Mais sobre a alma das virtudes

[PARA TER VIRTUDES]

10. MAIS SOBRE A ALMA DAS VIRTUDES

Riquezas da seiva divina

Como acabamos de ver, a seiva que santifica o cristão e o transforma em filho de Deus – a graça do Espírito Santo –, é um dom divino. Mas esse dom não vem sozinho. Juntamente com a graça santificante e de modo inseparável, o Espírito Santo nos concede:

– As virtudes teologais (fé, esperança e caridade), que são virtudes “infusas”, capacidades sobrenaturais que Deus infunde na alma.

– E os sete dons do Espírito Santo (sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus).

As virtudes teologais e os dons, mais as virtudes humanas elevadas pela graça, constituem o que o Catecismo chama «o organismo da vida sobrenatural do cristão» (n. 1266).

Esse organismo espiritual pode estar vivo pela graça, “em coma” pela tibieza, ou morto pelo pecado. É preciso ter o organismo forte e sadio, pela correspondência à graça, porque só então seremos capazes de pensar, sentir e agir com Cristo e como Cristo, ou seja, como filhos de Deus; e teremos condições de crescer – como diz São Paulo – até o estado de homem perfeito, até a estatura de Cristo em sua plenitude (Ef 4,13).

As virtudes teologais

            As virtudes teologais, à diferença das humanas, não podem ser adquiridas pelo nosso esforço. O Catecismo lembra que «são infundidas por Deus na alma dos fiéis para torná-los capazes de agir como seus filhos e merecer a vida eterna» (n. 1813). Por isso se chamam “virtudes infusas”. Não se recebem como virtudes já perfeitas, maduras, mas como qualidades sobrenaturais que nos capacitam para realizar, livremente, atos de fé, de esperança e de amor, e para ir amadurecendo nesses hábitos.

As três virtudes teologais, ensina ainda o Catecismo, «adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina…; animam e caracterizam o agir moral do cristão; informam e vivificam todas as virtudes morais» (nn. 1812 e 1813).

Convém prestar atenção a esta última frase: «informam e vivificam todas as virtudes morais». Quer dizer que as virtudes humanas, juntamente com a graça que as eleva – como víamos no capítulo anterior –, recebem a influência sobrenatural da fé, da esperança e da caridade, que lhes comunicam sua “qualidade própria”, uma qualidade  cristã.

Concretamente, a prudência, a justiça, a fortaleza, a temperança, vivificadas pelas virtudes teologais, se tornam “virtudes cristãs” e passam a ser, como dizia Santo Agostinho, “atos de amor”; são o amor sobrenatural cristão em atividade (cf. Epístola 167,15).

Coisa análoga deve-se dizer dos dons do Espírito Santo, também infundidos gratuitamente por Deus. Diferenciam-se das virtudes teologais em que estas – como acabamos de lembrar – pedem-nos exercitar livremente a capacidade recebida de Deus, ou seja, fazer atos de fé, esperança e amor. Pelo contrário, os dons do Espírito Santo dependem totalmente de Deus e a nós somente nos pedem (e não é pouco!) acolhimento e docilidade. «São – diz o Catecismo – disposições permanentes que tornam o homem dócil para seguir os impulsos do Espírito» (n. 1830).

Já desde tempos antigos utilizava-se a seguinte comparação. As virtudes são como os remos de uma barca: quer a barca, quer os remos, são dom de Deus, mas nós temos que navegar remando. Os dons do Espírito Santo, pelo contrário, são comparados às velas do barco. Não somos nós que lhes damos o impulso, mas o sopro do Espírito (cf. Jo 3,8). Da nossa parte, precisamos ter as velas  (as boas disposições) desfraldadas, para acolher prontamente as moções e inspirações – os “sopros” – de Deus.

Influxo das virtudes teologais sobre as morais

Lembremos mais uma vez que o Catecismo diz que a fé, a esperança e o amor «informam e vivificam todas as virtudes morais» (n. 1813):  dão-lhes uma “forma”, uma “vida”, um “estilo” divinos.

