Virtudes ou miragens

PARA TER VIRTUDES

2. VIRTUDES OU MIRAGENS

Aparências de virtude

Antes de falarmos do que é a virtude, vamos falar um pouco do que “não é”.

A definição mais simples – embora perigosa – de virtude é “hábito bom”, ou seja, uma qualidade que a pessoa tem e que se manifesta em certas atitudes e reações habituais, em determinadas condutas contínuas. Há, por exemplo, pessoas que têm uma amabilidade habitual, outras que geralmente estão de bom humor, outras que sempre cumprem os horários, outras que não descuidam a ordem material, outras que nunca ousam contrariar os outros…

Todas essas coisas, você acha que são virtudes? Podem ser, várias delas, mas nem sempre. Mais ainda, como veremos a seguir, podem ser pseudovirtudes que enganam, como as miragens no deserto, que aparecem à imaginação dos que morrem de sede como se fossem lagos reais.

Há vários critérios, muitos deles dados por Cristo, para desmascarar as falsas virtudes. Veremos a seguir alguns deles. Mas acho bom preveni-lo: com isso, não queremos identificar os defeitos dos outros nem assinalá-los com o dedo! Basta que identifiquemos os nossos.

Para melhor desmascarar as miragens, façamos uma classificação.

Tipos de miragens

As “virtudes” vaidosas

Nosso Senhor fala explicitamente delas. Já no início da sua pregação, no Sermão da Montanha, nos alerta: Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu  (cf. Mt 6,1). Quer dizer que, aos olhos de Deus, não têm valor as virtudes contaminadas pela vaidade.

Para serdes vistos!  Esse para diz tudo: fala das virtudes praticadas com uma finalidade vaidosa, que pode ser dupla.

virtudes-vitrine: vividas com fins de exibição, procurando glorificar a nossa imagem diante dos outros, indo atrás do aplauso, da publicidade, do louvor, ou da badalação para obter vantagens. Jesus corta pela raiz essa hipocrisia.

Lembre que, no Sermão da Montanha, Ele nos manda praticar a esmola sem tocar a trombeta, sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita, e assim teu Pai que vê o escondido, te recompensará.

Igualmente, não quer que oremos – que façamos as nossas práticas religiosas – para sermos vistos pelos homens, visando criar uma boa imagem espiritual, que os outros admirem, e talvez aproveitar-nos dela (quantas não fizeram isso para arranjar na igreja namorado bonzinho).

Por fim,  recomenda fazer sacrifícios sem “ar de vítima”, sem dar-nos importância nem cobrar o agradecimento dos demais: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto; assim, não parecerá aos homens que jejuas (cf. Mt 6,2 ss). Virtude vaidosa não é virtude.

virtudes-espelho.  A vaidade funciona também como um espelho onde nos contemplamos, no íntimo de nós, com admiração e inchaços de orgulho. Como fazia aquele de quem falava São Josemaria, que dedicou um livro a si mesmo, escrevendo: «A mim mesmo, com a admiração que me devo» (Sulco, n. 719). Ao envaidecer-nos com as nossas qualidades, estragamos o pouco bem que possa haver nelas.

Por causa disso, Jesus reprovou o fariseu, que subiu ao Templo intimamente ufano com as suas “virtudes”: Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como este publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros (cf. Lc 18,9-14). O publicano, tão desprezado, só agradecia a bondade de Deus e lhe pedia perdão. Este voltou para casa justificado, e não o outro (Lc 18,9-14).

E nós? Que me diz de nós quando repetimos “eu não tenho pecado”, “não faço mal a ninguém”, “não preciso me confessar”?

Hábitos rotineiros

Existem pessoas muito cumpridoras, tanto do dever profissional, como do atendimento das necessidades familiares e dos deveres religiosos. Não são irresponsáveis, não têm falhas graves. Mas fazem as coisas com uma rotina morna, como que forçados, sem alma. Nunca se renovam! Não se nota que estejam lutando por melhorar; estão sempre na mesma ou, melhor, estão “mofando” na mesma. Seu “cumprir” é um “cumprimentir”, para dizê-lo remedando um pensamento do Venerável Álvaro del Portillo.

