Fidelidade à vocação

SOBRE A FIDELIDADE À VOCAÇÃO
(palestra para seminaristas, 2012)

I. Vocação e correspondência

1.1 Toda vocação é, essencialmente, uma iniciativa de Deus, assim como toda a obra da Redenção é iniciativa do Amor de Deus: Nós amamos porque ele nos amou primeiro (1 Jo 4, 19). A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores ( Rom 5, 8), Ele deu tudo “antes”, sempre dá tudo antes. Nele [em Cristo], Deus nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e íntegros diante dele, no amor […](cf. Ef 1, 3-6). Não fostes vós que me escolhestes… (Jo 15, 15).

Bento XVI fala do mistério do “coração de um Deus que se comove e oferece todo o seu amor à humanidade. Um amor misterioso, que nos textos do Novo Testamento nos é revelado como incomensurável paixão de Deus pelo homem” (Homilia inaugural do Ano Sacerdotal, 19-VI-09).

“O primeiro gesto divino – diz o Papa –, revelado e concretizado em Cristo, é a eleição dos que crêem, fruto de uma iniciativa livre e gratuita de Deus […]. Comovo-me ao meditar esta verdade: desde toda a eternidade, estamos diante do olhar de Deus e Ele decidiu salvar-nos. E esta chamada tem como conteúdo a nossa santidade” (Audiência geral, 6/7/2005).

1.3 A nossa vocação para o sacerdócio é um grande dom eterno e gratuito do Amor de Deus. A vocação dos Apóstolos mostra isso de maneira clara, diáfana. Todos eles são “surpreendidos” por Cristo, que os procura, os chama e lhes faz ver que os tinha escolhido desde toda a eternidade (p.e. mal vê Simão, irmão de André, fala-lhe como a um conhecido íntimo, e lhe dá o nome novo que trazia desde sempre no coração, Cefas: Jo 1, 42).

Neste sentido, São Paulo, usando uma expressão já clássica entre os Profetas do A. T., falará da sua vocação, dizendo: Mas quando aprouve àquele que me reservou desde o ventre de minha mãe, e me chamou pela sua graça… (Gal 1, 15).

1.4 Essa vocação é, por definição, um “seguimento”, consiste em “seguir” a Cristo: Segue-me (cf. Mt 9,9; Mc 1, 17; Lc 18, 22, etc, etc.). A resposta à chamada divina, é o início de uma nova vida, de um rumo completamente novo: todos os planos anteriores ficam para trás, definitivamente (Abandonaram a barca e seu pai e o seguiram (Mt 4, 22); Atracando as barcas à terra, deixaram tudo e o seguiram. [Levi] deixando tudo, levantou-se e o seguiu (5, 26), etc.).

O sacerdote – diz Bento XVI – passa a ter uma existência “em Cristo, por Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. Precisamente porque pertence a Cristo, o presbítero encontra-se radicalmente ao serviço dos homens: é ministro da sua salvação, nesta progressiva assunção da vontade de Cristo na oração, no “estar coração a coração” com Ele. Assim, esta é a condição imprescindível […], que exige a participação na oferenda sacramental da Eucaristia e a obediência dócil à Igreja. (Audiência geral, 24-VI-09).

1.5 A partir do momento em que os chamados correspondem à vocação, ficam entregues a Deus os planos pessoais, e, ao mesmo tempo, nãohá no vida um roteiro pré-estabelecido por Cristo, que vá servir de pauta detalhada para o novo caminho da vida. O caminho é o próprio Cristo, dia a dia, e o roteiro são, em cada momento, os seus passos. Eis que nós deixamos tudo para te seguir – dirá Pedro –. Que haverá então para nós? (Não sabia o que viria, nem Cristo lhe explicou com detalhes: Jesus disse-lhe apenas que não ficaria sem nada, mas teria o cem por um: cf. Mt 19, 29).

