Formação: conhecer e amar

PARA TER VIRTUDES]

12. FORMAÇÃO: CONHECER E AMAR

Continuando a nossa reflexão anterior (Cap. 10), vamos considerar agora que a formação  começa pelos olhos, que veem o exemplo das virtudes; passa pelo coração, que se encanta com elas; e chega até à cabeça, que as quer compreender.

As virtudes entram pelos olhos

Falávamos do exemplo dos pais e educadores. É verdade que aquele que não “viu” as virtudes “ao vivo” nessas pessoas, ou pelo menos em colegas e amigos, não consegue entender nem a importância nem a essência das virtudes. Vê a moral das virtudes só como um conjunto de imposições, de mandamentos frios ou de teorias.

A pessoa que teve uma mãe que sabia escutar pacientemente, que não se queixava das dores e problemas, que não soltava as rédeas à indignação, que animava muito mais do que exigia, que sabia desculpar os erros dos filhos, ensinando-os a se corrigirem…, essa mãe fez entrar pelos olhos dos filhos muitas virtudes, com uma beleza que eles nunca esquecerão: a paciência, a mansidão, a fortaleza, a compreensão, a humildade, o otimismo…

“Ver”, como é fácil compreender, é algo decisivo. Pois bem, onde podemos enxergar o máximo exemplo e a maior beleza das virtudes? Sem dúvida, na vida de Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem (Símbolo Quicumque).

Contemplar as virtudes de Cristo

Um meio de formação insubstituível para ver e amar as virtudes é  “contemplá-las” em Cristo, na vida de Jesus tal como a mostram os Evangelhos. Uma pessoa que nunca se tenha emocionado, que nunca tenha feito descobertas felizes e vibrantes ao contemplar a vida de Jesus e enxergar as suas virtudes, com certeza ainda está no “prezinho”, se não no “pre-natal” da vida cristã.

São Paulo fala, com razão, da insondável riqueza de Cristo (Ef 3,8). Por mais que se conheça e medite a vida de Nosso Senhor, nunca se acaba de descobrir tudo, a “sonda” nunca atinge o fundo.

É por aí que deve começar a formação nas virtudes: “descobrindo-as” em Cristo, meditando-as na sua vida, deixando que seu exemplo mexa com as fibras mais íntimas da alma, e mova a vontade a agir. Já refletiu, por exemplo, em frases do Evangelho como estas:

Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29).  Não viu a humildade de Jesus na sua vida de trabalho no lar de Nazaré? E a sua paciência humilde e carinhosa com os pecadores, até mesmo com os que o crucificavam? E a humilhação da Paixão, aceita por nossa salvação?

 

Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei (Jo 15,12). Como é que nos amou Jesus? Nunca o verá pensando em si, mas apenas dando-se. Não se poupou. Deu até a última gota do sangue pelo nosso bem. Realizou o que ensinou: Ninguém tem maior amor que o que dá a vida por seus amigos (Jo 15,13).

 

Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, assim façais também vós (Jo 13,15) Palavras que Jesus disse após lavar os pés dos Apóstolos, ato que simboliza uma atitude constante de sua vida: o espírito de serviço. Lembra-se de como Ele falava disso? Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servidor…, assim como o Filho do Homem [Cristo], veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida para redenção de muitos (Mt 20,26-28).

 

São apenas algumas “amostras”. A riqueza do Evangelho, inesgotável e inexplorada, está à espera da sua leitura e meditação diária.

Conhecer as vidas dos santos

Falamos de Cristo e devemos convir em que nenhum cristão pode refletir plenamente todas as virtudes dEle.

Mas os santos têm uma particularidade. Em todos eles, Cristo se reflete, melhor do que em qualquer outro cristão. “Eu vi Deus num homem”, dizia um descrente após visitar o Santo Cura d’Ars.

Mas, será que Cristo inteiro se reflete em cada santo? Não. Todos nós, também os santos, somos limitados e cheios de falhas. Deus, porém, espelha em cada um dos santos algumas virtudes, que destacam entre as outras muitas que eles praticaram com uma luminosidade intensíssima.

Tais virtudes concretas, por um lado, são a “carteira de identidade” de cada santo,  o traço marcante da sua personalidade cristã; por outro, são “cátedras” para aprendermos o ensinamento de Jesus sobre essas virtudes específicas.

