Como meditar o Evangelho – I

Beber das fontes de Cristo

Um dia em que Jesus se encontrava em Jerusalém, participando da grande festa dos Tabernáculos, «estando de pé, exclamou: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim…, do seu interior jorrarão rios de água viva”» (Jo 7, 37-38).

São palavras que lembram uma antiga profecia de Isaías: «tirareis água com alegria das fontes da salvação» (Is 12,3).

O próprio Cristo explica que essas “águas” significam o Espírito Santo «que haviam de receber os que cressem nele» (Jo 7,39). O Espírito Santo, que inundava a alma de Cristo, é a luz, o amor, a força divina que Cristo envia aos corações dos fiéis.

Há muitas fontes de «água viva» (Jo 4,10), que brotam da Redenção realizada por Jesus: os sete Sacramentos, a oração cristã, a união com Deus pelos atos de amor, de caridade … Hoje, na nossa reflexão, vamos fixar o olhar apenas numa delas: a meditação do Santo Evangelho, a “lectio divina”.

As quatro fontes

Você conhece bem o rio de águas vivas que é o Evangelho? É um único rio formado por quatro fontes: os Evangelhos escritos por São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. Encontra-os facilmente em qualquer boa edição da Bíblia completa, ou do Novo Testamento, que é a parte cristã da Bíblia.

E que águas vivas encontramos nos Evangelhos? Eles narram – de modo simples e vivo – a vida de Jesus, o Filho de Deus, e nos transmitem a riqueza inesgotável das suas palavras, dos seus ensinamentos (ver Jo 21,25).

Os apóstolos chamavam “mestre” (“rabi”) a Jesus, mas ele não é mais um mestre, nem apenas um grande mestre, nem tão só o maior mestre humano. Jesus é Deus, é o Verbo, o Filho, quer dizer, é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, que se fez homem no seio da Virgem Maria. Lembremos o que nos diz São João: «O Verbo era Deus… Nele havia a vida, e a vida é a luz dos homens… O Verbo se fez carne e habitou entre nós…» (cf. Jo 1, 1 ss.). «Era – explica ainda – a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem» (Jo 1,9).

Esta “luz” e esta “vida” são os tesouros as que nós encontramos, como água divina que apaga a sede da alma, nos quatro Evangelhos (e em todo o Novo Testamento, que é, todo ele, irradiação da luz do Evangelho).

1) Vendo Jesus – e os Evangelhos nos mostram um “retrato” nítido de Jesus -, nós vemos Deus. Ao apóstolo Filipe, que na Última Ceia pediu a Cristo que lhes mostrasse Deus Pai, o Senhor respondeu: «Há tanto tempo que estou com vocês, e ainda não me conhece? Aquele que me viu, viu também o Pai» (Jo 15,9). Será que Jesus não nos poderia dizer a mesma coisa?

2) “Ouvindo” (isto é, lendo e meditando) os ensinamentos de Jesus no Evangelho, escutamos o próprio Cristo: as palavras que, saindo dos seus lábios e do seu coração, ele dirige pessoalmente a cada um de nós. Se o “ouvirmos” mesmo, se acolhermos essas suas palavras, a nossa vida mudará. «As minhas palavras são vida» (Jo 6,64). Os ensinamentos de Cristo serão, dentro de nós, «fonte de água que jorrará até à vida eterna» (Jo 4,14).

A vida que nasce das fontes

Convença-se de que a nossa vida precisa, mais do que do ar que respiramos, das palavras de Jesus (e de seus exemplos, que são também “palavras”). Só elas nos fazem viver de verdade, só elas nos fazem transformar em “vida autêntica” cada instante da nossa existência:

1) Se tivermos dúvidas sobre o caminho a tomar, sobre as soluções a adotar, Jesus nos dirá: «Eu sou o Caminho» (Jo 14,6). E, se aprendermos a meditar o Evangelho, não demoraremos muito a ganhar facilidade para captar – com a ajuda do Espírito Santo – a resposta que Jesus nos quer dar naquele caso concreto: “Segue este caminho, faz isso e não aquilo”…

2) Se duvidarmos sobre a verdade, neste mundo de idéias confusas e interpretações divergentes, Jesus nos dirá: «Eu sou a Verdade» (Id.), e, ao meditarmos sobre o Evangelho, fará brilhar na nossa alma a luz nítida e brilhante da Verdade que Ele transmitiu à sua Igreja e quer fazer irradiar sobre cada um de nós.

3) Se sentirmos a vida vazia, se perdermos o sentido da nossa existência, se acharmos que tudo nos desencanta, que tudo se desgasta, que tudo murcha, Jesus nos dirá: «Eu sou a Vida» (Id.), e, ao meditarmos o Evangelho, nos fará ver panoramas de renovação de vida, ideais novos, possibilidades belíssimas até então insuspeitadas. E exclamaremos, comovidos, como São Pedro: «Senhor, a quem iríamos nós? Só tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68).

Terminamos aqui esta meditação, que é só introdutória, a primeira reflexão sobre “como meditar o Evangelho”.

Já vimos que, antes de mais nada, o Evangelho tem que ser meditado com fé, com esperança, com a certeza de que Deus nos ama e nos fala. Este é a primeira condição, o primeiro “como”, o modo “essencial” de meditar.

Há, além disso, muitas sugestões práticas, muitas experiências úteis sobre essa “lectio divina” -como a chama a grande tradição cristã – , que procuraremos transmitir nas seguintes reflexões sobre esse mesmo tema.