Castidade

Todos chamados ao verdadeiro amor

«Chamados ao verdadeiro amor. O ser humano, enquanto imagem de Deus, é criado para amar. Esta verdade foi-nos revelada plenamente no Novo Testamento, juntamente com o mistério da vida intratrinitária: “Deus é amor (1 Jo 4,8) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor [o Pai ama o Filho e o Filho o Pai,  e o Amor que deles procede e os une é o Espírito Santo,  Amor substancial de Deus]. Criando-a à sua imagem, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano. Assim se expressa, no n.8, um importante documento do Conselho pontifício para a família, de 8/12/1995: «Sexualidade humana: verdade e significado» (que inclui uma citação da Exortação apostólica «Familiaris consortio», de João Paulo II, n. 11)).

«A pessoa é, portanto  – continua o citado documento, no n. 9 -, capaz de um tipo de amor superior: não o amor de concupiscência, que vê só objetos com que satisfazer os próprios apetites, mas o amor de amizade e oblatividade, capaz de reconhecer e amar as pessoas por si mesmas. É um amor capaz de generosidade, à semelhança do amor de Deus; quer-se bem ao outro porque se reconhece que é digno de ser amado. É um amor que gera a comunhão entre as pessoas, visto que cada um considera o bem do outro como próprio. É um dom de si feito àquele que se ama […]. Cada ser humano é chamado ao amor de amizade e oblatividade; e é libertado da tendência ao egoísmo pelo amor de outros […], definitivamente por Deus [pelo amor de Deus], de quem procede todo o amor verdadeiro e em cujo amor somente a pessoa humana descobre até que ponto é amada».

Entende-se, assim, que São Paulo resumisse a vida cristã dizendo: «Sede imitadores de Deus, como filhos muito amados. Vivei no amor, a exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor» (Ef 5,1-2). O modelo de todo amor cristão (do amor a Deus, do amor dos esposos, do amor entre pais e filhos, do amor sincero entre amigos) é a entrega de Cristo, é a figura de Jesus com o Coração trespassado na Cruz, que Bento XVI não se cansa de propor como imagem perfeita do amor cristão (cf. Encíclica «Deus caritas est», n. 12).

Este amor-doação, que faz viver em função dos outros, tem duas dimensões primordiais, vocacionais, na vida dos cristãos:

1ª. A vocação para a entrega total da pessoa, alma e corpo, na castidade perfeita, no celibato por amor a Deus; e também como disponibilidade plena para o serviço do próximo (celibato apostólico). Jesus, após falar de que o matrimônio é indissolúvel, dirigiu-se aos discípulos, que, por motivos egoístas, comentavam que «se a situação do homem com a mulher é assim, é melhor não casar-se», e disse-lhes, com expressão gráfica: «Nem todos são capazes de entender isso, mas só aqueles a quem é concedido. De fato, existem homens impossibilitados de casar-se, porque nasceram assim; outros ainda, por causa do Reino dos Céus, se fizeram incapazes do casamento. Quem puder entender, que entenda» (Mt 19,10-12).

Também São Paulo, seguindo os ensinamentos de Cristo, escreve: «O homem não-casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar o Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, e procura agradar à sua mulher. E, assim, está dividido […]. Do mesmo modo, a mulher não-casada, a virgem, preocupa-se com as coisas do Senhor e procura ser santa de corpo e espírito. Mas a que é casada preocupa-se com as coisas do mundo e  procura agradar ao seu marido. Digo isto para o vosso próprio bem e não para vos armar um laço. O que eu desejo é levar-vos ao que é melhor e à dedicação integral ao Senhor, sem outras preocupações» (1 Cor 7,32-35).

2ª. A vocação de entrega de amor no matrimônio, que tem como modelo  a entrega de Cristo à sua Igreja (“esposa de Cristo”): «Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela […]. Este mistério é grande – eu digo isso em referência a Cristo e à Igreja» (Ef 5,25.32).

