Viver a misericórdia no lar

O cume da misericórdia

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36)

O cume da misericórdia, como ensina Cristo, é o perdão (cf. Mt 18, 21 ss, e Lc 15, 11 ss.). Mas, na vida em família, o perdão muitas vezes é o cúmulo da dificuldade. Como custa perdoar no lar! E, no entanto, é muito mais daninho para a harmonia familiar guardar rancores, curtir ressentimentos e andar com revides, do que explodir momentaneamente, dando vazão à ira, ao grito e ao sopapo.

Creio que todos nós experimentamos um estremecimento quando encaramos de frente duas declarações de Cristo:

– depois de ensinar-nos a rezar: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, Jesus acrescenta: Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 12.15). Já imaginamos o que seria, para nós, o dia do Juízo, se Deus nos perdoasse só como nós perdoamos os outros?

– o segundo ensinamento deixa-nos pensativos e um tanto perturbados. Repetindo de certa forma o anterior, introduz um novo matiz. Cristo acaba de narrar a parábola do servo cruel, que tendo sido perdoado de uma grande dívida pelo seu senhor, não perdoa um companheiro que lhe deve uma insignificância. O senhor do servo castiga-o severamente e, como moral da parábola, Cristo conclui: Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um não perdoar a seu irmão de todo o coração (Mt 18, 35).

Há pessoas que parecem ter no coração um computador com capacidade de muitos gigas, em cuja memória se vão guardando todas as mágoas, perfeitamente contabilizadas: «Não se lembrou do meu aniversário», «Faz dez anos que não me traz flores nem bombons», «Ela não aceitou a minha explicação “verdadeira” sobre os meus atrasos à noite e acusa-me de infidelidade», «Quando éramos namorados, no dia tantos de tantos de mil novecentos e tantos, às dezoito e trinta e cinco horas, na esquina das ruas tal e qual, ele me ofendeu dizendo xis ou ípsilon», «Ela passa o dia na casa da sua mãe, como se não tivesse marido e filhos», «Ele não quis ir ao casamento do meu sobrinho, sabendo que magoava toda a minha família», «Você falou isso porque meus pais são pobres», e assim por diante.

Basta qualquer faísca que provoque uma irritação, basta uma má interpretação, uma crítica, uma zombaria ou um protesto, para que a pessoa que se sente ofendida “clique” no seu computador invisível e apareça no vídeo o arquivo dos “agravos”, com uma lista interminável. Essa enxurrada de reminiscências negativas cai então como um raio sobre o outro, reacende a fogueira das acusações mútuas e aumenta o círculo vicioso dos rancores e das recriminações. Adeus à paz! São Paulo sabia bem de que massa estamos feitos e, por isso, pensando no amor que gera a paz, dizia: Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se um tiver contra outro motivo de queixa. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós (Ef 3, 13).

Como são importantes os pequenos perdões no lar! Esforcemo-nos, pelo menos, por calar-nos: não retruquemos, não firamos sensibilidades. Façamos um propósito espiritual altamente recomendável: «Nas discussões, lá em casa, eu faço questão de dizer a penúltima palavra». Quem se obstina em dizer a última, inevitavelmente atiça a chama da discussão.

Mas calar-se não é carneirismo? Será que tenho que aceitar todas as injustiças e humilhações? Não. Às vezes, pode-se – e deve-se – cortar energicamente na hora um despropósito, mas não há necessidade de cair numa interminável discussão, nem de ficar remoendo horas e dias. Outras vezes, convirá calar e esperar, e mais tarde, tentar um diálogo sereno e esclarecedor ou fazer uma correção tranqüila; em outras ocasiões, nada facilitará tanto o arrependimento do outro como mostrar-lhe – sem humilhá-lo – grandeza de alma. Uma pessoa ofendida que trata bem, com coração magnânimo, aquele que o ofendeu, é moralmente “superior”, não pelo orgulho, mas pela bondade. Com isso, desarma o agressor, que pode perceber a sua tola mesquinhez em contraste com esse amor maior.

Perdoar de todo o coração

«Certo – pode dizer alguém -, eu perdoo, gostaria de perdoar, mas não consigo esquecer. Portanto, o meu perdão não vale nada, pois Cristo manda perdoar de todo o coração».

Quantos não sofrem, angustiados, por essa incapacidade que têm de esquecer mágoas e ofensas! «Eu bem que tento – dizem -, eu quereria esquecer, eu me esforço, mas continuo lembrando-me e, de cada vez que lembro, vem-me aquela fervura, sinto raiva, sinto antipatia, não agüento ver a pessoa na minha frente».

Deus não nos pede impossíveis, e mudar sentimentos involuntários, muitas vezes, é um impossível. Então, o que é que Deus pede quando nos fala de perdoar de todo o coração? Com muita clareza o diz o Catecismo da Igreja Católica: «Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão» (n. 2843).

É um jato de luz e um conforto, porque é algo que uma pessoa de boa vontade sempre pode fazer.

