Amor à Missa: III – Orações do coração

O Senhor olha o coração

            O homem vê a face, mas o Senhor olha o coração (1 Sam 16,7). Lembra-se desta frase da Bíblia? Ela deve ser sempre uma bússola que guie a nossa vida. Não importam as aparências exteriores, ou que os outros veem ou pensam, o que importa é o que Deus vê, o interior do coração (Mc 7,21), onde reside o verdadeiro valor do que fazemos.

            Por isso São Paulo dizia que as ações aparentemente mais heróicas e belas, se forem feitas sem amor de Deus e do próximo, serão vazias: como um bronze que soa ou um címbalo que retine (1 Cor 13,1). Pois bem, a mesma coisa pode-se dizer da participação na Missa. Se não tiver raízes no amor do coração, merecerá a censura do profeta Isaías, que Jesus recorda: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. É inútil o culto que me prestam (Mc 7,6-7).

            Na reflexão anterior – você lembra bem – já vimos que a melhor participação na Missa é unirmo-nos interiormente e de coração sincero à voz de Deus que nos fala nas Leituras, e a todas as orações e gestos da Liturgia, com as quais nós Lhe falamos e O escutamos ao mesmo tempo.

            Mas a participação na Missa não se esgota com essa participação consciente e ativa na Liturgia. Viver a Liturgia, certamente, é um modo essencial e insubstituível de participar, que não pode ser “trocado” por nada. Mas o nosso coração é potencialmente muito grande, é um abismo, diz a Escritura (Ecli 42,18), e, dentro dele, a Liturgia bem vivida pode despertar sentimentos íntimos, que são expressões  riquíssimas de adoração, de amor, de agradecimento, de súplica…

            Vamos refletir agora um pouco sobre essas expressões de piedade, que poderíamos chamar «orações do coração».

Viver os quatro fins da Missa

            Como lembra o  Catecismo Romano (IV, nn. 78-79), são quatro os fins do Sacrifício da Missa, que coincidem com os quatro grandes sentimentos com  que Jesus se ofereceu ao Pai na Cruz por nós: a adoração (juntamente com o louvor), a ação de graças, a reparação pelos pecados e a súplica ou oração de petição.

            Os textos da Missa, quando bem vivida, despertam intensamente a alma para essas quatro atitudes:

            1) Adoração e louvor. Pensemos, por exemplo, quantas coisas nos podem sugerir orações litúrgicas como estas: «Glória a Deus nas alturas… Nós vos adoramos, nós vos glorificamos!», «Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo; o céu e a terra proclamam a vossa glória», «Pai de misericórdia, a quem sobem nossos louvores», «Na verdade, vós sois santo, ó Deus do universo, e tudo o que criastes proclama o vosso louvor», «Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, ó Pai todo-poderoso, toda a honra e toda a glória…», e tantas outras.

            E não esqueçamos que, além dos textos, há também os gestos litúrgicos de adoração, que também movem a alma a orar.

            A «Instrução Geral do Missal Romano» (n. 42), que contém as normas oficiais da Igreja para a celebração da Missa, indica, por exemplo, que os fiéis se «ajoelhem durante a Consagração», e que, onde for costume, é louvável «permanecer de joelhos do fim da aclamação do Santo até o final da Oração eucarística e antes da Comunhão, quando o sacerdote diz “Eis o Cordeiro de Deus”». Gestos de adoração, que arrastam a alma com eles!

            Como lhe dizia antes, é fácil perceber que essas orações e gestos de reverência podem despertar, interiormente, expressões muito ricas de adoração e louvor. Por exemplo, exclamar interiormente «Meu Senhor e meu Deus!», quando o celebrante eleva a Hóstia e o Cálice, e depois se ajoelha; ou «Adoro-te com devoção, Deus escondido», quando ficamos de joelhos, ou quando fazemos a genuflexão que a Liturgia prescreve, ao passarmos diante do sacrário ou diante do altar, após a Consagração da Missa, etc. São Josemaria confidenciou certa vez, fazendo oração em voz alta com dois de seus filhos, que após a Consagração costumava dizer por dentro a Jesus: «Bem-vindo ao altar!»

            2) Ação de graças. Basta que você pense no que sugerem textos litúrgicos como os seguintes: «Na verdade, ó Pai, é nosso dever dar-vos graças», «nos vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade», e outros …

            Como é possível que, diante da doação total de Cristo por nós na Missa, não lhe agradeçamos de muitas maneiras? Pode bastar um simples «Obrigado, Senhor, por tudo»; ou um «Obrigado por isso e aquilo» que o coração vá repetindo constantemente; ou deixarmos que a alma exclame interiormente: «Como és bom, Senhor, como és bom!». E não há dúvida de que o maior momento de ação de graças é a conversa que devemos manter com Cristo após a Comunhão (disso trataremos mais amplamente em outra reflexão).

