Limitações e virtudes

[PARA TER VIRTUDES]

5. LIMITAÇÕES E VIRTUDES

Todos nós temos limitações e, como é natural, não gostamos delas: quer sejam limitações físicas ou intelectuais, quer sejam faltas de aptidão, de graça, de jeito, etc.

Talvez você pergunte: Que têm a ver as limitações com as virtudes? Responderei: Muito!

Primeiro, porque as confundimos facilmente com defeitos. Dos defeitos, nós somos responsáveis. Das limitações, muitas vezes, não. Por isso, deveríamos corrigir os defeitos, e aceitar humildemente as limitações que não podemos eliminar.

Mas, como você sabe, não é fácil lidar com as limitações. Elas nos humilham, nos aborrecem. Para conviver com elas precisamos de virtudes, e às vezes de virtudes bem grandes. Vamos ver quatro atitudes “virtuosas” que são necessárias para isso.

Primeira: A aceitação.

Vai conviver bem com as limitações aquele que as aceitar serenamente como a realidade da sua vida. Por outras palavras, se for humilde: se souber aceitar a realidade, se souber agradecer a Deus os dons recebidos (muito maiores que as limitações) e confiar nEle.

Ser humilde não é ser coitadinho. Isso seria ter “complexo”, coisa de psiquiatra (complexo de gordo, de baixo, de aleijado, de gago, de antipática, de feia…). A humildade – repito – é a verdade aceita com objetividade e fé. Essa virtude diz ao coração: Deus te ama, Deus sabe que você é assim, que não tem todas qualidades e capacidades que talvez desejaria possuir. Mas Ele lhe deu – se você souber enxergar – multidão de bens e potencialidades, que podem fazer de sua vida uma realização fantástica.

Talvez diga: Será? Olhe: comece a pensar nisso, a dar graças a Deus por tudo, e os olhos do coração se lhe abrirão.

Segunda: Superar o que for “possível” superar

            Existem, como sabe, limitações superáveis com um bom tratamento médico, cirúrgico, psicológico, etc.  (por exemplo, a miopia, a obesidade, a gagueira, a timidez…).

Outras, como sabe, não podem ser eliminadas. Tem que ser enfrentadas e “dar a volta por cima”, evitando entregar os pontos por causa delas. Isso só pode ser feito praticando virtudes.

Já ouviu falar em Helen Keller? Nascida no Alabama em 1880, ficou totalmente cega e surda em decorrência de uma doença manifestada aos 19 meses de idade. A genialidade da educadora Anne Sullivan conseguiu o “milagre” de que Helen falasse (inglês, francês, latim e alemão), chegasse a obter o título de bacharel em Filosofia, e se tornasse uma célebre escritora (autora de nove livros) e conferencista internacional, dedicada a um trabalho infatigável em favor dos portadores de deficiência. No Brasil, foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Morreu aos 87 anos.

Se você tem “complexo de limitado”, guarde essas frases de Helen Keller: «Nunca se deve engatinhar, quando o impulso é voar», «A felicidade não é alcançada por meio de gratificação pessoal, mas através da fidelidade a um objetivo que valha a pena». Que virtudes você vê aí? Sem dúvida, coragem, magnanimidade, tenacidade, esforço sacrificado, espírito de serviço, solidariedade, esperança…

Talvez você conheça outro exemplo, que também vou lembrar. Refiro-me a São João Maria Vianney, o Cura d’Ars. Habituado a trabalhar no campo e nada culto, percebeu que Deus o chamava ser sacerdote. Foi grande a sua dificuldade em seguir os estudos eclesiásticos. Graças à bondade e à paciência do velho padre Balley, que foi seu preceptor, conseguiu penosamente chegar ao término do curso e ordenar-se padre em 1815.

Como era considerado de pouca valia, foi encaminhado pelo bispo para uma paróquia insignificante da diocese de Lyon, o povoado de Ars. Após anos sem pároco, a aldeia estava espiritualmente “gelada”.

Em pouco tempo, graças à sua vida de intensa oração e penitência, ao seu esforço de estudo, à sua dedicação heroica ao atendimento de todos, visitando-os, passando até doze horas diárias ou mais no confessionário…, alcançou de Deus que o povo de Ars se tornasse católico fervoroso. Sua fama transcendeu e começaram a acorrer para Ars verdadeiras multidões de toda a França, de outros países da Europa e até do outro lado do Atlântico, para ouvir os sermões daquele padre rural, emagrecido pelos jejuns, confessar-se com ele e pedir-lhe conselho.

São João Vianney podia ter dito: “Coitado de mim. Sou um pobre homem, um ignorante (ele dizia isso de si mesmo), não sou brilhante quando prego, não sou doutor em teologia…”, e contentar-se com ir tocando a burocracia paroquial. Mas teve fé, teve amor, teve constância, teve zelo, teve caridade ardente … Teve virtudes! E aquele pobre padrezinho de aldeia é hoje o padroeiro de todos os párocos do mundo.