Diariamente somos chamados à conversão. Para que conversão? Converter-se para ser sempre mais autenticamente aquilo que somos. Conversão à nossa identidade eclesial para que o ministério seja totalmente consequente a tal identidade, a fim de que uma renovada e gozosa consciência do nosso “ser” determine o nosso “agir”, ou melhor, ofereçamos espaço a Cristo Bom Pastor, a fim de que viva em nós e atue através de nós. (cf. D. Mauro Piacenza, Secret. Congr. Clero, Carta, 1-VI-09)

1.6 É importante lembrar que, na hora da grande crise, após o discurso do Pão vivo, quando muitos abandonam o Senhor, Jesus também não explica nada aos Apóstolos desconcertados. Limita-se a pedir-lhes de novo confiança na chamada, abandono e entrega total em suas mãos: Vós também quereis ir embora? – diz-lhes. E Pedro responde: Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens palavras de vida eterna, e nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus (Jo 6, 67-69).

“Também para os presbíteros– disse Bento XVI – vale o que escrevi na encíclica Deus caritas est: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo […] … os presbíteros se convertem em testemunhas permanentes do seu encontro com Cristo»” . (B XVI, Audiência geral, 1-VII-09).

1.7 A fidelidade à vocação tem, pois, essas características inequívocas:

a) é uma resposta confiante, baseada na fé, com o futuro totalmente nas mãos de Deus;
b) é uma renúncia total à “vida própria” e às “coisas próprias”;
c) é a disposição de seguir Jesus aonde quer que fores (Mt 8, 19), sem “seguro de imprevistos”, sem “condições”, coisa que Jesus, hiperbolicamente, expressa a um que queria segui-lo [como recordava há poucos dias a liturgia da Missa]: Um dos seus discípulos disse-lhe: “Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai”. Jesus, porém, respondeu: “Segue-me e deixa que nos mortos enterrem seus mortos: Mt 8, 21-22).

1.8 A fidelidade, a correspondência à vocação, só pode ser entendida através dessa “ótica evangélica”. Haverá sempre – como veremos depois –, a tentação de aplicar à vocação e às dificuldades ou problemas que o caminho da vocação apresenta uma “ótica humana”, análoga à ótica com que se analisam os problemas relativos a escolhas meramente mundanas (p.e. a escolha de profissão, do tipo de lazer, de hobby, etc.); ou, então, a tentação de buscar nas ciências humanas (psicologia, sociologia, etc.) a resposta decisiva aos problemas que se experimentam no caminho vocacional, respostas que só podem ser alcançadas pela fé e o amor, ou seja, que só Deus nos pode dar.

II. Características da fidelidade à vocação de seguimento de Cristo

2.1 A) A fé. A fé está em primeiro lugar, é importante repisá-lo. Sei em quem acreditei – diz São Paulo em momentos difíceis –, e estou certo de que ele é poderoso para guardar até aquele dia o bem a mim confiado (2 Tim 1,12).

2.2 Neste sentido, falando da vocação de São José, Bento XVI diz que a ele (como a Maria) se poderiam aplicar as palavras de Jesus ressuscitado a Pedro, que recolhe o último capítulo de São João: Serás levado para onde não queres ir (Jo 21, 18). E comenta: “José não tomou posse da sua vida: deu-a. Não realizou um plano que tivesse elaborado com luzes próprias e posto em prática com a sua vontade, mas entregou-se às mãos dos desígnios divinos, entregou a sua vontade à vontade de outro, a uma vontade maior, à própria Vontade divina. Pois é exatamente quando isso acontece, quando o homem se perde a si mesmo, que ele se encontra a si mesmo […]. Assim José, o homem que se perde a si mesmo, o homem que renuncia, que por assim dizer segue por antecipação o Crucificado, mostra-nos o caminho da fidelidade” (Homilias sobre os santos, Quadrante 2007, pp. 19-20).

2.3 B) A renúncia à vida própria, à vontade própria. Há uma passagem do Evangelho que, vista na perspectiva da vocação, lança uma grande luz. No final do Sermão da Montanha, como um grande fecho do discurso, Jesus diz:

Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor!”, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos Céus. E, a seguir, faz uma consideração que todo aquele que foi chamado com uma vocação de seguimento de Cristo, numa entrega total, deveria meditar: – Naquele dia [o do Juízo], muitos vão me dizer: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? Então, eu lhes declararei: “Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. (Mt 7, 21-23).