Vamos exemplificar esse influxo, abrindo breves janelas de observação sobre a ação de cada uma das três virtudes teologais nas virtudes humanas.

Uma janela sobre a fé

Sem entrar em sutilezas teológicas, e só para nos entendermos, podemos dizer que a fé consiste em ver tudo – Deus, o homem e o mundo – “com os olhos de Cristo”. Assim rezava com frequência São Josemaria: «Que eu veja com teus olhos, Cristo meu, Jesus da minha alma!».

A pessoa que tem fé pode dizer como São João: Nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele (1 Jo 4,16). Essa fé viva torna-se uma força poderosa para praticar em alto grau uma série de virtudes humanas, como a coragem, a doação, o espírito de sacrifício, o desprendimento, a fidelidade, a abnegação… Nenhuma contrariedade nos abala, então, porque sabemos, pela fé, que existe a Providência divina, que Deus nos ama e tudo encaminha para nosso bem (Rm 8,28)

O homem de fé não hesitará em abraçar renúncias a serviço do ideal cristão de santidade e de apostolado – a virtude da abnegação –, e até em entregar-se totalmente a si mesmo  – exercitando as virtudes da fortaleza, da generosidade e da coragem –, a vida inteira para servir a Deus e aos irmãos.

Uma janela sobre a esperança

A virtude teologal da esperança é suporte poderoso para a alegria e o otimismo, qualidades humanas que todos desejaríamos ter. Ela faz crescer, inclusive acima das forças humanas, as virtudes da magnanimidade (que leva a aspirar a metas altas e difíceis), da audácia (que enfrenta e vence o medo), da humildade (que não é covardia nem desânimo, mas consciência da nossa fraqueza que pode contar com a força de Deus).

A esperança vivifica também a virtude da mansidão (que passa por cima da ira, da tristeza e da revolta); e a virtude da serenidade perante a morte, sabendo que depois dela, se formos fiéis, nos espera o abraço eterno de Deus. E eleva a um novo patamar a paciência em face da dor, pois, para o cristão que tem esperança, a Cruz é fonte da graças para esta vida e para merecer a vida eterna.

Por isso, São Paulo exclamava: Se Deus é por nós, quem será contra nós?… Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? …Mas em todas essas coisas somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou! (Rm 8, 35.37).

Uma janela sobre a caridade

A caridade é a virtude que funde inseparavelmente o amor a Deus e o amor ao próximo. «É a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e ao nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus» (Catecismo, n. 1822). Jesus deu a vida por nós – escreve São João –; e também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos (1 Jo 3,16).

A caridade – ajudada pelo dom de sabedoria – faz-nos colocar, com muita alegria, o amor de Deus acima de qualquer outro amor, desejo ou prazer. Ela engrandece, assim, a virtude humana da fidelidade, e, com  ajuda do dom de ciência, vivifica a prudência, ajudando a discernir, em todas as circunstâncias, qual  é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito (Rm 12,2). Ela, enfim, como já vimos, dá o cunho de plenitude a todas as virtudes humanas do cristão: a caridade – como diz São Paulo − é o vínculo da perfeição (Cl 3,14), o laço que enfeixa e liga todas as virtudes na haromia perfeita do amor.

Quando consideramos a caridade na sua segunda dimensão  – a do amor ao próximo –, percebemos que ela vitaliza especialmente as virtudes humanas que se referem ao relacionamento com os outros, como expõe maravilhosamente São Paulo no capítulo 13 da primeira Carta aos Coríntios: A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Cor 13,4-7). Um elenco de virtudes humanas que a caridade desperta, fortalece e impregna de valor sobrenatural.

Com isso, terminamos estas breves reflexões sobre a “seiva” das virtudes. Tudo o que comentamos poderia resumir-se nesta frase-síntese de São Josemaria: «Nada aperfeiçoa tanto a personalidade como a correspondência à graça» (Sulco, n. 443).