisão que compromete toda a existência.‭ ‬É encontro,‭ ‬diálogo,‭ ‬comunhão de amor e de vida daquele que crê com Jesus Cristo,‭ ‬Caminho,‭ ‬Verdade e Vida.‭ ‬Comporta um ato de intimidade e de abandono a Cristo,‭ ‬fazendo-nos viver como Ele viveu,‭ ‬ou seja,‭ ‬no amor pleno a Deus e aos irmãos.‭ ‬A fé inclui também um‭ ‬compromisso coerente de vida,‭ ‬comporta e aperfeiçoa o acolhimento e a observância dos mandamentos divinos‭”‬.

Uma luz e um compromisso

A alternativa,‭ ‬para nós,‭ ‬é clara:‭ ‬ou levamos uma vida iluminada e guiada pela Verdade‭; ‬ou então caminhamos envoltos na penumbra,‭ ‬no nevoeiro das nossas opiniões e palpites superficiais sobre o que é certo e o que é errado,‭ ‬sobre os valores verdadeiros da existência,‭ ‬sobre o papel da religião,‭ ‬sobre o sentido do sexo,‭ ‬da família,‭ ‬da vida humana,‭ ‬da ética no trabalho,‭ ‬da responsabilidade em face da pobreza,‭ ‬da ignorância,‭ ‬do sofrimento,‭ ‬da injustiça e de todas as chagas que afligem os nossos irmãos,‭ ‬os homens.

Aquele que,‭ ‬pela fé,‭ ‬achou a Verdade de Cristo não pode fechar impunemente os olhos à sua luz.‭ ‬Se o fizer por medo ou comodidade,‭ ‬uma voz no íntimo da consciência lhe dirá que está fugindo,‭ ‬mais ainda,‭ ‬que está traindo.‭ ‬Ter visto a Verdade compromete a agir.

Não caiamos,‭ ‬pois,‭ ‬na covardia de esquivar a pergunta de São Paulo:‭ ‬Que devo fazer‭?‬ Nem as outras perguntas inseparáveis dessa:‭ ‬Que devo pensar sobre os problemas da vida‭?‬ Que valores devo amar e defender‭?‬ Por que ideais devo pautar o meu comportamento,‭ ‬todas as minhas opções e decisões‭?

Tais perguntas vão apresentar-se constantemente na nossa vida,‭ ‬sob formas muito concretas,‭ ‬levantando-nos delicadas questões de consciência.‭ ‬Devemos compreender,‭ ‬além disso,‭ ‬que a nossa fé não é apenas uma questão pessoal,‭ ‬com a qual se possa brincar,‭ ‬dizendo:‭ “‬É assunto meu‭; ‬se eu não acredito ou não pratico,‭ ‬é coisa minha‭; ‬o que é que os outros têm a ver com isso‭?”

Isso é falso,‭ ‬falsíssimo‭! ‬A fé não é nunca só‭ “‬coisa minha‭”‬.‭ ‬Os outros têm muitíssimo a ver.‭ ‬Porque a luz‭ – ‬ou as trevas‭ – ‬que eu tiver na minha mente e no meu coração vão influir decisivamente no meu comportamento e,‭ ‬portanto,‭ ‬no meu exemplo‭; ‬nas minhas opiniões sobre os problemas da atualidade e,‭ ‬portanto,‭ ‬na opinião de outros,‭ ‬que a minha vai influenciar‭; ‬no meu ideal de família e,‭ ‬portanto,‭ ‬no tipo de família pelo qual eu vou lutar‭; ‬no meu conceito de moral e de justiça no trabalho,‭ ‬e,‭ ‬portanto,‭ ‬no meu modo de trabalhar,‭ ‬servindo a sociedade ou atropelando tudo e todos com a minha ânsia de vantagens pessoais‭; ‬no modo como assumo a ajuda ao próximo‭ – ‬ao meu irmão necessitado,‭ ‬aos problemas sociais‭ – ‬ou lhe viro as costas‭; ‬nas posições que eu adote sobre o valor da vida humana desde o seu nascimento até ao seu término natural‭ (‬aborto,‭ ‬eutanásia‭)‬,‭ ‬etc.,‭ ‬etc.

