O amor de São Josemaria ao Brasil

O Brasil aos olhos de um santo

O padre Antônio Vieira dizia, num sermão de 1669, que “os olhos vêem pelo coração”. Através de seu coração cheio de amor a Deus e de zelo apostólico é que, desde que aterrissou na nossa terra, em 22 de maio de 1974, São Josemaria viu o Brasil.

– «O Brasil! – exclamava diante de milhares de pessoas, no Parque Anhembi de São Paulo -. A primeira coisa que eu vi é uma mãe grande, bela, fecunda, terna, que abre os braços a todos, sem distinção de línguas, de raças, de nações, e a todos chama filhos. Grande coisa é o Brasil! Depois, eu vi que vocês se tratam de uma maneira fraterna, e fiquei comovido». 

ffaus2

Em 2002, ano do Centenário do nascimento de Mons. Josemaria Escrivá, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos lançou um selo comemorativo: à direita, o perfil da cabeça de Mons. Escrivá, olhando ao longe e tendo, como pano de fundo, a Basílica nova de Nossa Senhora Aparecida. À esquerda, ocupando o maior espaço do selo, a seguinte legenda, resumo das palavras que logo acima transcrevi: «O Brasil! Uma mãe grande, que abre os braços a todos e a todos chama filhos». O país inteiro, através do selo, pôde conhecer essa “declaração de amor”.

Eu posso afiançar que esse amor era sincero. Brasileiro naturalizado – por escolha e coração -, eu deveria ter um certo pudor de reproduzir louvores ao nosso país. No entanto, como sou testemunha direta e diária da sinceridade desse carinho de São Josemaria pela nossa terra, parece-me justo transcrever mais alguns dos seus comentários que, como veremos, não ficaram em simples louvor e, menos ainda, em bajulação.

Dia 25 de maio. Fazia menos de três dias que estava em São Paulo. Num encontro com casais, promotores de diversas iniciativas apostólicas, deixou vazar os sentimentos que já lhe enchiam de alegria a alma:

«Faz pouco mais de quarenta e oito horas que estou aqui e já aprendi muito. Aprendi que este país é um país maravilhoso, que há almas ardentes, que há pessoas que valem um tesouro diante de Deus nosso Senhor; que vocês sabem trabalhar e mexer-se; que sabem formar famílias numerosas, recebendo os filhos como o que são, um dom de Deus…»

«Tanta terra e tão fecunda, tão formosa! Eu creio que as vossas almas são como esta terra: aqui tudo é generoso, tudo é abundante; os frutos deste país são mais doces, mais fragrantes… E, depois, vocês têm os braços abertos a todo o mundo: aqui não há distinções. Poderíamos repetir palavras da Escritura: gentes de todos os povos aqui encontram a Pátria, uma Pátria amadíssima. Eu já me sinto brasileiro… Meus filhos, tenho um grande remorso: não ter vindo antes ao Brasil».

Era lisonja amável? Era apenas uma delicadeza cortês ou emotiva do hóspede de um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, onde era acolhido pela primeira vez com muito afeto?

Vamos ver, para entender corretamente as coisas, em que consiste esse “amor à primeira vista” no coração de um santo. Tudo o que é bom – os santos sabem disso mais do que ninguém – é dom de Deus. E tudo o que é dom de Deus, é uma responsabilidade, é um tesouro confiado para fazê-lo frutificar, como Cristo explica na parábola dos talentos (Mat 25, 14-30) . E, se os dons são grandes, as responsabilidades são grandes. Esta é a visão de um santo. Por isso, ao lado da “descoberta” das riquezas e belezas espirituais e materiais do Brasil, São Josemaria não cessou de puxar fortemente pelas responsabilidades. Vejamos algumas “amostras”:

– «Esta terra é grande, e precisa de temperamentos grandes em todos os setores, em qualquer labor, porque não há tarefa pequena…; pois então, toca a mexer-se, a fazer muitas coisas boas nesta terra, que é tão feraz».

«No Brasil há muito a fazer, porque há pessoas precisadas até das coisas mais elementares. Não só de instrução religiosa – há tantos sem batizar -, como também de elementos de cultura comum. Temos de promovê-los de tal maneira que não haja ninguém sem trabalho, que não haja um ancião que se preocupe porque esteja mal assistido, que não haja um doente que se encontre abandonado, que não haja ninguém com fome e sede de justiça, e que não saiba o valor do sofrimento».