Jesus se refere a eles quando cita estas palavras do profeta Isaías: Este povo somente me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15,7; Is 29,13). E também quando censura os mornos: Não és nem frio nem quenteTenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor (Ap 3,15; 2,4).

Na pessoa rotineira, que não tem amor criativo nem renovação de atitudes, não há virtude.

Inclinações temperamentais

Há outros que parecem ter virtudes excelentes, mas que não são virtudes, são apenas bons sentimentos ou inclinações temperamentais. Fazem coisas boas porque lhes “saem” sem esforço, porque correspondem ao seu “natural”, porque lhes são agradáveis e até os divertem. Quantas fachadas simpáticas têm essas características!

Mas, nestes casos, por trás da fachada veem-se dois sinais típicos da falsa virtude:

– o primeiro sinal e que não fazem nada por adquirir “outras” virtudes não sentimentais nem fáceis, que são muito mais importantes.  Pense no homem amável e sociável, pronto para ir visitar um amigo e ajudá-lo a passar um bom momento, mas que é preguiçoso, que trabalha mal e não cumpre os compromissos incômodos ou exigentes nem sequer com os amigos.

– o segundo sinal consiste em que têm dupla face. Fora de casa, dão vazão, por exemplo, à simpatia e a camaradagem temperamentais (por vaidade, ou simplesmente por prazer), mas em casa – onde mais do que o temperamento, é precisa a abnegação – são insuportáveis. Fazem lembrar aquela história do velório de um marido beberrão, “reclamão” e violento, que fazia da esposa um saco de pancadas. Os amigos de boteco rodeavam o caixão, compungidos, e comentavam de longe: “Que homem! Grande amigo! Era a amabilidade em pessoa! Sempre pronto para ajudar, bom coração, etc”. A esposa, ao ouvir isso, arregalou os olhos e pediu ao filho mais novo: – Joãozinho, vá até o caixão e veja se o defunto é mesmo seu pai…”.

Talvez a esses Jesus diria: Sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios [] de hipocrisia e de iniquidade (cf. Mt 23,27-28).

Virtudes-fogueira

Finalmente, neste quadro de miragens poderíamos colocar aquelas virtudes que são como uma fogueira de São João. Arde e ilumina durante uma noite. No dia seguinte, só restam cinzas. São febres efêmeras.

Lembro-me do que contavam há anos algumas pessoas que, infelizmente, foram mobilizadas para participar de uma guerra. Durante os combates, havia jovens soldados que mostravam exemplos espetaculares de bravura, de renúncia, de coragem. Mas, ao voltarem ao tempo de paz, eram incapazes de vencer a pequena batalha de acordar na hora certa para chegar às aulas na faculdade.

Também no Evangelho temos exemplos claros disso. São Pedro, na Última Ceia, diz a Jesus, com veemência e de coração: Darei a minha vida por ti! (Jo, 13,37), Ainda que seja preciso morrer contigo, não te renegarei! (Mc 14,31). Horas depois, não consegue nem acompanhar Jesus na oração no Horto, e o Senhor tem que lhe dizer: Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora? (Mc 14,37). E, após a prisão de Cristo, foge e nega-o três vezes. Tinha virtude emocional, ardor de bons sentimentos, mas faltava-lhe a firmeza da verdadeira virtude.

São muito apreciáveis essas virtudes emotivas, mas só elas – por mais sentidas que sejam – não fazem nem santos nem bons cristãos. O bom perfume das virtudes cristãs, como lembra São Josemaria, «faz-se sentir entre os homens, não pelas labaredas de um fogo de palha, mas pela eficácia de um rescaldo de virtudes: a justiça, a lealdade, a fidelidade, a compreensão, a generosidade, a alegria» (É Cristo que passa, n. 36).