O‭ “‬tipo‭” ‬de fé que nós tivermos e praticarmos terá muitíssima influência‭ – ‬muito mais do que agora imaginamos‭ – ‬no presente e no futuro da nossa vida pessoal,‭ ‬familiar,‭ ‬profissional e social.‭ ‬Por isso,‭ ‬a responsabilidade pelo nosso‭ “‬compromisso‭” ‬cristão é grande.‭ ‬Só uma pessoa inconsciente ou infantilizada pode ficar contornando essas questões.‭ ‬Daí que‭ ‬a formação cristã não seja um luxo,‭ ‬mas uma necessidade:‭ ‬é preciso ter luz,‭ ‬para poder caminhar na luz‭ (‬cf.‭ ‬1‭ ‬Jo‭ ‬1,‭ ‬7‭)‬.‭

Caminhando à luz da fé

É necessária a‭ ‬formação cristã,‭ ‬porque precisamos de idéias claras e respostas claras para cada situação e cada problema.‭ ‬Não só precisamos da formação intelectual‭ – ‬ou seja,‭ ‬do conhecimento da doutrina de que falávamos antes‭ –‬,‭ ‬mas da formação prática,‭ ‬da aplicação da doutrina à vida.‭ ‬Não podemos ser‭ – ‬para usar uma imagem de‭ ‬São Josemaria Escrivá‭ – ‬como os que‭ “‬passam pela vida como por um túnel,‭ ‬e não compreendem o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé‭”‬ (Caminho,‭ ‬n.‭ ‬575‭)‬.‭ ‬Têm fé teórica,‭ ‬têm algumas idéias religiosas,‭ ‬mas essas permanecem tão fora da vida como os raios do sol estão fora do túnel.

Em cada dia há muitas ocasiões de ver e de seguir a luz de Cristo‭ – ‬aquele que me segue não andará nas trevas‭ – ‬ou de perder-nos dentro de um túnel.

Basta que imaginemos uma jornada qualquer da nossa vida,‭ ‬com muitas situações rotineiras e alguns fatos inesperados.‭ ‬Cristo está ao nosso lado,‭ ‬desde que acordamos‭; ‬e começam a aparecer as circunstâncias em que nos pede que vivamos a coerência cristã:

‎* ‏Perante a ira provocada pela indelicadeza de um irmão,‭ ‬lá em casa,‭ ‬quando pegávamos a mochila para ir à escola,‭ ‬Cristo lança um raio de luz clara:‭ “‬Perdoe-o,‭ ‬não se canse de perdoar,‭ ‬assim como eu não me canso de perdoar você‭” (‬cf.‭ ‬Mt‭ ‬18,‭ ‬21-22‭)‬.

‎* ‏Chegamos à escola,‭ ‬e damos de cara com o colega ou a colega de quem menos gostamos‭; ‬não simpatizamos com ele ou com ela nem um pouquinho,‭ ‬e julgamos ter motivos para isso.‭ ‬A luz da fé aquece o nosso coração,‭ ‬e é como se a voz de Cristo sussurrasse:‭ “‬Você sabe que deve esforçar-se por‭ ‬amar o seu próximo como a si mesmo,‭ ‬ainda que não seja seu amigo,‭ ‬mesmo que seja seu inimigo,‭ ‬mesmo que se tenha comportado mal com você‭” (‬cf.‭ ‬Lc‭ ‬10,‭ ‬27‭; ‬Mt‭ ‬5,‭ ‬44‭)‬.

‎* ‏Ao sair para ir à lanchonete,‭ ‬num intervalo,‭ ‬o rapaz é abordado por uma colega,‭ ‬conhecida por ser uma menina‭ “‬liberada‭” (‬outros dão-lhe um nome dife-rente‭)‬,‭ ‬que lhe sugere verem depois,‭ ‬voltando da escola,‭ ‬pornografias novas na Internet,‭ ‬e,‭ ‬de passagem,‭ ‬programarem para domingo uma‭ ‬plano indecente.‭ ‬Logo a luz brilhante da fé e o amor ao seu compromisso cristão lembram ao rapaz:‭ “‬Você bem sabe‭ – ‬e você vibra de alegria ao pensar nisso‭ – ‬que o seu corpo é templo de Deus,‭ ‬que o corpo não é para a impureza,‭ ‬mas para o Senhor,‭ ‬para os amores nobres e limpos que desabrocham no grande ideal cristão do Matrimônio e da família.‭ ‬Não profane nem o seu corpo nem o seu amor‭” (‬cf.‭ ‬Mt‭ ‬5,‭ ‬27-28‭; ‬1‭ ‬Cor‭ ‬6,‭ ‬15-20‭)‬.