Primeiro, transformar «a ferida em compaixão». Não, naturalmente, na compaixão que despreza, olhando o “coitado” de cima para baixo. Mas na compaixão verdadeira que, sabendo passar por alto a mágoa pessoal – ainda que essa continue como um sentimento que não conseguimos eliminar -, percebe que a atitude errada do outro é uma ferida que ele próprio infligiu a si mesmo. Como é lógico, a “compaixão” vivida conscientemente – com autêntico esforço de compreensão – deixa cada vez menos espaço no nosso coração para o rancor.

Depois, o Catecismo fala de «purificar a memória, transformando a ofensa em intercessão», isto é, em oração, pedindo a Deus por aquele que nos ofendeu. Esse é exatamente o ensinamento de Cristo: Orai pelos que vos maltratam e perseguem (Mt 5, 44). Todos nos comovemos quando lemos as histórias dos mártires que, a exemplo de Cristo, rezavam fervorosamente pelos seus algozes. Mas, por que achamos que isso não é conosco? A esposa, o marido, os filhos, podem ser difíceis, mas não são – normalmente – os nossos algozes. Quantas vezes rezamos por eles? Mais concretamente, lembramo-nos de rezar interiormente por eles, passado o primeiro sufoco – mesmo que o ânimo continue a ferver -,  todas as vezes que nos ofendem ou nos tratam com desconsideração? Será que isso nos parece esquisito ou impossível? Seria uma pena se fosse assim, porque é um ponto básico do espírito cristão. É preciso decidir-nos a lutar por vivê-lo.

Não apenas tentar esquecer, mas esquecer-se

É claro que essas reações de misericórdia só podem ser vividas se nos empenhamos em ser humildes.

Há, concretamente, uma manifestação de humildade que deveríamos pedir insistentemente a Deus, pois é imprescindível para a harmonia e a paz no lar: é a graça de não sermos suscetíveis. O orgulhoso é muito sensível, é desconfiado, magoa-se por tudo e por nada. Têm que se medir as palavras para falar com ele: – «Cuidado com o que você diz, cuidado com o modo de olhá-lo, porque pode interpretar mal!»

“A maioria dos conflitos em que se debate a vida interior de muita gente – dizia São Josemaria Escrivá – é fabricada pela imaginação: é que disseram…, é que podem pensar…, é que não me consideram… E essa pobre alma sofre, pela sua triste fatuidade, com suspeitas que não são reais. Nessa aventura infeliz, a sua amargura é contínua, e procura produzir desassossego nos outros: porque não sabe ser humilde, porque não aprendeu a esquecer-se de si própria para se dar generosamente ao serviço dos outros por amor a Deus” (Amigos de Deus, n. 101).

Nessas palavras, ao lado do retrato da susceptibilidade, indicam-se os dois principais remédios: aprender a esquecer-nos de nós mesmos e a dar-nos generosamente ao serviço dos outros. São dois aspectos da humildade que andam juntos, e que têm a maior relevância para a harmonia familiar.

Faz alguns anos, veio-me às mãos, não me lembro como, o texto de uma mensagem que a rainha Fabíola dirigiu ao povo belga por ocasião dos trinta anos do seu casamento com o rei Balduíno. A data era de 15 de dezembro de 1990 e o texto da mensagem era o seguinte: “Eu vos direi, simplesmente, que estes têm sido anos de felicidade, devido em grande parte à gentileza do meu marido, às suas atenções, a um constante esquecimento de si mesmo que jamais ficou desmentido. Ele tem para comigo uma paciência a toda a prova: foi a paciência que permitiu ao nosso amor crescer e expandir-se. Esse esquecimento de si, em favor do outro, é a verdadeira chave do casamento”.

Esquecer-se, palavra maravilhosa! São Paulo aplica-a a Cristo, dizendo que se esqueceu de si, que se aniquilou a si mesmo, assumindo a condição de servo… (Fil 2, 7). O esquecimento é a face oculta do amor, aquilo que nos facilita amar libertos da carga do “eu” orgulhoso e egísta. Cristo, sendo Deus sem mancha alguma de pecado, esqueceu-se totalmente de Si até fazer-se “nada” – aniquilando-se -, para dar-se totalmente a nós. E dEle, entregue e esquecido, afirmará São Paulo que é a nossa paz (Ef 2, 14).

Em que pensamos habitualmente? Em quem pensamos? Já é hora de deixar de preocupar-nos tanto por nós mesmos, de deixar de julgar tudo o que os outros fazem – «é bom, é ruim» – pelos reflexos que projeta no espelho do nosso “eu”. Somente quem se esquece generosamente de si mesmo é capaz de esquecer cada vez mais as mágoas provocadas pelos outros. «Oxalá te habitues a ocupar-te diariamente dos outros – diz São Josemaria -, com tanta entrega que te esqueças de que existes!” (Sulco, n. 947). Um conselho para meditar seriamente…, e aplicar na vida do lar.

(Adaptação de um  trecho do livro de F. Faus: A paz na família)