Lições da Oração no Horto

LIÇÕES DA ORAÇÃO NO HORTO

Faça-se a tua vontade

O primeiro passo da Paixão de Cristo foi a Oração no Horto de Getsêmani.  Uma oração que consistiu num imenso ato de amor, pois toda ela foi uma luta árdua, apaixonada e dolorosa, para unir a sua vontade humana à vontade do Pai, um sim ao sacrifício da Cruz pela salvação dos homens.

Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; não se faça contudo a minha vontade, mas a tua (Lc 22,42).

Jesus sofria, mas amava mais do que sofria. Custava-lhe dar a vida por nós entre os tormentos da Paixão. A sua luta interior – a sua agonia – foi tão grande que, com estremecimento do corpo e lágrimas (cf. Heb 5,7) , chegou a suar sangue. Mas o “faça-se”, o “sim” amoroso, prevaleceu: «Por nós homens e para a nossa salvação».

Para penetrarmos melhor no mistério dessa oração, é bom lembrar-nos de que começou  – como narra São Marcos – com umas palavras que são a chave para compreender tudo o mais: Abá, Pai, tudo te é possível… (Mc 14, 36). O evangelista quis conservar-nos a expressão original que Cristo utilizou naquela noite para começar o seu diálogo com o Pai. Abá é uma palavra aramaica – essa era a língua que Jesus falava – usada pelos filhos, especialmente pelas crianças, para se dirigirem carinhosamente a seus pais. É o equivalente às nossas expressões “papai”, “paizinho”…

O detalhe é revelador. Por ele percebemos que, antes de pedir nada e antes de aceitar qualquer coisa, existia no coração de Cristo uma convicção, que nEle era clarividência absoluta: a de que Deus é um Pai infinitamente amoroso e, portanto, tudo o que dEle possa vir é bom; tudo é – ainda que por modos e vias cheios de mistério – um dom de amor paterno.

Esta plena lucidez era, nEle, prévia a qualquer reação ou atitude. Jesus sabia de antemão que tudo o que viesse do Pai seria um bem. Não hesitou, por isso,  em abrir-lhe confiante o coração, que relutava perante o cálice da dor; mas estava simultaneamente pronto para aceitar seja o que for – seja feita a tua vontade –, com disponibilidade total. Jesus “consumará” a vontade do Pai ao lançar o último suspiro na cruz; e lançá-lo-á com paz – ousaria afirmar que com íntima alegria, compatível com a dor –, como se exclamasse: “É bom, é bom ter cumprido a tua vontade, Pai, é maravilhoso poder morrer dizendo: tudo o que me pediste está consumado” (Jo 19, 30).

Esta disposição, que na alma de Cristo nascia da clarividência decorrente da sua união com a segunda pessoa da Santíssima Trindade, em nós tem que provir da luz da fé. É sempre a partir da fé que se torna possível entender, amar e até mesmo desejar a cruz que Deus, nosso Pai, nos quiser enviar.

 

Entender mesmo sem compreender

 

Um homem pode não estar entendendo nada quando o sofrimento o envolve como uma venda escura; mas, se é um filho de Deus que tem fé, sabe – sabe, mesmo sem o compreender – que toda a cruz querida ou permitida por Deus Pai é positiva, é construtiva, é uma cruz que salva. E, como São Paulo, pode afirmar com segurança: Ora, nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus! (Rom 8, 28).

O conhecido psiquiatra vienense Viktor Frankl ilustra esta fé que “entende sem compreender” – justamente porque acredita e confia – por meio de dois exemplos.

O primeiro é tirado de uma experiência de laboratório. Vejamos o caso – dizia – do macaco ao qual se dá uma dolorosa injeção para extrair soro. Poderá compreender alguma vez por que deve sofrer? É impossível para ele acompanhar o pensamento do homem que o submete a essa experiência, porque o mundo do sentido e dos valores humanos lhe é inatingível; não pode penetrar nas suas dimensões.

Mas – acrescenta o cientista – porventura o nosso mundo humano não está, por sua vez, ultrapassado por outro mundo que não chega a ser totalmente acessível ao homem, mas cujo sentido – um sentido sobre-natural – é o único capaz de dar sentido à dor humana? Ora, a passagem para essa dimensão sobrenatural só pode fundamentar-se no amor. Tal coisa não é novidade. Existe até como que uma predisposição natural para tanto. Pensemos em alguém que sinta afeição por um cachorrinho e que, para bem do animal, tenha de submetê-lo a uma intervenção dolorosa. O cachorro olha para o dono cheio de confiança. Sem poder “saber” qual o sentido daquele sofrimento, o animal contudo “crê”, “confia-se” ao dono, e deixa fazer.