‎* ‏Chegamos a casa,‭ ‬no fim das aulas,‭ ‬e a preguiça formiga no corpo todo.‭ ‬Que vontade de tirar uma soneca ou,‭ ‬pelo menos,‭ ‬de deitar-se na cama,‭ ‬embalados‭ – ‬ou eletrizados‭ – ‬pelo som de um CD‭! ‬O estudo…,‭ ‬bem,‭ ‬o estudo…,‭ ‬que espere…‭ ‬Pois também aí a fé bem formada nos faz chegar um raio de luz,‭ ‬e sentimos que o próprio Cristo nos recorda que amor e dever estão muito ligados,‭ ‬ao mesmo tempo que nos anima a ser generosos,‭ ‬a oferecer-lhe com carinho o trabalho feito com a maior perfeição possível e a carregar com garbo,‭ ‬com um sorriso,‭ ‬a nossa cruz de cada dia‭ (‬cf.‭ ‬Mt‭ ‬16,‭ ‬24-25‭)‬.

‎* ‏Pronto.‭ ‬Já estudamos durante duas horas e meia‭ (‬com distrações e vários‭ “‬passeios da preguiça‭” ‬pelo apartamento,‭ ‬certamente‭; ‬mas,‭ ‬enfim,‭ ‬estudamos‭)‬.‭ ‬Agora,‭ ‬sim,‭ ‬é a hora de submergir na televisão e desligar de tudo o mais.‭ ‬Mas o coração sabe que há uma ajuda a prestar ao pai,‭ ‬à mãe,‭ ‬a um irmão que anda fraco nos estudos.‭ ‬O egoísmo range e reclama…‭ ‬Mas o bom coração sente remorsos…‭ ‬E então Cristo nos ajuda a lembrar-nos de que‭ ‬servir e dar a vida pelos outros,‭ ‬como Ele fez por nós,‭ ‬é um maravilhoso ideal que a fé acendeu na nossa alma‭ (‬cf.‭ ‬Mt‭ ‬20,‭ ‬25-28‭; ‬Jo‭ ‬13,‭ ‬12-17‭)‬…

Situações comuns,‭ ‬no dia vulgar de um estudante.‭ ‬Certamente,‭ ‬a fé é uma luz clara para essas situações corriqueiras‭; ‬e,‭ ‬do mesmo modo,‭ ‬também virá a ser uma luz clara para as novas situações comuns‭ – ‬um pouco mais complexas‭ –‬,‭ ‬que surgirem no futuro,‭ ‬quando,‭ ‬já adultos,‭ ‬tivermos que assumir as grandes responsabilidades da vida.‭ ‬E igualmente a fé será luz,‭ ‬a grande luz que esclarece,‭ ‬fortalece e consola,‭ ‬quando vierem‭ – ‬sempre vêm algumas‭ – ‬as situações incomuns,‭ ‬as circunstâncias difíceis em que batem à porta o sofrimento,‭ ‬a incompreensão,‭ ‬a injustiça,‭ ‬a doença e a morte.‭ ‬Só a fé bem vivida nos tornará capazes de lhes dar sentido e de manter-nos na paz.

A experiência indica que,‭ ‬conforme seja a força da fé com que encaramos as circunstâncias normais do dia-a-dia,‭ ‬assim será a fé com que saberemos encarar‭ – ‬quando for o caso‭ – ‬as grandes lutas,‭ ‬os grandes empreendimentos,‭ ‬os grandes desafios.

Fé autêntica e formação,‭ ‬como vemos,‭ ‬são inseparáveis.‭ ‬Pois só a formação cristã séria,‭ ‬progressiva,‭ ‬constante,‭ ‬pode dar-nos condições de viver coerentemente com a nossa fé.

Dizíamos há pouco que a formação não é um luxo.‭ ‬Vale a pena frisá-lo de novo,‭ ‬e incentivar‭ – ‬quando já estamos chegando ao final destas páginas‭ – ‬a Mônica,‭ ‬o Eduardo e tantos outros rapazes e moças,‭ ‬a decidir-se,‭ ‬neste momento privilegiado da vida que é a juventude,‭ ‬a levar a sério a sua formação cristã:‭ ‬estudando a fundo a doutrina católica,‭ ‬lendo e meditando a Sagrada Escritura e bons livros de formação e espiritualidade,‭ ‬consultando as suas dúvidas e incertezas com quem os possa ajudar,‭ ‬procurando uma direção espiritual pessoal que os auxilie,‭ ‬para verem onde precisam lutar,‭ ‬como deveriam rezar,‭ ‬o que deveriam corrigir,‭ ‬onde lhes faz falta melhorar,‭ ‬como poderiam dar-se mais aos outros,‭ ‬que virtude está sendo mais necessária,‭ ‬que qualidade é preciso desenvolver…‭; ‬e que,‭ ‬ao mesmo tempo,‭ ‬os oriente sobre os meios necessários‭ (‬Sacramentos,‭ ‬oração,‭ ‬sacrifícios,‭ ‬planos espirituais,‭ ‬obras de caridade,‭ ‬etc.‭) ‬para lutar e vencer de maneira eficaz,‭ ‬secundando a ação do Espírito Santo na alma.