Por exemplo, em São Francisco de Assis destacam as virtudes cristãs – aprendidas de Cristo – da pobreza e da humildade; em Santa Teresa de Ávila, o amor à oração e uma incrível coragem; em São Francisco de Sales, a mansidão e a arte de compreender as almas; em São Filipe Neri, a alegria e o bom humor dos filhos de Deus; na Madre Teresa de Calcutá, a caridade heroica; em São Josemaria Escrivá, o amor ao trabalho santificado e à grandeza da vida cotidiana; em São Thomas More, a lealdade aos ditados da consciência e a fidelidade à Igreja…

Leia boas vidas de santos (aconselhando-se com quem possa dar-lhe orientação), assista a filmes sobre alguns deles (há muitos bons). Verá que os santos lhe ensinam com a vida mais do que muitos livros.

As virtudes “descem” dos olhos ao coração

Todo aquele que viu a beleza das virtudes (em Cristo, nos santos, em outras pessoas boas) tem os mesmos sentimentos que os discípulos de Emaús, depois de terem sido esclarecidos por Jesus: Não é verdade que o coração ardia dentro de nós, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24,32).

O coração que vê virtudes autênticas, as admira e as deseja. Nasce e cresce dentro dele a vontade de procurar, de aprender, de praticar essas virtudes, de fazer delas os verdadeiros “valores” da vida; e de ajudar outros a fazerem a mesma descoberta.

Só com esse calor do coração – que afinal é calor de amor, aquecido pela graça de Deus –, é que podemos empreender e manter a luta pelas virtudes, essa batalha que, como veremos, dura a vida inteira.

Lembro que São Josemaria falava disso com um exemplo bem expressivo. Recordava que alguns punhais e espadas antigos traziam gravadas estas palavras: «não confies em mim se te falta coração». Alertavam assim os que os empunhavam, fazendo-lhes ver que de nada lhes serviria ter uma boa arma e um braço forte, se lhe faltava o coração, ou seja, o ardor e a coragem próprios de quem está disposto a bater-se por amor a um grande bem: por amor a Deus, por amor à pátria, por amor à justiça, por amor à vida própria ou alheia …

Você já sentiu esse calor interior, que dá coragem e impele à luta, por árdua que seja? Se ainda não teve essa alegria, decida-se a abrir mais os olhos, a contemplar e admirar melhor os exemplos, até que a luz das beleza vista se torne chama no coração.

 

As virtudes “sobem” do coração à cabeça

Quando o coração arde em nós, aquecido pela beleza do bem contemplado, então experimentamos a necessidade de refletir seriamente sobre as virtudes, de entendê-las, de aprofundar intelectualmente o mais possível em cada uma.

Pense: Se lhe alguém lhe perguntasse “em que consiste a virtude da prudência”, que responderia? Se insistisse indagando qual a diferença entre prudência, cautela e covardia, você engasgaria? E se lhe pedisse que explicasse as diversas classes de justiça, ou quais são os campos da vida em que se deve exercitar a temperança, será que não gaguejaria?

É melhor reconhecer: “Não conheço quase nada”, “Não me ensinaram quase nada”, “Sou mais uma vítima da pedagogia do ´algodão doce´”…

Então, mãos à obra. A cabeça precisa de estudo, com um plano progressivo, que vá do mais simples ao excelente. Conhece o catecismo? Não me diga: “Já não sou criança”, porque responderei que a ignorância não é privilégio de nenhuma idade. Muitos, após os setenta anos, precisam aprender ainda o ABC da fé e da moral.

Sem esforço, nada se aprende. Vou sugerir-lhe três esforços, que estão ao alcance de qualquer um:

1º) Leia e medite a parte específica – breve – dedicada às virtudes no Catecismo da Igreja Católica (nn. 1803 a 1829), e no Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (nn. 378 a 388).

2º) Ganhe o hábito de ler diariamente uns minutos de um bom livro de espiritualidade. Em quase todos eles encontrará ensinamentos práticos sobre as virtudes.

Entre os mais clássicos, podem mencionar-se a «Introdução à vida devota [Filoteia]», de São Francisco de Sales; «A prática do amor a Jesus Cristo», de Santo Afonso Maria de Ligório; a coletânea de homilias de São Josemaria Escrivá sobre virtudes intitulada «Amigos de Deus», e o livro  «Sulco» (reflexões sobre virtudes humanas), do mesmo autor.

3º) Se desejar um aprofundamento maior, do ponto de vista filosófico e teológico, procure o livro «As virtudes fundamentais», de Joseph Pieper, e a obra «Fundamentos de Antropologia», de Ricardo Yepes Stork e Javier Aranguren Echevarria.

E nunca esqueça que, se descuida essa leitura e estudo, a explicação terá que descobri-la na frieza e preguiça do seu coração.