Como meditar o Evangelho – II

Na nossa última reflexão (“Como meditar o Evangelho-I”), dizíamos que há muitas sugestões práticas e experiências úteis sobre essa leitura meditada, que procuraríamos ver em sucessivas meditações. Hoje começaremos a falar dessa parte prática.

Para começar, lembremos que as pessoas que estão dando os primeiros passos – passos de “iniciação na vida espiritual” -, podem encontrar-se em duas situações:

1ª) Pessoas que, mesmo tendo sido batizadas, nunca leram os Evangelhos (a não ser de modo muito esporádico e fragmentário) e não conhecem quase nada da vida de Jesus: não saberiam contá-la aos outros (p.e. aos filhos);

2ª) Pessoas que conhecem a vida de Cristo e já leram os quatro Evangelhos ou boa parte deles – talvez na escola, ou na preparação para a primeira Comunhão e a Crisma -, mas que depois abandonaram a prática cristã ou passaram a vivê-la por mero hábito e rotina – sem fé viva nem amor – e, por isso, esqueceram muitas coisas, e bem pouco aprofundaram.

Os primeiros passos

Se você se encontra no primeiro caso, ou seja, se tem de partir quase (ou sem “quase”) da estaca zero, penso que podem ser úteis as seguintes sugestões:

a) em primeiro lugar, compre (se não o tem) um exemplar de uma edição correta da Bíblia ou do Novo Testamento (aconselhando-se antes), de preferência uma edição que contenha introduções a cada Evangelho e notas explicativas. Essas notas, em geral, costumam ser breves, mas quase sempre ajudam: por exemplo, as das edições da Bíblia da CNBB, da editora Ave Maria, da Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulinas), da Difusora Bíblica portuguesa (publicada no Brasil pela Ed. Santuário, de Aparecida), da Liga dos Estudos Bíblicos (Ed. Loyola), etc. Se desejar explicações e notas extensas de grande valor, você poderá encontrá-las no volume “Os Evangelhos” da Bíblia de Navarra, traduzida e publicada pelas Edições Theologica de Braga (Portugal);

b) em segundo lugar, como já recomendamos ao falar da meditação em geral, reserve todos os dias um horário e um lugar bem definidos, e dedique, pelo menos, uns cinco ou dez minutos à leitura pausada e meditada do Evangelho. O “Catecismo da Igreja Católica” diz: «A escolha do tempo e da duração da oração mental depende de uma vontade determinada… Não fazemos oração quando temos tempo: reservamos um tempo…com a firme determinação de…não o tomarmos de volta» (n. 2710);

c) em terceiro lugar (em bastantes casos, isto deveria estar “em primeiro lugar”), procure adquirir e ler uma boa “Vida de Cristo”, que muitas vezes precisará ser o “primeiro passo” necessário para você entender os Santos Evangelhos. Eu costumo recomendar a “Vida de Jesus” de Justo Pérez de Urbel, publicada no Brasil pela Ed. Quadrante. Parece-me muito adequada, pela sua clareza, pelo estilo ameno e pelo caráter didático, mas isso é apenas uma sugestão pessoal: em matéria de preferências, só se pode dizer “eu gostei, para mim foi útil”;

d) em quarto lugar (essa ordem não é matematicamente rigorosa!), leia completos, em sequência, do começo ao fim, cada um dos Evangelhos – não abrindo-os ao acaso nem dando só “bicadinhas”-, e siga a ordem em que eles se encontram na Bíblia: Mateus, Marcos, Lucas e João. E, uma vez terminado o ciclo completo, repita-o várias vezes, do primeiro capítulo de Mateus ao último de João (isso pode levar anos, o que é bom; muitos seguem com proveito esse sistema a vida inteira). Repare que, por enquanto, não estamos falando dos outros livros do Novo Testamento (Cartas de São Paulo, p.e.), pois disso trataremos em outras ocasiões;

e) em quinto lugar, procure ler tendo uma agenda ou caderninho ao lado, e vá anotando aí a referência aos trechos que quer gravar bem, e aos que não compreendeu, para meditá-los outro dia ou para poder consultar a alguém competente que possa esclarecê-lo. Como provavelmente já sabe, os livros da Bíblia se dividem em capítulos e versículos e, para anotá-los e citá-los, utilizam-se abreviaturas, que as próprias edições da Bíblia trazem e explicam; assim, por exemplo, a citação Mc 7,24 significa: Evangelho de São Marcos, capítulo 7, versículo 24; e a referência Jo 6,66-71 significa: Evangelho de São João, capítulo 6, versículos 66 a 71;

f) em sexto lugar, não se obrigue a ler uma quantidade determinada de páginas ou de versículos por dia. O importante é ler devagar, assimilar e tirar proveito. Assim, um dia pode ficar dez minutos lendo, relendo e meditando só dois versículos (veja, p.e., Jo, 13,34-35), e outro dia pode precisar de ler várias páginas (p.e. Lc 2,1-20, que é a descrição do Natal);

g) em sétimo lugar, não “encalhe” nos trechos difíceis ou “desconcertantes”, não fique gastando tempo tentando decifrá-los, mas passe para os seguintes (anote os difíceis, como já aconselhávamos, e peça esclarecimentos a quem conheça melhor a Bíblia). Pelo contrário, pare, medite, releia, saboreie devagar (como quem “chupa bala”) os trechos que mais lhe toquem a inteligência (“que claro, agora entendo!”) e o coração (porque vai descobrindo a beleza do amor de Jesus, e sente “desabrochar” o seu amor por Ele);

h) isto que acabamos de dizer, o “amor a Jesus”, é o segredo para entender o Evangelho, depois do “principal” segredo, que é pedir luz ao Espírito Santo. Na leitura feita como até aqui explicamos produz-se um “círculo virtuoso”: pouco a pouco, meditando a vida e as palavras de Cristo, vai-se acendendo a chama do amor. Depois, esse amor desperta a uma grande fome de conhecê-lo melhor, e sopra sobre aquela chamazinha amorosa, que cada vez se torna maior. Com o Evangelho acontece como com uma magnífica paisagem que amanheceu coberta de neblina; primeiro, nada se enxerga; aos poucos, o sol vai levantando a cerração: começam a ver-se alguns perfis de árvores, casas e montanhas, ainda sob uma luz confusa; mas, horas depois, tudo vai ficando claro, até que, sob o sol sem véus, a paisagem se mostra com um deslumbramento de beleza e esplendor.

Os segundos passos

Os “segundos passos” seriam os que devem dar os que – como dizíamos acima -, conhecendo os Evangelhos, quase os esqueceram e pouco aprofundaram neles. Há várias coisas a dizer sobre isso. Mas, para não alongar esta reflexão, procuraremos oferecer algumas sugestões no próximo capítulo: “Como meditar o Evangelho-III”.