Formação‭! “‬Durante a vida inteira‭ – ‬dizia Gregorio Marañón‭ –‬,‭ ‬nós seremos o que formos capazes de ser desde jovens‭”‬ (Ensayos liberales,‭ ‬6a.‭ ‬ed.,‭ ‬Austral,‭ ‬Madrid,‭ ‬1966,‭ ‬pág.‭ ‬79‭)‬.

Sim,‭ ‬a vida inteira vai depender da autenticidade do ideal humano e cristão que formos capazes de procurar,‭ ‬assumir e seguir na juventude.‭ ‬A vida inteira dependerá do que formos capazes de fazer com a nossa liberdade,‭ ‬esse navio aberto a toda a rosa dos ventos,‭ ‬que agora‭ – ‬na juventude‭ – ‬está à espera de uma bússola e de um Norte.‭ ‬A vida inteira dependerá da coragem sincera com que formos capazes agora de procurar a luz da fé,‭ ‬e de segui-la,‭ ‬uma vez encontrada.‭ ‬A nossa vida inteira dependerá disso tudo…,‭ ‬e disso também dependerão muitas outras vidas,‭ ‬que os dias,‭ ‬os meses e os anos irão ligando à nossa.

Vel a pena terminar esta nossa meditação recordando‭ ‬umas palavras muito sugestivas de João Paulo II.‭ ‬São declarações do Papa ao jornal francês‭ ‬La Croix,‭ ‬de‭ ‬20.08.1997,‭ ‬logo depois de ter participado,‭ ‬em Paris,‭ ‬das XII Jornadas Mundiais da Juventude:

‎“‏Os jovens trazem consigo um ideal de vida‭; ‬têm sede de felicidade.‭ ‬Pela sua atuação e pelo seu entusiasmo,‭ ‬os jovens lembram-nos que a vida não pode ser simplesmente uma procura de riqueza,‭ ‬de bem-estar,‭ ‬de honrarias.‭ ‬Eles nos revelam uma aspiração mais profunda,‭ ‬que todo homem carrega dentro de si,‭ ‬um desejo de vida interior e de encontro com o Senhor,‭ ‬que bate à porta do nosso coração para nos dar a sua vida e o seu amor.‭ ‬Somente Deus pode preencher o desejo do homem.‭ ‬Só nEle é que os valores fundamentais encontram a sua origem e o seu sentido último.‭ ‬Nem todas as opções valem a mesma coisa,‭ ‬ainda que,‭ ‬segundo a mentalidade dominante,‭ «‬tudo seja válido‭»‬,‭ ‬independentemente do sentido moral dos atos.‭ ‬Os jovens são arrastados às vezes nessa confusão,‭ ‬mas sabem reagir‭; ‬não cessam de dizer-nos que esperam de nós,‭ ‬os adultos,‭ ‬uma vida reta e bela‭”‬.

E que espera o Papa dos jovens‭? – ‬perguntava o jornal.‭ “‬Espero deles que mobilizem a sua generosidade,‭ ‬a sua inteligência e a sua energia para tornarem o mundo mais acolhedor para todos‭; ‬que se ponham a serviço da felicidade e da dignidade dos seus irmãos e irmãs‭; ‬que saibam que dar-se aos outros será para eles o modo de alcançarem o seu pleno desenvolvimento.‭ ‬Espero dos jovens cristãos que descubram cada vez mais‭ «‬a largura,‭ ‬e a longitude,‭ ‬a altura e a profundidade‭» ‬do mistério de Cristo‭ (‬Ef‭ ‬3,‭ ‬18‭) ‬e a beleza da sua condição de filhos de Deus‭; ‬que desempenhem plenamente o seu papel ativo e responsável na Igreja e na sociedade‭; ‬que sejam testemunhas convincentes do Amor com que Deus nos ama,‭ ‬fazendo eles próprios da sua vida um dom‭”‬.

‎(‏Adaptação de um trecho do livro de F.‭ ‬Faus:‭ ‬Autenticidade‭ & ‬Cia‭)