Como meditar o Evangelho – III

Os “segundos passos”

Na meditação anterior («Como meditar o Evangelho-II»), sugeríamos alguns conselhos para os que dão os “primeiros passos” na meditação do Evangelho. A maioria desses conselhos também podem ser úteis para os que querem dar os “segundos passos”, ou seja, para os que já conhecem os Evangelhos, mas nunca se aprofundaram neles.

Como é que se nota que já estamos dando os “segundos passos”? Eu diria que se nota em duas coisas: no “espelho” e no “farol”. Bem. Isso precisa de uma explicação, que vamos dar a seguir.

O “espelho”

Tudo vai bem quando meditamos o Evangelho com tanto interesse e atenção, que -com a ajuda do Espírito Santo – começamos a ver-nos retratados nele, como num espelho. O que Jesus diz e faz é como o fundo brilhante de um espelho, que nos ajuda a enxergar claramente, por contraste, as nossas falhas.

Assim, por exemplo, quando lemos as seguintes palavras: «Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados», percebemos duas coisas:

a) Jesus vivia assim: não julgava nem condenava, mas compreendia, ajudava, corrigia com carinho e perdoava (leia, p.e. Lc 7,36-50; Jo 8,1-11; Mt 9, 10-13; Lc 15,1-32).

b) E eu? Eu sei compreender os outros? Faço facilmente maus juízos? Caio logo na crítica interior e na suspeita? Procuro perdoar quanto antes os que me ofendem?

As conclusões vêm facilmente ao coração e à cabeça: “Jesus – vamos dizer então-, me perdoe tantos maus juízos e críticas! Jesus, me ajude a ver primeiro, como você, o lado bom das pessoas!

Outro exemplo. Leio estas palavras de Jesus: «Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles» (Mt 6,1), e logo percebo duas coisas:

a) Jesus não era vaidoso. Tudo fazia pelo bem dos outros, e detestava o exibicionismo. Por isso, mesmo depois de ter feito milagres, pedia: «Vê que não o digas a ninguém» (Mc 1,44). E, na Paixão não andou proclamando que Ele era Deus, que morria por nós. Aceitou ser ignorado e desprezado.

b) E nós? Agimos da mesma forma quando estamos a sós com a família, que na vida social, quando outros nos vêem e queremos fazer boa figura aos olhos deles por vaidade? Procuramos fazer o que é certo, porque Deus assim o pede, mesmo que os outros nem reparem nem nos agradeçam?

Logo vemos que há muita vaidade na nossa vida, excessiva preocupação com a nossa imagem, excessivo desejo de “ficar bem”. E então pedimos: “Jesus, me perdoe a falta de humildade. Me ajude a ter intenção reta e a fazer as coisas bem feitas só porque são as coisas certas, as que Você me pede e a minha consciência me indica como meu dever”.

O “farol”

Outro sinal de que estamos já nestes “segundos passos” nota-se quando a meditação do Evangelho, além de ser um espelho que ressalta as nossas falhas, é um farol que nos mostra os caminhos do amor e nos incentiva a segui-los, com o desejo de progredir cada vez mais.

Você lê, por exemplo, a cena do lava-pés (Jo 13, 2-17), e vê Jesus humilde, aos pés dos Apóstolos, prestando-lhes um serviço próprio de escravos, e dizendo-lhes: «Eu vos dei exemplo para que, assim como eu vos fiz, assim façais vós também. Se compreenderdes essas coisas, sereis felizes se as praticardes». Neste ponto, pode ser que venha à memória alguma coisa que já lemos antes, como aquele trecho do Evangelho em que Jesus nos pede: «O que quiser ser entre vós o primeiro, faça-se vosso servidor», ao mesmo tempo em que nos diz que Ele «veio ao mundo não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para redenção de muitos» (Mt 20,27-28).

Por pouco que meditemos sobre isso, o nosso coração, primeiro, se envergonha e, depois, arde em desejos de mais generosidade: “Meu Deus, como fui egoísta até agora! Tenho estado quase totalmente voltado para mim, para os meus interesses, para os meus gostos. Eu te peço, por favor, que me dês um coração como o de teu Filho Jesus, generoso, aberto aos demais, pronto para ajudar, disposto a ser útil, material e espiritualmente, aos meus irmãos”.

Como num filme

São Josemaria Escrivá, que ensinou inúmeras almas a amar e meditar o Evangelho, dizia: «Não basta ter uma idéia geral do espírito de Jesus, mas é preciso aprender dEle pormenores e atitudes». E, para isso, dava o seguinte conselho: «Quando amamos uma pessoa, desejamos conhecer até os menores detalhes da sua existência. É por isso que temos que meditar a história de Cristo, porque é preciso que a conheçamos bem, que a tenhamos toda inteira na cabeça e no coração, de modo que, em qualquer momento, sem necessidade de livro algum, fechando os olhos, possamos contemplá-la como num filme;m de forma que, nas mais diversas situações da nossa existência, acudam à memória as palavras e os atos do Senhor».

Isso é possível? Sim! Desde que nos decidamos a ler e meditar com perseverança, todos os dias durante alguns minutos, os Santos Evangelhos.

Precisaríamos de falar ainda de um “terceiro passo” na meditação do Evangelho. Mas vamos deixá-lo para a nossa próxima reflexão.