Confissão: II- “Teus pecados te são perdoados”

Elementos essenciais da Confissão

            Na vida, tudo o que se faz bem feito é eficaz, traz um bem. Uma casa conseguirá ser bela, prática e aconchegante, se for construída com plantas e cálculos bem feitos, com bons materiais, com perfeito acabamento de todos os elementos que a compõem.

            De maneira análoga, uma confissão será «boa» e dará «frutos de graça» – como víamos na reflexão anterior -, se forem bem cuidados e praticados todos os elementos que a compõem. Você sabe que os «elementos essenciais» do Sacramento da Penitência (cf. CIC n. 1448) são os «atos do penitente» e a «absolvição do sacerdote». Sem eles, não haveria Sacramento.

            De nós dependem os atos do penitente. Como aprendemos (tomara!) no catecismo da primeira Comunhão são quatro: 1º o exame de consciência; 2º o arrependimento (que inclui o propósito), 3º a confissão ao sacerdote; 4º a penitência ou satisfação.

            Bem sabe que não estamos aqui para ter aulas teóricas, nem de catecismo nem de teologia. Mas o pequeno catecismo clássico é um guia excelente para a vida espiritual. Vamos ver, então, recordando esse catecismo, algumas sugestões práticas sobre cada um dos atos do penitente.

O exame de consciência

            O catecismo ensina que, para fazer uma boa Confissão, é necessário, antes de tudo, pedir luzes a Deus para conhecermos todos os nossos pecados. Para isso, sugiro:

            1) Antes de se confessar (no próprio dia, o antes) dedique uns minutos a se examinar diante de Deus, procurando lembrar os seus pecados. Se acha que depois os vai esquecer, pode anotá-los. Pouco antes de se confessar, reveja a listinha que escreveu nessa santa «cola», para refrescar a memória. Depois, triture ou risque totalmente o papel.

            2) Quando se trata de uma pessoa que leva muito tempo sem se confessar, a preparação deverá ser mais demorada, e é aconselhável que tenha antes uma conversa calma com o confessor, pedindo-lhe que o ajude a preparar-se.

            3) Há impressos bem práticos para nos ajudar a fazer o exame, como os que trazem os livrinhos de «Orações do cristão» ou outros devocionários. Normalmente trazem o elenco dos possíveis pecados contra cada um dos Dez Mandamentos.

            4) Às pessoas que se confessam com frequência, eu aconselharia a basear o exame, de preferência, sobre os sete Pecados Capitais (soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça), sem descurar os Mandamentos. Por quê? Porque as faltas cotidianas costumam ser pequenos «satélites» desses sete pecados.

            Como um pequeno subsídio, vou enumerar os pecados capitais, colocando entre parênteses uns poucos exemplos de «satélites:

            Soberba ou orgulho (vaidade, exibicionismo, falar de si e não ouvir os outros, preocupar-se demais com o que os outros pensam de nós…).

            Avareza (não ajudar os necessitados, ser avarento do tempo, da ajuda, do que poderia emprestar e não quer…).

            Luxúria ou sensualidade (olhares sensuais pela rua, na tv, etc.; flertar à toa no trabalho, para parecer simpático; ter maus pensamentos ou desejos não afastados com a devida rapidez…).

            Ira (irritações, impaciências, respostas bruscas, reclamações ásperas, xingações, explosões…).

            Gula (excessos no comer e no beber, exigir requintes impróprios, abusar do chocolate, etc., «manias» injustificadas nas comidas…).

            Inveja (tristeza porque os outros são ou têm mais do que nós, mesmo que não lhes desejemos mal; maledicência oriunda da inveja; competitividade ansiosa…)

            Preguiça (de levantar, de estudar, de rezar, de ir à Missa, de arrumar a cama, de colaborar nas coisas materiais do lar, de visitar parentes ou doentes que precisam, etc. etc….)

            Algumas dessas faltas podem aumentar de «calibre» e constituir um pecado mortal. Para esclarecer a consciência, procure a orientação do confessor.

O arrependimento ou contrição

            Uma definição clássica diz que é «a dor da alma e o repúdio do pecado cometido, com a resolução de esforçar-se para não mais pecar no futuro» (cf. CIC, n. 1451).