Terceira: Ter fé nas “pequenas possibilidades”

Vou lembrar dois exemplos, que falam por si sós.

O monge agostiniano alemão, Gregor Johannes Mendel (+ 1847) é reconhecido mundialmente como o “pai da genética”. Biólogo apaixonado pela pesquisa, não conseguiu trabalhar na universidade alemã. Podia ter desistido, mas não o fez. Pacientemente, alegremente, discretamente, escolheu um cantinho do jardim do mosteiro agostiniano de Brünn, e lá – numa pequena horta – começou a fazer as suas experiências com ervilhas. Dessas experiências, que duraram anos, nasceram as famosas leis de Mendel, origem e referência de toda a ciência genética.

Quando lamentamos de maneira estéril as nossas limitações, talvez esqueçamos que sempre temos uma “horta de Mendel” descuidada, deixada às urtigas. A fé e o idealismo podem descobrir-nos essa “horta” no campo familiar, religioso, profissional ou social. Só o idealismo e as virtudes da responsabilidade, da laboriosidade, da persistência, da luta esforçada a farão florescer e dar fruto.

Outro exemplo: São João da Cruz. Uma perseguição injusta o arrastou para um cárcere imundo. Todos os dias era chicoteado e insultado. Mal comia. Suportava frios e calores estarrecedores. Para ler um livro de orações, tinha que erguer-se nas pontas dos pés sobre um banquinho e apanhar um filete de luz que se filtrava por um buraco do teto.

Pois bem, foi nesses meses de prisão, num cubículo infecto, que ganhou o perfeito desprendimento, alcançou um grau indescritível de união com Deus e compôs, inundado de paz, a Noite escura da alma e o Cântico espiritual, obras que são consideradas dois dos cumes mais altos da mística cristã. E, uma vez acabada a terrível provação, quando se referia aos seus torturadores, chamava-os, com sincero agradecimento, “os meus benfeitores”.

Percebe? Por mais limitações que tenha, um cristão pode viver todas as virtudes, tornar-se um santo e irradiar mais bem no mundo do que os personagens que ganham mais destaque nas páginas dos jornais.

 

Quarta: Descobrir o sentido vocacional das limitações

Cometem um erro terrível aqueles que, por sofrer uma limitação mais séria, julgam que a sua vida não tem valor, e caem no que São Josemaria chamava a «mística do oxalá». Perdem-se na amargura de imaginar o que poderiam ter sido, “se” não tivessem aquela desgraça… : “Oxalá não fosse doente!” “Oxalá tivesse forças para trabalhar como Fulano!” “Oxalá não tivesse essa incapacidade para o estudo!”… Com essas nostalgias, com esse mundo interior de inveja e lamentos, perdem as virtudes – porque não as praticam – e perdem a vida.

No entanto, é somente na vida real onde podemos descobrir a Vontade de Deus e, portanto, a nossa vocação cristã para a santidade em cada momento. Como era tocante a alegria que São Josemaria transmitia a muitos doentes graves, quando lhes lembrava: «Deus agora lhe pede que santifique a sua vocação de doente». E os ajudava a ver que o Senhor contava muito com eles, como um tesouro, como uma poderosa fonte de energia espiritual para o bem da Igreja e do mundo, só pelo fato de aceitarem e oferecerem  a Deus com amor o seu sofrimento, a sua união à Cruz de Cristo.

Dizia ele em São Paulo, em junho de 1974, que a circunstância de se estar doente não limita as possibilidades de ser santo e de fazer apostolado: «Padre, eu estou doente… Por isso mesmo! Os doentes são filhos de Deus amadíssimos: têm mais ocasiões que ninguém de oferecer ao Senhor mil coisas, de sorrir…»” E recordava a seguir os anos em que sofreu de um diabetes grave. Referindo-se a si mesmo na terceira pessoa, dizia: «Conheci um pobre homem, um pecador, que durante dez anos esteve diabético, muito doente; podia morrer de um momento para outro. Quando sorria – e sorria quase sempre –, custava-lhe muito, mas é preciso sorrir, é preciso tornar a vida amável aos outros! Só com isso atrais as almas».

O momento mais grave dessa sua doença deu-se em Roma, em abril de 1954. Naquela época, os alunos do Colégio Romano da Santa Cruz – Centro internacional de formação do Opus Dei –, convivíamos com ele e o víamos quase todos os dias.

A sua fé, o seu espírito de oração constante, a sua doação incansável, o seu esquecimento próprio, mesmo quando estava exausto, a vibração com que falava de Deus, o carinho com que sempre nos acolhia, a solicitude por todos e cada um (éramos mais de cem)… – tudo isso ungido por um sorriso sereno –, arrastava-nos para Deus e para o desejo ardente de dar a vida para servir a Igreja e as almas. Estas eram as virtudes de um santo “limitado”

Limitações? Não, definições. Da mesma forma que os limites de um terreno definem o que se pode fazer nele. E , mesmo que seja pequeno, lá se pode erguer um monumento genial de arquitetura ou um jardim de beleza única, que imortalize o criador.