É preciso libertar a vontade

Um paradoxo

Vamos começar com um paradoxo, que não é um jogo de palavras, mas “a vida como ela é”: muitas vezes, as pessoas menos livres do mundo são aquelas que julgam ser mais livres.

Por quê? Porque só fizeram na vida o que queriam e gostavam, até que se habituaram de tal modo a isso, que agora “só podem” fazer isso mesmo, estão com uma paralisia grave da vontade, que lhes impede o menor movimento dos “músculos espirituais”, enfraquecidos e até incapacitados para se libertarem das amarras que eles mesmos criaram. São como uma hipotética aranha – valha a comparação, não muito elegante – que se foi envolvendo de tal modo em sua própria teia, que acabou ficando presa… e se asfixiou.

Tendo em vista o perigo dessa doença da vontade, São Josemaria Escrivá ensinava: “Nem tudo o que experimentamos no corpo e na alma deve ser deixado à rédea solta. Nem tudo o que se pode fazer se deve fazer. É mais cômodo deixar-se arrastar pelos impulsos que chamam de naturais; mas no fim deste caminho encontra-se a tristeza, o isolamento na miséria própria. Há pessoas que não querem negar nada ao estômago, aos olhos, às mãos. Recusam-se a escutar quem as aconselha…”. Pelo contrário,  “o homem verdadeiramente homem […]sabe prescindir do que faz mal à sua alma e apercebe-se de que o sacrifício é apenas aparente, porque, ao viver assim – com sacrifício – , livra-se de muitas escravidões”.

A vontade precisa ser libertada

A vontade – como a inteligência – é uma potência, uma energia da alma, que pode estar abafada ou liberada. Ninguém tem a vontade suficientemente “livre”. Todos temos que lutar para ir desamarrando a nossa vontade das fraquezas, preguiças, egoísmo, ilusões, paixões, manias e vícios, e transformá-la no que deve ser: a grande força inteligente, a gestora, a “executiva” racional da conduta humana.

Como libertar a vontade? Há duas “libertações, que são inseparáveis: a primeira consiste em pedir a Deus que nos empreste a sua fortaleza, a sua graça (e, para isso, rezar, confessar-nos, comungar…);  a segunda consiste em lutar sinceramente para adquirir, com garra e sacrifício – com a prática da mortificação -, o autodomínio, necessário para sermos  verdadeiramente livres.

Lembro-me de que, quando era criança, no colégio nos incutiam essa verdade por meio dos versos ingênuos de uma fábula, cujo autor já não saberia recordar e que traduzo a seguir:  “A um favo de doce mel / dez mil moscas acorreram, / que, por gulosas, morreram, / presas as patas no mel. // Outra, em gostoso pastel / enterrou-se, e lá se fina. / Assim, se bem se examina, / os humanos corações / vão morrendo nas prisões / do vício que as domina”.

É preciso “desgrudar as patas do mel”. E isso só se consegue com a mortificação, sabendo dizer não e renunciando com alegria – ainda que custe – a uma série de prazeres que podem nos escravizar. É um esforço que vale a pena visando alcançar um bem maior: o autodomínio, a liberdade, a autodeterminação.

 Ninguém pode dizer “sim”, se não aprende a dizer “não”

No livro Caminho lemos estas palavras: “Vontade. É uma característica muito importante. Não desprezes as pequenas coisas, porque, através do contínuo exercício de negar e te negares a ti próprio nessas coisas – que nunca são futilidades nem ninharias -, fortalecerás, virilizarás, com a graça de Deus, a tua vontade, para seres, em primeiro lugar, inteiro senhor de ti mesmo…”

Achei muita graça num “teste de autodomínio”, que os monitores de um clube para garotos de 10 a 12 anos aplicavam aos meninos. Queriam ajudá-los a ter uma formação integral, e sabiam que não poderiam alcançá-la se descuidassem a autodisciplina, se não fossem limpando caprichos e “vontades”, na base de alcançar o domínio próprio por meio da mortificação. O teste fazia, entre outras, as seguintes perguntas:

– Assalto a geladeira logo que chego em casa, à tarde ou à noite?

– Faço as refeições com um refrigerante bem gelado e, evidentemente, nunca com água natural potável?

– Estabeleci uma lista de comidas tabus que não como nunca?

– Se minha mãe serve uma dessas comidas, reclamo na hora?

– Digo mais de sete vezes aos dia “não gosto”, “não estou com vontade”?

– Compro ao menos um chiclete por dia?

– Reclamo energicamente se a sopa está muito fria ou muito quente?

Esse teste para os adolescentes serve também, em boa parte, para adultos.

É preciso valorizar o autodomínio. Aprender o valor da mortificação: um “não” ao que nos ata e prejudica, para poder dizer “sim” ao que nos faz amadurecer e nos realiza.

É preciso aprender a exercitar-se diariamente, desde  infância e a adolescência, em pequenas mortificações (também as relativas à ordem nas roupas e gavetas; à pontualidade nos horários, especialmente à hora de levantar e de dormir; aos tempos razoáveis de assistência à tv, de navegação na Internet, de brincar com videogames,  etc.). Sem isso, sem essa disciplina, não pode haver formação nem caráter firme, não se pode forjar uma personalidade verdadeira. Pelo contrário, lutando, perdendo o medo da mortificação e da disciplina imprescindível – e sempre com a ajuda de Deus -,  será possível formar homens e mulheres  de caráter, que sejam donos de si mesmos.

 

(Adaptação de trechos do livro de F. Faus: Autodomínio)