São palavras fortes, mas límpidas. Ser fiel não é:
– fazer o “meu plano bom e bem intencionado”
– nem “fazer o bem do meu jeito”
– nem “viver a vocação como eu desejo vivê-la”,
mas realizar o “plano” que Deus me pede, assumir o “modo” de seguir a Cristo que ele deseja e me indica com palavras de obediência, com acontecimentos, com fatos, com contrariedades, com alegrias e inspirações inesperadas…

Já disse alguém que, se queremos ser fiéis, devemos estar dispostos a não ser o “santo” que nós desejaríamos, mas o “santo” que Deus quer que sejamos, e que quase nunca coincide com o”nosso”.

C) A decisão de seguir Jesus aonde for, sem condições

2.4 Na prática, esta exigência da fidelidade autêntica é a mais difícil. Mas, sem ela, não há fidelidade.

2.5 Exemplo dessa decisão incondicional é, sobretudo Maria (como também José, como víamos). Deus a chama na Anunciação, e depois Deus a “leva”, a vai conduzindo sem lhe dar explicações: Que fazer com José, que sofre agoniado ao perceber a gravidez dela? Será possível que Deus queira que seu Filho Unigênito nasça num estábulo, como um miserável? Por que o Redentor, que terá o trono de Davi, seu pai (Lc 1, 32) se oculta e vive durante quase trinta anos a vida de um pobre carpinteiro de uma aldeia minúscula? Por que Jesus não explica de modo convincente por que ficou no Templo e deixou Maria e José agoniados durante três dias? Por que se deixa apanhar, condenar num juízo iníquo, maltratar horrivelmente, ser humilhado, destruído, e morre entre desprezos e risadas?

Não esqueçamos que Maria “passou” por isso tudo, que este foi o caminho da sua vocação traçado por Deus, não por ela. Pensemos um pouco. Se nós passássemos pela quinta parte desses acontecimentos perturbadores, desses sofrimentos, dessas humilhações…, que faríamos? A quantas andariam a nossa fé e o nosso amor à vocação?

Por muito menos, por muitíssimo menos, já houve, ao longo da história da Igreja, muitos que duvidaram da vocação, que a negaram, que se revoltaram contra ela e acabaram despejando o seu ressentimento contra a Igreja ou contra o ambiente de Igreja onde Deus lhes abriu o caminho vocacional…, se não é que se revoltaram contra o próprio Deus…

2.6 No entanto, Maria não cessou jamais de dizer fiat! O Evangelho nos mostra que lhe custou entender acontecimentos dolorosos e aparentemente absurdos (no Nascimento, p.e.), e diz explicitamente que, quando Jesus se deixou ficar três dias no Templo, Maria e José não compreenderam o que ele lhes dissera (Lc 2, 50). Mas, com tudo isso, Maria não perdeu a fé nem a certeza da vocação.

Nessas horas duras, o que fez foi aproximar-se ainda mais de Deus Pai com a oração, com o desejo de compreender melhor a sua Vontade. Meditou, orou, para assim poder renovar melhor o seu fiat, a sua fidelidade, a sua disposição de ser sempre aquela escrava do Senhor que deseja que, na sua vida, se realize apenas a sua palavra, o seja, que Deus tenha a palavra e marque o rumo em tudo. Maria conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração (cf. Lc 1, 19 e 2, 51).

2.7 Esta é a perspectiva cristã. No caminho da vocação, Deus é quem vai na frente como Bom Pastor: Eu sou o Caminho (Jo 14, 6). A pessoa que vive da fé, acredita nele, crê na Providência e, quando aparece na vida a Cruz, a injustiça, o cansaço, a solidão, a incompreensão, a sensação de inutilidade e fracasso…, não desanima nem abandona o caminho, não renega da vocação nem se recusa a continuar. Pelo contrário, imita Maria.

Então descobre que cada fato, cada circunstância ou acontecimento, mesmo que seja incompreensível e escuro, acaba se tornando – para quem reza e luta por ser fiel – numa “noite transparente”, que, com a luz do Espírito Santo, permite ver mais longe, enxergar estrelas novas. Vê melhor do que antes, o rosto de Cristo! E compreende o que significa tomar a Cruz com amor, até se tornar “outro Cristo”.

2.8 As pessoas que perderam o sentido sobrenatural da vocação, afirmam que é impossível dizer um sim para toda a vida, porque é impossível saber o que virá… Podem vir coisas – dirão ainda – que, se nós as tivéssemos sabido de antemão, nunca teríamos dito um sim para sempre. São “psicologismos” sem fé, apenas raciocínios humanos. Bem dizia São Paulo que “o homem natural [animalis homo] não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar”. Por isso, consideram a “loucura da Cruz”como “loucura” e “escândalo”, e não veem que é “para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus”(cf. 1 Cor 123-25).

