Um veneno: orgulho

[PARA TER VIRTUDES]

7. UM VENENO: O ORGULHO

“Inimigos domésticos”

Vamos entrar, neste capítulo e no seguinte, no ponto mais escuro do túnel, nos porões da alma. Não é agradável. Mas seria covardia que você e eu, leitor, recusássemos olhar-nos nesse espelho sombrio, para podermos reagir depressa caso nos vejamos um pouco retratados nele.

Porque os dois vícios que vamos focalizar nestes capítulos são como um veneno que dá cabo das virtudes, ou causa uma paralisia que as entrava: o orgulho e o hedonismo.

Há certos defeitos que têm apenas surtos esporádicos, talvez fortes, como a raiva daquele amigo que me dizia, brincando: “Em casa, eu só tenho uma explosão de ira por semestre”. Não é desses que tratamos agora, mas de duas atitudes daninhas que brotam da própria raiz do egoísmo, e que, por isso mesmo, nos afastam mais radicalmente do amor.

À diferença de outros, esses dois vícios – orgulho e hedonismo − afetam “todas” as virtudes, como uma infecção generalizada. Muitas vezes, matam. E sempre desestruturam a personalidade. Alguns os chamam de “inimigos domésticos”, porque se infiltram no mais íntimo de nós, por assim dizer, se inoculam “no sangue”.

A soberba: a antítese do amor

            Bento XVI comentou certa vez que cada um de nós traz, dentro de si, uma gota do veneno da serpente do Paraíso. Fazia alusão ao pecado original, um pecado de orgulho – de soberba −, que levou os primeiros pais a rejeitar Deus com um ato de desobediência. Acabamos de comentar esse episódio bíblico no capítulo anterior.

Rebelando-se contra Deus, o homem fica fechado no círculo da adoração e do culto ao seu “eu”. Tudo gira à volta dele, e não aceita interferências. Essa independência de Deus é destrutiva, porque corta a “conexão” vital com Aquele que é a fonte do ser, da vida, do bem, da bondade…; e, assim,  como diz um teólogo, o homem «se condena ao absurdo, pois uma liberdade sem Deus só pode destruir o homem» (J. L. Lorda, Antropologia sobrenatural, p. 37).

A soberba faz com que as virtudes saltem fora dos eixos do amor a Deus e do amor ao próximo. Com isso, se corrompem: ou se acabam, ou se falsificam.

Como diz o livro do Eclesiástico (Sirácida), o orgulho é odioso diante de Deus e dos homens […]. É  o princípio de todo pecado (Eclo, 10,7.15).

“Odioso diante de Deus”

Ainda no livro do Eclesiástico lemos: O início do orgulho num homem é renegar a Deus, pois o seu coração se afasta daquele que o criou (10,14-15).

O veneno da serpente, que continua a sussurrar sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal (Gn 3,5), atua nos corações e os leva, entre outras coisas,  a:

− Desprezar Deus e as coisas de Deus. É a atitude de indiferença do autossuficiente, que – como diria o poeta Antonio Machado − «despreza quanto ignora». É o orgulho dos que dizem, com o aprumo típico da ignorância: “Religião já era”, “Você ainda acredita?”, “Eu escolho a minha verdade!”, “Ninguém tem que me dizer o que é certo ou errado!”…

− Leva também a acreditar em Deus com a boca e na teoria, mas a considerá-lo supérfluo na vida real. “Para quê levar tão a sério a fé, para quê ter uma vida espiritual constante, para quê aprofundar no Evangelho e na doutrina cristã, para quê estudar a doutrina da Igreja?” Quando muito, aceita-se Deus como um criado, que deve ficar a postos quando o chamamos na hora da aflição, para que nos resolva problemas.

− O orgulho leva ainda à criação de uma cultura e uma política, de uma legislação e uma mentalidade, que expulsa Deus e o coloca no banco dos réus, fora da lei. A verdade moral e os Mandamentos de Deus (por exemplo, sobre o matrimonio, a família e a vida) tornam-se crime. Quem os defende cai na execração da mídia e na condenação dos tribunais. E muita gente boa, amedrontada por essa ditadura da falsidade, desiste de defender a verdade abertamente e se acomoda ao “politicamente correto”.

