Virtudes e realização

PARA TER VIRTUDES

1. VIRTUDES E REALIZAÇÃO

Responsáveis pela nossa vida

Quando lemos atentamente o Evangelho, percebemos que uma das coisas que Cristo nos lembra, de diversas maneiras, é que nós somos responsáveis pela realização da nossa vida.

Certamente, a “vida cristã” depende essencialmente de Deus. A própria vida humana, o fato de existirmos, já é um grande dom de Deus. E, muito mais ainda, o é a graça do Espírito Santo, que inicia, inspira, fortalece e orienta toda a realização do cristão (guiando-o até a meta, que é a santidade). Mas lembre-se de que esse dom da graça não é dado a uma pedra nem a um gato, mas a seres humanos, inteligentes e livres, que pensam e decidem, que podem dizer “sim” e dizer “não”. Precisamos, por isso, de corresponder livremente, voluntariamente, aos dons recebidos. Depende de nós fazê-los frutificar ou desperdiçá-los.

Para ilustrar a importância dessa correspondência, Cristo – em sua pedagogia divina – recorre a diversas imagens, para que todos o possamos entender.

Várias vezes, por exemplo, compara o nosso desenvolvimento cristão ao das sementes de trigo, que são um “dom” que o semeador lança à terra. Podem crescer, secar, deixar-se levar pelos pássaros ou sufocar pelo mato…; ou podem germinar e ir se desenvolvendo até dar o fruto pleno. Ser terra limpa, acolhedora e fecunda, depende de nós (cf. Mt 13, 4 ss).

“Nós somos o edifício de Deus”

Outra comparação, que tanto Jesus como São Paulo utilizam – e sobre a qual vamos nos deter agora –, é a da construção de um edifício. A vida cristã deve ser edificada como uma casa. Nessa empreitada, poderíamos fracassar por três motivos:

– Por ter um alicerce inconsistente, que não suporta o peso do edifício.

– Por ter um mau projeto de execução, que deixa a obra parada pela metade.

– Por ter um alicerce bom e um projeto excelente, mas pretender executá-lo com material ruim.

A falha do alicerce é mencionada por Cristo no final do Discurso da Montanha: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre rocha (Mt 7,24). Houve enchentes, chuvas torrenciais e vendavais, mas a casa não desabou, porque o alicerce era firme. Pelo contrário, aquele que escuta as palavras de Cristo e não as pratica constrói sobe areia: as tempestades derrubaram a casa, e grande foi a sua ruína (Mt 7,27)

Da segunda falha, a do mau projeto de execução, falou Jesus a uma multidão que o seguia. Se não me engano, foi a única vez em que Cristo se referiu a um homem ridículo, que move os outros a riso. Vamos ouvi-lo: Quem, dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que acabá-la? Não aconteça que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que viram comecem a zombar dele dizendo: “Este homem principiou a edificar mas não pôde terminar” (Lc  14,28-30). Quantas vidas ficam a meia construção!

A terceira falha, a dos maus materiais,  é descrita por São Paulo. Vamos vê-la com mais calma, pois pode esclarecer-nos o papel das virtudes na realização cristã.

São Paulo recolhe em parte as comparações anteriores do Senhor, quando diz: Nós somos edifício de Deus… Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Fica claro com isso que a nossa vida tem que ser edificada com o auxílio de Deus; e fica claro também que só a edificaremos bem se o alicerce for a fé em Cristo, a rocha da palavra de Cristo.

Mas a comparação de São Paulo vai além: Veja cada um, porém, como edifica…Se alguém edifica sobre este fundamento com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um ficará patente, pois o dia do Senhor [o dia do Juízo] a fará conhecer. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa; se pegar fogo, arcará com os danos (1 Cor, 3,9-15). Aqui menciona, simbolicamente, os materiais de construção: uns podem ser de grande qualidade; outros,  frágeis e perecíveis.