Acima de tudo, dentro da perspectiva cristã, São Josemaria propugnava uma purificação, uma potenciação – por obra da graça divina e da generosidade humana -, das qualidades naturais dos brasileiros, uma transfiguração de valores naturais em valores cristãos:

– «Neste país – insistia -, naturalmente, vocês abrem os braços a todo o mundo e o recebem com carinho. Eu quereria que isso se convertesse num movimento sobrenatural, num empenho grande de dar a conhecer a Deus a todas as almas; de se unirem, de fazer o bem não só neste grande país, mas no mundo todo. Podem! E devem! E, dado que o Senhor lhes dá os meios, dar-lhes-á também a vontade de trabalhar».

Isso era no dia de Pentecostes, 2 de junho (o Padre partiria daqui em 7 de junho). E ainda nesse mesmo dia, no calor da festa do Espírito Santo, repisava: «Vocês têm que fazer sobrenaturalmente o que fazem naturalmente; e depois, levar esse empenho de caridade, de fraternidade, de compreensão, de amor, de espírito cristão a todos os povos da terra. Entendo que o povo brasileiro é e será um grande povo missionário, um grande povo de Deus, e que vocês saberão cantar as grandezas do Senhor por toda a terra».

Horizontes de um homem de Deus

Como vemos, o olhar espiritual de São Josemaria projetava-se, cheio de grandes esperanças, para horizontes infinitos. Usando uma frase que há anos ficou conhecida na tv, eu diria que, para ele, “o Céu era o limite”. Como os primeiros cristãos, via o mundo inteiro, até os confins da terra, como herança que Deus dá aos seus filhos (Cf. Salmo 2, 8).

Para ele, as palavras da despedida de Cristo antes da Ascensão que registra São Mateus, eram atuais, vivas e, como diz a Carta aos Hebreus, mais penetrantes que uma espada de dois gumes (Heb 4, 12): “Ide, pois, fazei discípulos entre todas as nações… Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28, 19-20).

Já no seu primeiro dia em São Paulo, em 23 de maio, quando pediram ao Padre que pusesse umas palavras encabeçando o caderno onde iria se escrever o resumo escrito da crônica desses dias, colocou estas palavras de Jesus na Última Ceia: Ut eatis! – Para que vades (“Eu vos escolhi e vos destinei para que vades e produzais fruto e o vosso fruto permaneça”: Jo 15, 16).

– Padre – perguntaram-lhe -, por que escreveu ut eatis?

– «Porque vocês têm que correr por este grande continente – isto aqui é mais que uma nação, que se chama Brasil e que estou amando com toda a minha alma – , para que daqui, depois, vão… ao mundo inteiro!».

«Ut eatis! Não só ao grande continente brasileiro. Ut eatis!, ao Japão; ut eatis!, a África, que é um continente que nos espera de braços abertos…». E continuava a falar-nos dos outros Continentes, para que sonhássemos com o mundo inteiro.

Esses horizontes ilimitados ficaram sintetizados num lema, que São Josemaria repetiu diariamente, e que para nós ficou sendo um programa que, com a graça de Deus, está sendo levado à prática: En el Brasil y desde el Brasil! – “No Brasil e a partir do Brasil!” Já faz tempo que, nos cinco continentes, há brasileiras e brasileiros do Opus Dei, cada vez mais numerosos, trabalhando a serviço de Deus, da Igreja e da humanidade.

E isso foi possível porque, primeiro no Brasil e depois pelo resto do mundo, o incentivo, a oração e – após o seu falecimento – a intercessão de São Josemaria lá no Céu tem alcançado de Deus os frutos que ele pediu, os frutos das suas orações e das suas bênçãos, especialmente de uma comovente bênção, com sabor de “bênção patriarcal”, que nos deu em 29 de maio:

– “Que vos multipliqueis:

como as areias das vossas praias,

como as árvores das vossas montanhas,

como as flores dos vossos campos,

como os grãos aromáticos do vosso café.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

[adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: São Josemaria Escrivá no Brasil]