III. As provas da fidelidade

3.1 Deus sempre põe à prova a nossa fidelidade, para fortalecê-la e torná-la mais sobrenatural, e isso não é um mal, é um bem: Considerai uma grande alegria, meus irmãos – diz São Tiago, na sua Carta –, quando tiverdes de passar por diversas provações, pois sabeis que a prova da fé produz em vós a constância [perseverança, fidelidade]. Ora, a constância deve levar a uma obra perfeita: que vos torneis perfeitos e íntegros, sem falta ou deficiência alguma (Tg 1, 2-4). E, em termos análogos, São Paulo escreve que nos ufanamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada e a virtude provada desabrocha em esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rom 5, 3-5).

3.2 Há, na vida, provações, tentações, que são queridas ou permitidas por Deus. Essas provações podem ser interiores, espirituais ou psicológicas: aridez, angústia, amargura, depressão; podem ser corporais, como uma doença física ou um acidente que nos deixa limitados fisicamente; ou podem ser externas, como uma perseguição, uma calúnia, uma injustiça, uma grave dificuldade financeira, etc.

3.3 Os seguidores de Cristo sofreram todas essas tribulações. [[Basta pensar em São Paulo: Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; por toda a parte e sempre levamos em nosso corpo a mortificação de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal (2 Cor 4, 8-11). Muitas vezes esteve, por assim dizer, à beira de uma “quebra”, de um afundamento (cf. 2 Cor 1, 8-9), mas, com a ajuda de Deus, tirou da provação forças novas e maior santidade. Todos lembramos que, em momentos de “desespero” por causa de uma limitação que ele julgava importante, Paulo ouviu de Jesus: Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente […] Por isso…, me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então sou forte (2 Cor 12, 9-10). A provação o fez crescer]].

3.4 Mas, ao lado das provações ou tentações queridas por Deus, há as tentações “provocadas” ou “alimentadas” por nós. Essas constituem um sério perigo para a fidelidade, pois, se não reagimos, se não nos “convertemos”, recorrendo à graça e lutando sinceramente contra a nossa “cumplicidade”, podemos afundar-nos no pecado, cair na cegueira da mente e do coração de que fala a Escritura (cf. Mt 13, 14-15), e acabar na infidelidade à vocação.

4.4 Não se trata aqui de desenvolver o tema ascético da luta espiritual contra as tentações. Mas, antes de terminar, sim parece útil recordar que, quase sempre, o caminho que leva à infidelidade e ao abandono da vocação, tem a sua origem em alguma das seguintes faltas de amor a Deus:

a) em primeiro lugar, na tibieza, no desleixo da oração e da penitência; na desordem, omissão, superficialidade e preguiça na vida espiritual;

b) na falta de guarda vigilante – amorosa, face a Deus – do coração e dos sentidos. Como dizia São Josemaria Escrivá, o coração foi feito para amar, e se aqueles que dedicaram a vida a Deus não o preenchem com muito amor a Deus e às almas, o coração se vinga e se enche de terra – de carne e de egoísmo sentimental e sensual –; começa a procurar afetos humanos, e a buscar no sexo compensações para preencher o vazio e a tristeza da vida que, fora do amor de Deus, vai ficando sem sentido;

c) do orgulho, e sobretudo do ressentimento, especialmente se a pessoa se sente incompreendida, injustiçada, maltratada pelos seus superiores ou irmãos na vocação, e não é capaz de praticar a compreensão, a desculpa e o perdão.

4.5 Para finalizar, não esqueçamos que Cristo nos disse que, no final da nossa peregrinação terrena, quando chegar a hora de Ele nos julgar, vai olhar sobretudo para a nossa fidelidade e a nossa entrega ao próximo: Muito bem, servidor bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor (Mt 25, 21). Vinde, benditos de meu Pai, porque tive fome e me destes de comer, etc. (Mt 25, 34 ss.).

4.6 Deus faça que, como São Paulo, possamos dizer, ao terminar a nossa vida e missão neste mundo: Combati o bom combate, terminei a minha corrida, fui fiel (2 Tim 4, 7).

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