“Deuses e homens”

O filme “Deuses e homens” conta uma história verídica, que é um impressionante testemunho de fé e de amor. Em 2008, eu tinha incluído um relato resumido dessa “divina tragédia” no meu livro “Otimismo cristão hoje” (incluído no setor Livros e palestras) . Reproduzo a seguir esse breve relato:

– Vou contar um fato, ao mesmo tempo trágico e luminoso, ocorrido em 1996 na Argélia.

Trata-se do martírio de sete monges trapistas franceses, que se encontravam num mosteiro nas montanhas da zona do Atlas, em Tibhirine, perto da cidade de Medea. O mosteiro tinha recebido o nome de Nossa Senhora do Atlas. Dedicavam-se à oração e prestavam serviços humildes aos muçulmanos mais necessitados da região.

Em 26 de março de 1996, sete monges desse mosteiro foram seqüestrados por um comando radical de terroristas islâmicos. Após diversas vicissitudes, no dia 21 de maio desse mesmo ano os sete monges – entre eles, o abade – foram degolados. Só em 30 de maio é que os seus restos mortais foram achados perto de Medea.

Entre dezembro de 1993 e janeiro de 1994, o abade do mosteiro, padre Christian de Chergé, prevendo esses trágicos eventos, havia escrito um testamento espiritual, testemunhando nele o seu amor a Cristo e, por Ele, a todos os muçulmanos da zona. Reproduzo uns poucos parágrafos:

«Se algum dia me acontecesse ser vítima do terrorismo, eu quereria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Peço-lhes que rezem por mim.

»Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.

»Se Deus o permitir, espero poder mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, e contemplar assim, juntamente com Ele, os seus filhos do Islã tal como Ele os vê; que os possa ver iluminados pela glória de Cristo, fruto da sua Paixão, inundados pelo dom do Espírito… Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus”.

Finalmente, dirigindo-se ao seu futuro assassino, escrevia: «E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo, também a ti dirijo esta ação de graças…, e peço a Deus que nos seja concedido reencontrar-nos no Céu, como “bons ladrões” felizes no Paraíso, se assim Deus, Pai nosso, teu e meu, o quiser. Amém! Im Jallah!».