«As pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal», lembra o «Catecismo da Igreja» (n. 2349). E o documento «Sexualidade humana: verdade e significado», n. 20, comenta que os casados devem «estar conscientes de que no seu amor está presente o amor de Deus e, por isso, também a sua doação sexual deverá ser vivida no respeito de Deus e do Seu desígnio de amor, com fidelidade, honra e generosidade para com o cônjuge e para com a vida que pode surgir do seu gesto de amor. Só dessa maneira ela se pode tornar expressão da caridade».

«Quando tal amor [cristão] se realiza no matrimônio – diz ainda o documento sobre a sexualidade humana (nn. 11 ss.) -, o dom de si exprime, por intermédio do corpo, a complementaridade e a totalidade do dom; o amor conjugal torna-se, então, força que enriquece e faz crescer as pessoas e, ao mesmo tempo, contribui para alimentar a civilização do amor; quando, pelo contrário, falta o sentido e o significado do dom na sexualidade, acontece uma civilização das «coisas» e não das «pessoas»; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas. No contexto da civilização do desfrute, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais».

«É, sem dúvida – acrescenta -, um amor exigente. Mas nisto mesmo está a sua beleza: no fato de ser exigente, porque deste modo constrói o verdadeiro bem do homem e irradia-o também sobre os outros».

Amor grande e exigente

Este desígnio divino sobre o homem – criatura espiritual e corporal, criada à imagem e semelhança de Deus, elevada à condição de filho de Deus, membro do Corpo de Cristo e templo do Espírito Santo -, essa vocação primordial e essencial para o Amor, dá à sexualidade humana, em todas as situações (virgindade, celibato, casamento) uma dimensão infinitamente mais elevada e qualitativamente diferente, essencialmente diferente, do sexo puramente biológico e instintivo dos animais.

A virtude que caracteriza esse modo cristão de viver a sexualidade é a castidade. E, sendo uma virtude, deve tender, por definição – como todas as virtudes -, ao fim da vocação do cristão: a santidade.

Esse ideal de santidade é expresso, com vigor e clareza, numa das homilias de São Josemaria Escrivá: « “Esta é a vontade de Deus, a vossa santificação… Que cada um saiba usar o seu corpo santa e honestamente, não se abandonando às paixões, como fazem os pagãos, que não conhecem a Deus” (1 Tes 4, 3-5). Pertencemos totalmente a Deus, de alma e corpo, com a carne e com os ossos, com os sentidos e com as potências. Rogai-lhe com confiança: Jesus, guarda o nosso coração! Um coração grande, forte e terno e afetuoso e delicado, transbordante de caridade para contigo, a fim de servirmos a todas as almas».

«O nosso corpo – continua a dizer -é santo, templo de Deus, precisa São Paulo. Esta exclamação do Apóstolo traz-me à memória a chamada universal à santidade que o Mestre dirige aos homens: Estote vos perfecti sicut et Pater vester caelestis perfectus est (Mt 5,48). O Senhor pede a todos, sem discriminações de nenhum gênero, correspondência à graça; exige de cada um, conforme a sua situação pessoal, a prática de virtudes próprias dos filhos de Deus». (Amigos de Deus, n. 177).

Não podemos esquecer, porém, que o ser humano carrega consigo as inclinações egoístas procedentes da desordem do pecado (original e pessoal), e que experimenta em si mesmo inclinações contraditórias, de modo que se trava uma luta «entre a carne e o espírito»(Gal 5,16-17), «entre o homem velho e o homem novo» (Ef 4,22-24). É por isso que a castidade só se pode viver, de acordo com o plano de Deus, com o auxílio da graça e com o esforço pessoal da luta ascética, especialmente com o exercício da virtude da temperança (do autodomínio). Por isso, o documento sobre a sexualidade, que acima citamos, indica: «Tudo isto exige o autodomínio, condição necessária para se ser capaz do dom de si. As crianças e os jovens [e os adultos] devem ser encorajados a estimar e praticar o autocontrole e a renúncia, a viver de modo ordenado, a fazer sacrifícios pessoais, em espírito de amor de Deus, de auto-respeito e de generosidade para com os outros, sem sufocar os sentimentos e as tendências, mas canalizando-os numa vida virtuosa” (n. 58).