Você que acha dessas palavras de São Paulo? Talvez seja preciso esclarecer previamente duas coisas:

Primeira, que, se bem as virtudes são um importante “material de construção”, não o são só elas; também são “material” as orações, os sacramentos, os sacrifícios e as obras de caridade, etc. Mas não há a mínima dúvida de que as virtudes são um “material” imprescindível. A prova disso é que, quando a Igreja inicia um processo de canonização, a primeira coisa que estuda é a qualidade das virtudes do possível santo a ser canonizado.

Segunda, que o “dia” de que fala São Paulo é –como já apontávamos – o Dia do Juízo em que, sob o olhar de Deus, tudo ficará claro: o que é ouro, prata e pedras preciosas; e o que é apenas madeira, feno ou palha… Ao mesmo tempo, o Apóstolo faz uma alusão ao “fogo” purificador do Purgatório. Mas agora não iremos tratar disso.  Estamos centrando a atenção nesse valioso “material” que são as virtudes.

Ao longo destas páginas, não faltará uma breve consideração  sobre as virtudes teologais (fé, esperança e caridade). No entanto, o foco ficará concentrado nas virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança), e vamos deter-nos especialmente no que é preciso para adquirir e cultivar essas virtudes.

Um breve exame sobe o ouro e a palha

Muito embora estejamos ainda nas “preliminares” das nossas reflexões, penso que pode ajudar-nos  começar – para “aquecer o motor” – com um pequeno exame prático sobre o que é ouro e o que é palha nas nossas virtudes. Vejamos. Como é que responderíamos às seguintes perguntas?

Como anda a nossa fortaleza? Você acha que enfrenta os deveres e as dificuldades com o ouro da coragem? Ou fica com a palha da queixa e da reclamação? Sofre-as com a elegância do topázio e com a firmeza do diamante, ou, quando aparece a dor ou os problemas, a sua alma se racha como uma madeira carcomida? Você tem a prata de lei da paciência, ou o feno combustível da irritação e o desânimo perante as contrariedades?

A quantas anda a sua temperança? É o ouro da moderação no comer e no beber, da capacidade de dizer não à gula, à tirania da imaginação, da sensualidade, dos estados de  humor, da verborreia… Ou então é a palha do excesso na comida e da bebida, da obsessão mórbida pelo sexo, da preguiça e o desleixo no trabalho, das distrações constantes unidas a perdas de tempo, da moleza para acordar na hora certa, da autocompaixão…

E que dizer da nossa prudência? Quem é rico desse ouro? Sem dúvida, a pessoa responsável e previdente, que prepara com tempo os trabalhos, os deveres e a distribuição do tempo; que pensa, pondera, reza e pede conselho antes de tomar uma decisão importante; que age na hora certa; que emprega os meios para formar retamente a sua consciência sobre o certo e o errado… Pelo contrário, só tem feno e palha a pessoa que funciona sem reflexão, por impulso ou palpite; que vai, sem pensar, atrás do que “os outros” fazem; que se acha espontânea só quando satisfaz seus caprichos; que é escrava do que “todo o mundo” diz e faz, assumindo certas ideias e atitudes só porque acha que são “atuais”, sem avaliar se são “verdadeiras” e justas…

Por último, será que, no dia do Juízo, Cristo vai dizer que você viveu a justiça? Não acha que talvez lhe diga que acumulou muita palha combustível: maus juízos sobre os outros; difamações e calúnias; competitividade desleal no trabalho; prejuízos causados por irresponsabilidade no cumprimento do dever, por faltar à palavra dada, por enganar nas transações, por não colaborar em nada para que cessem as injustiças sociais … Pensando no ouro, convido-o desde já a ser mais justo para com Deus (honrá-lo, agradecer-lhe, obedecer-lhe, seguir os seus Mandamentos…); a ser exemplar e generoso no cumprimento dos deveres familiares, profissionais e sociais; a tratar com igualdade todas as pessoas, sem admitir discriminações; a não se deixar arrastar por preconceitos de qualquer tipo ou por preferências injustas… Só isso, por ora.

Como vê, há muito “material de construção” a “adquirir” e muito a “descartar”. Não permita que o dia do Juízo o encontre como aquele pobre homem que provocava o riso dos outros: Este homem principiou a edificar mas não pôde terminar (Lc  14,30).