            Mas o coração pode ir além na gratidão. Convençamo-nos de que, muitas vezes, a melhor ação de graças, a melhor retribuição, será o oferecimento generoso, em união com a oblação de Cristo, do  nosso dia, da nossa semana, dos nossos trabalhos e deveres cotidianos – que queremos santificar e tornar dignos de serem ofertados com Jesus-Hóstia a Deus Pai no altar -; e também a entrega a Deus das nossas dores e alegrias, do nosso apostolado… Quantas orações do coração não podem «entrar» aí, quantas «oblações» não podemos colocar na patena de cada Missa!

            3) Reparação pelos pecados próprios e alheios, por tantas ofensas que Deus recebe. A Liturgia também nos move com força à contrição e à reparação: «Deus todo-poderoso tenha compaixão de nós, perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna», «Senhor, tende piedade de nós!», «Vós que tirais o pecado do mundo, acolhei a nossa súplica», «…todos os que circundam este altar… elevam a vós as suas preces para alcançar o perdão de suas faltas…», «enfim, nós vos pedimos, tende piedade de todos nós e dai-nos participar da vida eterna…», etc, etc.

            Como é bom rezar essas orações, e acrescentar-lhes nossos pedidos íntimos de perdão, dizendo por dentro, por exemplo, aquela «oração do coração» de que fala o Catecismo da Igreja (nn. 2616 e 2667): «Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tem piedade de mim, pecador!»; ou repetindo o ato de arrependimento e desagravo de São Pedro após a ressurreição de Cristo, tão bonito: «Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo!» (Jo 21,17).

            4) Súplicas, petições. Toda a Missa é, também, uma constante súplica pelos que participam conosco da Missa – «por si e por todos os seus» -, por toda a Igreja, a começar pelo Papa e pelo Bispo, pelos vivos e os defuntos: «Lembrai-vos, ó Pai…». E, em concreto, por tantas intenções que visam as necessidades mais prementes do mundo e da Igreja: a paz, a harmonia dos povos, a justiça na vida social e econômica, a defesa dos valores da família, a fidelidade dos governos à Lei de Deus, as vocações … (intenções lembradas especialmente na «Oração dos fiéis»), bem como as múltiplas intenções estritamente pessoais ou familiares, que vamos colocando mentalmente na patena, para que Cristo as faça suas ao descer aos vasos sagrados.

Não é muita coisa?

            Se pretendêssemos fazer em cada Missa «tudo» o que acabo de sugerir, sim, seria muita coisa! Seria demais! Mas não se trata disso. Eu não lhe quis dar uma «cartilha única e obrigatória». Deus me livre! Quis apenas rasgar um pouco o horizonte maravilhoso de possibilidades de fazer da Missa uma «oração continuada».

            Na prática, uns dias você focalizará na Missa sobretudo as ações de graças; outros dias se concentrará na adoração – como é grata a Deus a adoração, que é «o êxtase do amor»! (Bv. Isabel da Trindade) -; em outras ocasiões, fixará especialmente o coração em algumas intenções que leva ao altar; em outras, suplicará sobretudo o perdão de Deus, como o filho pródigo, ou desejará desagravar a Jesus pelas inúmeras ofensas e esquecimentos que o ferem todos os dias…

            Cabe, portanto, a você, e só a você, tomar a iniciativa do que vai fazer na Missa daquele ou aqueles dias. Será bom concretizá-lo ao preparar-se para o Santo Sacrifício. Vai ver como, pouco a pouco, conseguirá ir metendo mais “vida” e amor na Missa, e conseguirá, com a ajuda da graça, que cada Missa seja – sempre muito unido aos seus irmãos -, um encontro apaixonado com Cristo, e, através dele e em união com o Espírito Santo, com Deus Pai, e com todos os seus irmãos, os homens.

            O Papa Bento XVI diz que, de todas as orações da Missa, talvez a que mais goste seja a que diz o sacerdote antes de comungar: «Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, que, cumprindo a vontade do Pai e agindo com o Espírito Santo, pela vossa morte destes vida ao mundo: livrai-me dos meus pecados e de todo mal; pelo vosso corpo e pelo vosso sangue, dai-me cumprir sempre a vossa vontade e jamais separar-me de vós».

            A Missa bem vivida torna-se a «ignição» da alma, o «centro» de irradiação, que nos move a cumprir com amor a vontade de Deus – «dai-me cumprir sempre a vossa vontade» – nos detalhes cotidianos do trabalho, da vida familiar, da vida social…, enfim, em todos os momentos e circunstâncias da nossa vida.