Neste mesmo sentido, o«Catecismo da Igreja Católica» recorda que «a castidade supõe uma aprendizagem do domínio de si, que é uma pedagogia da liberdade humana. A alternativa é clara: ou o homem comanda as suas paixões e alcança a paz, ou se deixa comandar por elas e torna-se infeliz» (n. 2339).

«Para alguns, que se encontram em ambientes em que se ofende e se deprecia a castidade – acrescenta ainda o documento “Sexualidade humana: verdade e significado” (n. 19) -, viver de modo casto pode exigir uma luta dura, às vezes heróica. De qualquer maneira, com a graça de Cristo, que brota do seu amor esponsal pela Igreja, todos podem viver castamente mesmo que se encontrem em ambientes pouco favoráveis».

A castidade é um ideal, uma virtude que deve ser conquistada

Já os primeiros cristãos, que tiveram que viver num mundo tremendamente afetado pela corrupção dos costumes, praticavam a virtude da castidade de um modo inédito, que admirava e chocava os pagãos, acostumados a toda a sorte de devassidões. Alguns cristãos inclusive, em épocas de perseguição, foram denunciados como tais e levados aos tribunais pagãos precisamente porque eram castos: só isso já constituía um cartão de identidade. Para o pagão de então, que tinha no prazer material o máximo ideal de felicidade, a luta pela castidade era inconcebível, e a prática da castidade era julgada impossível. O “pagão” atual pensa da mesma forma.

É preciso, por isso, que os cristãos nos compenetremos da convicção de que a castidade, apesar da incompreensão quase absoluta da maioria,  é um  ideal grande, é uma meta necessária para a realização “humana” e cristã, é uma conquista possível e acessível. Não “nasce”, porém, sozinha: como toda virtude humana, como toda qualidade moral habitual, tem que ser adquirida; como as outras virtudes morais do cristão, deve forjar-se – no cadinho onde se fundem a graça de Deus e o esforço pessoal – mediante a oração e luta por ordenar as paixões de acordo com a reta razão e a fé. Mas essa luta é impossível sem a mortificação.

Em suma, a castidade é, simultaneamente, um dom que é preciso pedir a Deus (cf. S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 118), e uma virtude que deve se conquistar, aperfeiçoar e crescer (cf. Id.,  Forja, n. 91), mediante o esforço generoso da nossa correspondência à graça.

«Com o espírito de Deus – diz São Josemaria -, a castidade não se torna um peso aborrecido e humilhante. É uma “afirmação jubilosa”: o querer, o domínio de si, o vencimento próprio, não é a carne que o dá nem procede do instinto; procede da vontade, sobretudo se está unida à Vontade do Senhor. Para sermos castos – e não somente continentes ou honestos -, temos que submeter as paixões à razão, mas por um motivo alto, por um impulso de Amor».

«Comparo esta virtude a umas asas que nos permitem propagar os preceitos, a doutrina de Deus, por todos os ambientes da terra, sem temor a ficarmos enlameados. As asas – mesmo as dessas aves majestosas que sobem mais alto que as nuvens – pesam, e muito. Mas se faltassem, não haveria vôo. Gravai-o na vossa cabeça, decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como uma carga insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor» (Amigos de Deus, n. 177).

O ideal do cristão não se contenta só com amar e praticar pessoalmente a castidade, mas sente a necessidade, a missão – especialmente num mundo que cada vez mais afunda no niilismo sem sentido e no hedonismo egoísta – de empenhar-se numa «cruzada de virilidade e de pureza que enfrente e anule o trabalho selvagem daqueles que pensam que o homem é uma besta» (Caminho 121).

É interessante, neste ponto, lembrar um comentário de Santo Tomas de Aquino, que hoje é de uma atualidade plena. Diz o santo doutor, na Suma Teológica (II-II, q.142, a. 2 e 3) que a maior parte dos pecados se cometem não porque o homem seja levado a eles pelas suas inclinações naturais, mas pelo escândalo [maus exemplos, espetáculos, etc.], que provoca uma super-excitação artificial das paixões. Daí também a necessidade de unir, ao amor, a luta ascética, também com caráter profilático: o esforço por evitar colocar-se voluntariamente nas ocasiões de pecado, na fogueira da tentação.