            A Igreja ensina que há dois tipos de contrição:

            1) A chamada «contrição perfeita», que é a dor que tem como motivo o amor a Deus. É or de amor por tê-lo ofendido, por ser Ele quem é, bondade suma, e ter dado a vida por nós. Essa contrição é a ideal e, quanto mais impregnada de amor estiver, mais graça divina vai atrair.

            Tenha em conta que«perfeita» não significa «máxima», e, além disso, que não precisa «sentir» emocionalmente essa dor. Basta ter a «convicção» de que Deus é bom e nos ama, e nós o ofendemos ao pecar. Pode ajudá-lo olhar para um crucifixo, pensando em Jesus que morreu pelos nossos pecados.

            2) A «contrição imperfeita» (ou «atrição») é, como lembra o pequeno catecismo, a dor e detestação dos pecados cometidos, por temor dos castigos de Deus nesta vida ou na outra; ou ainda porque nos incomoda demais andar com essas ofensas de Deus dentro da alma.

            Essa contrição, unida à absolvição sacramental, é suficiente para fazer uma confissão válida (mesmo de todos os pecados mortais), mas é bom lembrar que o «fruto» do Sacramento aumenta na medida do amor. Por isso, Jesus disse da pecadora que chorava aos  seus pés: Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela muito amou (Lc 7, 47).

            É claro que a autêntica contrição inclui o propósito de não pecar mais. O propósito deve ser sincero, ainda que não exclua o temor de voltar a fraquejar. Mas será sincero, mesmo havendo esse receio (que é diferente da má vontade), se concretizarmos alguns «meios»práticos para evitar os pecados confessados, como pedir mais ajuda a Deus e à Virgem, comungar com mais frequência, evitar determinadas ocasiões perigosas, lugares, pessoas ou conversas que nos possam levar a pecar, etc.

A confissão ao sacerdote

            «A confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua sendo o único meio ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja […]. Aquele que quiser obter a reconciliação… deve confessar ao sacerdote todos os pecados graves que ainda não confessou e de que se lembra depois de examinar cuidadosamente a sua consciência». Assim ensina o Catecismo da Igreja (CIC nn. 1493 e 1497).

            «Todos os pecados graves»: não só cada um dos tipos de pecado grave que cometeu (caluniei, cometi adultério, caí em corrupção ativa, faltei à Missa dominical sem motivo importante…), mas também o número de cada um dos pecados, pelo menos o número aproximado (tantas vezes por mês, ou faltei à Missa durante tantos anos ou meses, ou aproximadamente dez vezes, etc.).

            Além disso, a confissão «integral» exige que se comentem as circunstâncias que tornam a falta mais grave (p.e., ter assistido a um programa pornográfico estando presente um menor; ou ter ofendido gravemente a própria mãe, etc.).

            Em se tratando de pecados veniais, não é preciso dizer o número, nem acusá-los todos (a lista poderia ser interminável e angustiante), mas sobretudo aqueles em que mais tropeçamos, que sabemos é mais necessário vencer, ou que prejudicam mais os que convivem ou trabalham conosco.

            «Esvaziar o lixo da alma» traz-nos uma paz e uma força que nenhum psiquiatra nos poderia dar.

A penitência ou satisfação

            Em toda confissão, o sacerdote deve impor-nos uma penitência, que costuma consistir em algumas orações, algum sacrifício ou obra de caridade, etc. O seu significado é de «reparação» pelos pecados cometidos. É claro que as almas generosas costumam acrescentar livremente, por conta própria, outras orações e sacrifícios, com desejos sinceros de amar a Deus, reparando o mal cometido. É bom proceder assim, ainda que não seja obrigatório.

            Convém cumprir a penitência quanto antes. Faz parte do Sacramento (dos «atos do penitente») e tem o valor do Sacramento: o fato de rezarmos uma Ave-Maria imposta pelo confessor como penitência é um ato «sacramental» e, por isso, tem mais valor que qualquer Ave-Maria ou dezenas de Ave-Marias que nós rezemos por iniciativa pessoal com fins de penitência. Vale a pena fazer a penitência – normalmente bem fácil de cumprir – com o maior esmero e fervor possível.

            Na próxima meditação, veremos algumas dúvidas que nos podem tirar a paz, e o modo de não cair em suas malhas.