“Odioso diante dos homens”

Algum vez comparei o coração a um instrumento de corda. Quando as cordas são tocadas pela bondade e a sinceridade, saem de dentro as notas do amor. Quando quem toca é o orgulho, saem do coração as notas da discórdia, da mágoa, da raiva, da inveja, da incompreensão…, em suma, da falta de caridade.

É bom pararmos uns instantes e escutar, na presença de Deus, o som das nossas cordas. Pelos sons cacofônicos, poderemos deduzir os tons do nosso orgulho.

O orgulho “toca” o coração com o desejo exorbitado de sobressair, de ficar por cima, de ser valorizado, acatado e estimado; com a ânsia de se sentir superior aos outros ou, pelo menos, nunca inferiorizado; é a incapacidade de aceitar qualquer coisa que fira o nosso amor-próprio ou rebaixe a nossa imagem. Com esses sentimentos, como é difícil o amor ao próximo!

É bom desmascarar esse inimigo e, como diz a Escritura, caçar as pequenas raposas que destroem a vinha (Ct 2,15). Se procurarmos lutar por detectar e combater o pequeno orgulho, evitaremos que domine o grande. Vejamos alguns traços dessas “raposas”:

–Sermos suscetíveis por minúcias. Qualquer coisinha nos ofende, nos melindra. «Os pobrezinhos dos soberbos – diz São Josemaria – sofrem por mil e uma pequenas tolices, que o seu amor-próprio agiganta…” (Sulco, n. 714).

– Ser  teimosos: julgando que estamos sempre com a razão, «desprezamos o ponto de vista dos outros» (ibid., n. 263), e somos incapazes de não dizer a “última palavra” nas discussões.

– Queixar-nos de não ser compreendidos, ao mesmo tempo que julgamos temerariamente e com dureza os demais.

− Ter uma preocupação constante pela nossa “imagem”: fazer “pose” e sofrer perguntando-nos a toda hora: “fiquei bem?”, “fiz um papel ridículo?”, “que estarão pensando de mim?”

– Não perdoar, guardar ressentimento por longo tempo.

– Termos muito espírito crítico: uma tendência instintiva de ver o lado errado ou grotesco dos outros.

– Abusar da ironia e das gozações.

– Querer que os outros saibam, louvem e agradeçam as coisas boas que fazemos. Se não o fazem, perdemos o pique.

– Falar demais e escutar de menos. Ser o “sal de todos os pratos” (cf. Caminho, n. 48). Nas conversas, mostra-nos sempre “por dentro” e como quem sabe mais do que ninguém… E tantas coisas mais.

A humildade, fundamento das virtudes

Se o orgulho estraga tudo, a humildade vivifica tudo, cura tudo, protege tudo.

Escutemos o que Deus nos diz. Por três vezes a Bíblia repete estas mesmas palavras: Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes (Pr 3,24; Tg 4,6; 1 Pd 5,5). E por três vezes Jesus insiste em que todo aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado (Mt 23,12; Lc 14,11 e 18,14), ao mesmo tempo que nos pede: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29).

Você não se lembra do que disse Nossa Senhora na casa de Santa Isabel, ao levantar o coração a Deus num cântico de alegria? A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da sua escrava…Realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso (Lc 1, 46-49).

Também em nós Deus poderá realizar maravilhas, se encontra um coração humilde e desprendido. «A humildade – dizia Cervantes – é a base e fundamento de todas as virtudes, e, sem ela, não há nenhuma que o seja».

Na terra boa da humildade, todos os dons de Deus dão fruto. Na terra boa da humildade, todas as virtudes podem ser plantadas e crescer sadias, sem medo de pragas que as devastem. E acabam desabrochando em frutos agradáveis a Deus e ao próximo. Com razão dizia São Josemaria: «Pela senda da humildade vai-se a toda a parte…, fundamentalmente ao céu» (Sulco n. 282).