A aquisição e cultivo da virtude da castidade

No mundo atual, fortemente erotizado, é evidente que a sadia mortificação se torna mais necessária do que em épocas do passado recente. Por toda a parte – gente mal-vestida na rua, outdoors, espetáculos, jornais, revistas, livros, Internet – há uma agressão contínua à castidade, uma estimulação artificial e massiva da fisiologia, da simples genitalidade animal, sem o menor contexto de grandeza e amor. Sexo pelo sexo. Sexo como consumo e prazer.

O papel da mortificação, nesta batalha do cristão (e de qualquer ser humano honesto), é mais do que nunca um “não” sereno e corajoso a esses incentivos artificiais, absolutamente necessário para poder dizer “sim” à beleza, à grandeza e à dignidade do amor; à grandeza, em suma, da alma e do corpo dos filhos de Deus. Por isso, da mesma forma que devemos dizer um “não” rotundo à droga, para poder dizer um “sim” à vida e à preservação da saúde física e psíquica, temos que saber dizer o mesmo “não” a esses estímulos degradantes, para sermos capazes de dizer “sim” ao amor, e à beleza da sexualidade própria de um filho de Deus, em que o amor de Deus, a alma e o corpo se integram numa harmonia equilibrada e perfeita.

Daí a necessidade desse autocontrole que a Igreja nos aconselha como meio necessário  – contando sempre com a força dos Sacramentos e da oração  – para manter, como diria São Josemaria Escrivá, «a juventude do amor em qualquer estado de vida» (É Cristo que passa, n. 25). De fato, é maravilhoso constatar que não há amor mais jovem, mais feliz e mais bonito que o dos casais que vêem o matrimônio e a família como uma vocação divina para a santidade- «sacramento grande», diz São Paulo (Ef 5,32) – e uma missão na sociedade; e o dos homens e mulheres que decidem entregar a vida inteira, por amor, ao serviço de Cristo e dos outros, oferecendo a Deus com alegria a renúncia ao sexo, no estado de celibato voluntariamente assumido.

«E agora eu te pergunto – diz São Josemaria -: como é que enfrentas esta peleja? Bem sabes que a luta, se a manténs desde o princípio, já está vencida. Afasta-te imediatamente do perigo, logo que percebas as primeiras chispas da paixão, e mesmo antes. Fala, além disso, imediatamente com quem dirige a tua alma; melhor antes, se for possível, porque, se abrimos o coração de par em par, não seremos derrotados. Um ato e outro formam um hábito, uma inclinação, uma facilidade. Por isso é necessário batalhar para alcançar o hábito da virtude, o ato da mortificação , para não repelir o Amor dos amores» (Amigos de Deus, n. 182) .

Nesta “batalha” santa, em primeiro lugar é importante a mortificação da gula. O autodomínio no comer e no beber ajuda-nos, mais do que imaginamos, a manter o equilíbrio alegre e sadio da castidade. «Tenho para mim – afirmava o abade João Cassiano  (século V) –  que não poderemos jamais reprimir o aguilhão da carne, se antes não conseguirmos refrear os desejos da gula».

Ao mesmo tempo, faz-nos falta cuidar delicadamente da mortificação dos olhos, janelas abertas ao mundo e receptores principais da chuva constante de incentivos eróticos que, infelizmente, há por toda a parte. Quem se estima a si mesmo, como víamos antes, sabe dizer “não” (“não estou disposto a olhar tudo pela rua, nem a comprar revistas pornográficas, nem a fuçar em programas noturnos na tv, nem a alugar fitas eróticas, nem a pesquisar no lixo sexual da Internet”); e diz esse “não” – insisto – porque está decidido a dizer “sim” a um ideal de amor muito maior do que o prazer carnal egoísta e descomprometido que faz o homem descer abaixo do nível dos bichos (que, diga-se de passagem, são em geral bem mais “castos” do que os homens,).

Que outras armas vamos empregar para alcançar a pureza cristã? Recorda-as também São Josemaría (cf. Amigos de Deus, n. 185): «Cuidai da castidade com esmero, e também dessas outras virtudes que formam o seu cortejo – a modéstia e o pudor -, que vêm a ser como que a sua salvaguarda. Não passeis com ligeireza por cima dessas normas que são tão eficazes para nos conservarmos dignos do olhar de Deus: a guarda atenta dos sentidos e do coração; a valentia – a valentia de ser covarde – para fugir das ocasiões…»:

Comecemos pela «”valentia” de ser covarde, para fugir das ocasiões», que já antes mencionávamos. Na maior parte dos casos, este é o grande segredo para não ter que repetir, de modo triste e insincero, aquela velha desculpa de que “a carne é fraca” e eu não consigo me segurar. Fugir das “ocasiões” é evitar os lugares (um apartamento vazio, certas boates, bares e danceterias, etc.),  as situações (um carro estacionado em lugar isolado) e as pessoas que facilmente nos podem arrastar para a simples explosão genital (p.e., certos reveillons e carnavais comemorados em hotéis ou clubes, em que a promiscuidade de rapazes e moças – de mistura com álcool, drogas e dança quase orgiástica – é convite quase inesquivável a cair nos maiores abusos sexuais).

Depois, lembremos «a guarda atenta dos sentidos e do coração». Em primeiro lugar, da vista, da curiosidade mórbida, por vezes quase que obsessiva e compulsiva; depois, poderíamos recordar a importância de guardar também o ouvido, pequeno bueiro onde são despejadas constantemente gracinhas sujas; e o tato, para não cair em familiaridades e manifestações de afeto pegajosas, bastante “suspeitas”, especialmente com pessoas do outro sexo, que muita vez equivalem a catar sorrateiramente migalhas de sensualidade, enquanto se finge ser amável e cordial; e ainda o controle, importantíssimo, dos chamados “sentidos internos”, a imaginação e a memória.

Reconheçamos que noventa por cento dos desvarios sexuais procedem do descontrole destes dois sentidos internos. Deixar a imaginação à solta – alimentada muitas vezes pelas recordações de pecados cometidos, de conversas, ou por filmes, por leituras, por imagens visuais procuradas nas revistas, na Internet ou na tv – é a mesma coisa que escancarar as janelas da alma a uma série de tentações, constantes e progressivas, que entram como uma revoada de cupins; é a mesma coisa que acender um caldeirão de aprendiz de bruxo, de onde podem sair todas as torpezas, abusos e anomalias. Quem é dono da imaginação, tem noventa por cento ganho para ser, com fortaleza, dono e senhor dos seus impulsos sexuais e dos seus sentimentos e, portanto, do seu amor. Este autodomínio do pensamento é a chamada “mortificação interior”, tanto ou mais importante para o senhorio da vontade como a “mortificação dos sentidos”.

Finalmente, temos de repisar a importância primordial dos meios sobrenaturais, que exigem a concretização de propósitos e esforços perseverantes: «O trato assíduo com o Senhor através da Eucaristia […]. A freqüência dos sacramentos, de modo particular [além da Eucaristia] a Confissão sacramental; a sinceridade plena na direção espiritual pessoal; a dor, a contrição, a reparação depois das faltas, e tudo ungido com uma terna devoção a Nossa Senhora, para que Ela nos obtenha de Deus o dom de uma vida santa e limpa» (São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, cf. nn. 185 e 186).

Vivendo assim, confirmaremos com a nossa vida e saborearemos com alegria a verdade destas palavras de São Josemaria Escrivá: «A castidade – a de cada um no seu estado: solteiro, casado, viúvo, sacerdote – é uma triunfante afirmação do Amor» (Sulco, n. 831).

N.B. Boa parte desta palestra recolhe textos literais e idéias do livro de F. Faus «Autodomínio: elogio da temperança», pp. 72 a 83.

Pe. Francisco Faus