Condições da oração: II-Sinceridade

Condições da oração: II- Sinceridade

Em outra reflexão (“Condições da oração: I – Recolhimento”), meditávamos sobre a necessidade de conseguirmos condições favoráveis, externas e internas, para poder fazer uma boa oração.

Já vimos como é imprescindível o recolhimento exterior (local e ambiente propício para orar) e o recolhimento interior (acalmar e ordenar o barulho íntimo, a agitação dos pensamentos, os sentimentos confusos, os medos, recordações, etc.).

Mencionávamos também, ainda que só de passagem, uma outra condição: para orar, é preciso ter sinceridade, a coragem de enfrentar a verdade no íntimo do coração. Vamos refletir agora um pouco sobre isso.

É interessante verificar que o primeiro conselho de Cristo sobre a oração que se encontra no Evangelho, fala de sinceridade: «Quando orardes – diz Jesus -, não façais como os hipócritas» (Mt 6,5).

Que fazem os “hipócritas”? Vamos recordar o que Jesus nos fala deles, e – ao vermos as máscaras que Cristo lhes tira – enxergaremos melhor a sinceridade que nos pede.

A) Primeira máscara: No meio da parábola do semeador, nosso Senhor faz uma citação do profeta Isaías: “O coração deste povo se endureceu: taparam seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare” (Mt 13,15).

Como são claras essas palavras! O segredo está no final da frase: não querem se “converter”, ou seja, não estão dispostos a aceitar a graça de Deus, que os curaria dos seus erros e pecados, e os levaria a mudar. Isso faz com que seu coração se “endureça”; e essa dureza de coração se manifesta na má vontade, que leva a não querer ouvir nem ver (“tapar os ouvidos e fechar os olhos”).

Que Deus nos livre dessa dureza de coração! Mas…, será que não temos um pouco disso? Às vezes, custa-nos abrir o coração com plena sinceridade diante de Deus, expor sem medo a nossa vida à luz das exigências do Evangelho, dispor-nos a acolher os conselhos do de um confessor…, simplesmente porque não queremos mudar. O coração deixou de ser manso e flexível, e ganhou a dureza da pedra. Ora, agir assim é a mesma coisa que expulsar Deus da alma; é como que dizer-lhe: “Não me toques, não mexas comigo, não me perturbes, fica longe de mim!”.

Como é bela a sinceridade da alma que, quando vai orar, abre de par em par o coração, disposta a aceitar todas as luzes, inspirações e exigências que Deus lhe quiser manifestar. Só ora bem uma alma aberta e transparente, uma alma corajosa, disposta a mudar.

B) Segunda máscara: a do fariseu (Lc 18, 9-14). Sobe ao templo, e ora no seu interior desta forma: “Graças te dou, ó Deus, que não sou como os outros homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros”. É a máscara do orgulho, do convencimento, da falsa bondade. Aparentando piedade, o fariseu, na realidade, se defende. Ele, no fundo, diz a Deus: “Veja, Deus, eu sou bom: não tenho pecado. Não falho nas minhas obrigações religiosas, e não me misturo com pecadores como esse coitado aí… Portanto, estamos quites, o Senhor não tem nada a reclamar de mim, pode me deixar em paz”.

Nunca conheceu cristãos assim? Dizem: “Não faço pecados, não preciso me confessar; eu cumpro as minhas obrigações; vou à Missa sempre que posso”. Com essa mentalidade, é impossível falar com Deus e ouvi-lo. “O orgulho cega tremendamente”, dizia São Josemaria Escrivá. Cuidado! Porque esse orgulho que nos leva a justificar-nos, vai nos congelando, petrificando no erro, no mal, na mediocridade. Quando vê esse coração endurecido, é natural que o Espírito Santo nos recorde o que Jesus comentava acerca do fariseu: «Não saiu do templo – da oração -justificado». Por que? Porque «Deus resiste aos soberbos e só dá a sua graça aos humildes» (Ver 1 Pedr 5,5).

Entende-se assim o que diz o “Catecismo da Igreja Católica”: “O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração…” (n. 2631), e que ciete como exemplo a oração do publicano, ouvida por Deus com carinho: “Tem piedade de mim, pecador” (Lc 18,13).

Terceira máscara: Essa máscara é também Jesus quem a arranca da alma de alguns hipócritas, quando diz: «Nem todo aquele que me diz “Senhor, Senhor!”, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus» (Mt 7,21).

Glosando estas palavras, São Josemaria Escrivá falava da “oração dos filhos de Deus”, que é o oposto ao palavreado dos hipócritas, e pedia: «Que o nosso clamar – “Senhor!” – se una ao desejo eficaz de converter em realidade essas moções interiores que o Espírito Santo desperta na alma».

A oração do egoísta sentimental, que gosta de rezar, que chora ao cantar na Igreja, que se emociona com um bom sermão…, mas que não procura entender nem realizar a Vontade de Deus, é a “oração dos hipócritas”, que têm duas vidas separadas: a vida “espiritual” e a vida prática, real. Se Deus quiser, em outras ocasiões meditaremos sobre a união entre a oração e o cumprimento da Vontade de Deus na vida, no dia-a-dia

Quarta máscara: É a que nos mostra, com palavras brevíssimas, esta frase de Cristo: «Quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também o vosso Pai que está nos céus vos perdoe os vossos pecados”.

Se o pedido de perdão – como acabamos de lembrar – é “o primeiro movimento da oração”, com que sinceridade pode falar com Deus aquele que pede perdão, mas não perdoa. Poucas coisas existem que sujem tanto a alma como o ressentimento. É uma barricada entre o Deus do amor e da misericórdia e o pecador que somos nós. É lógico que, entre interlocutores tão díspares, não possa haver diálogo.