O segundo exemplo, tira-o Viktor Frankl da sua experiência clínica, e é comovente. Trata-se do relato de uma carmelita, vítima de uma forte depressão endógena: “A tristeza – conta ela – é a minha habitual companheira. Tudo o que faço pesa na minha alma como um peso de chumbo. Onde é que estão os meus ideais, toda a grandeza, toda a beleza, todo o bem para o qual, alguma vez, já se lançaram todos os meus esforços? Agora, um tédio sem fundo mantém prisioneiro o meu coração. Vivo como se estivesse suspensa no vazio. Há momentos em que até mesmo a dor me rejeita…

“No meio desta angústia, eu grito para Deus, o Pai de todos. Mas Ele também parece calar-se. Desejaria apenas uma coisa: morrer hoje mesmo, se fosse possível…

“Se eu não tivesse a certeza da fé, de que não sou a dona da minha vida, já a teria recusado muitas vezes. Com esta fé, toda a amargura da dor começa a mudar, porque quem pensa que uma vida humana deve ser um contínuo avançar de sucesso em sucesso, assemelha-se a um louco que para diante de um prédio em construção e se espanta de que se cave em profundidade lá onde deve ser erguida uma catedral. Deus constrói para si um templo em cada alma humana. Comigo, Ele começou a cavar os alicerces. O meu dever é tão só manter-me dócil aos seus golpes…”

A força da fé unida ao amor

A força da fé reside em que ela é um facho de luz que, já de antemão – antes que qualquer coisa aconteça –, nos assegura que de Deus não nos pode vir mal algum, e nos convida a procurar entender, nem que seja obscuramente, a razão divina, a finalidade espiritual e o sentido de cada sofrimento. Pois, como víamos, há a certeza prévia inabalável que a alma cristã possui, de que não há cruz sem sentido.

Em algumas ocasiões, irá clareando dentro de nós, como uma luz crescente, a convicção de que Deus nos trabalha por meio do sofrimento: desde o produzido por uma simples dor de cabeça ou um objeto perdido, até o causado por uma doença grave, um fracasso profissional ou a perda de um ser querido. Aos poucos, vamos adquirindo “a experiência de que a dor é o martelar do artista que quer fazer de cada um, dessa massa informe que somos, um crucifixo, um Cristo, o alter Christus (o outro Cristo) que temos de ser” (São Josemaria Escrivá).

Quantas virtudes não se temperam, como o ferro na forja, por meio do sofrimento! A dor pode pulverizar-nos ou fortalecer-nos, enlouquecer-nos ou fazer-nos sábios. Já dizia Camões que o amor dá às almas sofredoras “poder para entenderem, à medida dos males que tiverem”.

Em geral, não costumamos ver o valor do sofrimento na mesma hora em que nos acomete. Mas o cristão, movido pela fé, procura compreendê-lo num segundo momento, que é feito de oração, de reflexão na presença de Deus, talvez de lágrimas aprazíveis. Então, sim – ajudados pela graça –, podemos descobrir a mensagem divina daquela dor, e vamos compreendendo, cheios de esperança, que é uma oportunidade magnífica de elaborar, como a abelha, o mel de uma humildade mais profunda, de um abandono em Deus mais completo, de um amor mais amadurecido.

Em outras ocasiões, o Espírito Santo nos faz perceber o valor do sofrimento como meio de expiação dos nossos pecados: é a mão paterna e materna de Deus que nos limpa, nos purifica com a cruz redentora e nos prepara para o encontro pleno com Ele.

Assim via os seus padecimentos aquela mulher agonizante que São Josemaría Escrivá acompanhava, por volta de 1931, no Hospital del Rey de Madrid. Com muita frequência, o padre Escrivá visitava e atendia os doentes incuráveis que lá definhavam. Uma das pacientes sem remédio era “uma desventurada mulher, estragada pelo vício, de boa posição social no passado. Procedia de uma família aristocrática, mas tinha dissipado a sua juventude numa vida sórdida.

“Administrada a Extrema-Unção, o sacerdote ajudou-a a bem morrer, ao mesmo tempo que instilava na sua alma um orvalho de arrependimento: uma ladainha de louvores à dor, brasa divina que cauteriza, purifica e nos regenera de turvas sujidades.

“Ela, vencendo estertores, repetia feliz, muito feliz: «Bendita seja a dor! Amada seja a dor! Santificada seja a dor! Glorificada seja a dor!» – «Eu me lembrava – diria depois São Josemaría – de Maria Madalena; ela sabia amar»“ (Biografia de Vázquez de Prada).

 

 

F. Faus. Adaptação de um  trecho da obra Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens