Luta: concretizar

[PARA TER VIRTUDES]

14.  LUTA: CONCRETIZAR

Resoluções, e concretizações

Toda resolução de conversão, de mudança profunda, tem que se desdobrar depois – como já apontávamos – em decisões concretas, em ações pontuais no dia a dia. Esses atos, uma e outra vez praticados, geram o hábito da virtude (cf. Catecismo, n. 1804).

Vamos focalizar, como início de reflexão, alguns exemplos simples, claros, que depois facilitem a nossa meditação.     São umas poucas amostras de atos de virtude “deliberados”, tirados dos escritos de São Josemaria Escrivá.

Três exemplos

Sobre a resolução de ter paciência

– «o sorriso amável para quem te incomoda»

– «a conversa afável com os maçantes e os inoportunos»

– «não dar importância cada dia a um pormenor ou outro, aborrecido e impertinente, das pessoas que convivem contigo» (Caminho, n. 173).

– «Esforça-te, se é preciso, por perdoar sempre aos que te ofendem desde o primeiro instante…» (Ibidem, n. 452).

Sobre a resolução de aproveitar o tempo

            – «Vence-te em cada dia desde o primeiro momento, levantando-te pontualmente a uma hora fixa, sem conceder um só minuto à preguiça» (Caminho, n. 191).

– «Se não tens um plano de vida, nunca terás ordem » (Ibidem, n. 76)

– «Não deixes o teu trabalho para amanhã» (Ibidem, n. 15)

– Esforça-te em «não deixar para mais tarde, sem um motivo justificado, essa tarefa que te é mais difícil e trabalhosa» (Amigos de Deus, n. 138)

– Luta para «conseguir encontrar o tempo de que cada coisa necessita» (Ibidem, n. 138)

Sobre a resolução de praticar a castidade

            – «Deus concede a santa pureza aos que a pedem com humildade» (Ibidem, n. 118). [Pense que, às vezes, esse “pedir” terá que ser intenso e cheio de fé].

– «Podemos ser castos vivendo vigilantes, frequentando os Sacramentos [Confissão e Comunhão] e apagando as primeiras chispas da paixão, sem deixar que ganhe corpo a fogueira» (Ibidem, n. 124)

– «Não tenhas a covardia de ser “valente”; foge!» [“foge” de uma pessoa que te tenta, ou de uma ocasião, ou de outros perigos de tentação difícil de vencer: como a pornografia da Internet ou da tv; ou flertes no Face-book; ou festas em que se costumam cometer muitas faltas contra essa virtude…] (Ibidem, n. 132).

– «Não se pode andar fazendo equilíbrios nas fronteiras do mal» (Amigos de Deus, n. 186)…

São apenas três exemplos de decisões concretas, propósitos práticos, que bastam – por ora – para nos mostrar que as resoluções de melhorar nas virtudes devem concretizar-se continuamente

Quatro pontos básicos

Critérios que deveríamos ter em conta, para conseguirmos essas lutas concretas e eficazes:

            Primeiro: «Onde não há mortificação, não há virtude» (Caminho, n. 180).

Não se podem conquistar virtudes sem mortificação, sem fazer o esforço necessário para vencer, com sacrifício, os impulsos dos vícios que se opõem a elas: moleza, gula, sensualidade descontrolada, mau humor, falta de ordem, etc.

Mortificar é negar – “matar” – um mal, único modo muitas vezes de garantir um bem. Pense só num exemplo muito atual: quando numa empresa, o chefe, por causa de seu orgulho, é grosseiro e injusto com seus subordinados, só poderá empreender o caminho da conversão e da virtude cristã se – depois de pedir a ajuda de Deus – se decidir a mortificar seus impulsos interiores, seus comentários, seus gestos de arrogância e de desprezo, que o levam a humilhar os outros..

Segundo: «Não “pudeste” vencer nas coisas grandes, porque não “quiseste” vencer nas coisas pequenas» (Caminho, n. 828).

Estamos num ponto crucial. Os hábitos virtuosos são fruto de muitos atos concretos. Pense na virtude da coragem. Arriscar a vida para salvar a vítima de um incêndio é um ato heroico. Mas apenas essa ação isolada – por admirável que seja – não gera essa virtude. Só há um jeito de alcançá-la: fazer esforços “cotidianos”, que exijam coragem: dizer sempre a verdade, ainda que fiquemos mal; aceitar as dores e sofrimentos sem queixar-nos; sermos fiéis à ética profissional em cada assunto com risco de ganhar menos; ter a valentia de defender a fé em ambientes onde se zomba dela…

Aquele que é fiel nas coisas pequenas – diz Cristo – será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á também nas grandes (Lc 16,10).

São Josemaria faz-se eco desse ensinamento do Evangelho de maneira expressiva: «Viste como levantaram aquele edifício de grandeza imponente? – Um tijolo, e outro. Milhares. Mas, um a um. – E sacos de cimento, um a um. E blocos de pedra, que são bem pouco ante a mole do conjunto. – E pedaços de ferro. – E operários trabalhando, dia a dia, as mesmas horas… – Viste como levantaram aquele edifício de grandeza imponente?… À força de pequenas coisas!» (Caminho, n. 823).

Terceiro:  Aquele que não ama permanece na morte (1 Jo, 3,14)

Já sabemos que não há virtude cristã se não é inspirada pelo amor: pelo amor a Deus, pelo amor ao Bem, pelo amor ao próximo (cf. Cap. 9). Sem isso, a virtude é como uma fruta de plástico, quase igual à verdadeira… mas sem valor.

Perguntemo-nos: Por que faço as “coisas boas”? É por amor ou por costume? Ou será por “voluntarismo”, isto é, para provar a mim mesmo que sou capaz de fazer o que me proponho?

São Josemaria, que já foi chamado “mestre da luta ascética”, insiste nessa condição vital das virtudes:

Para o cristão – ensina – «luta é sinônimo de Amor» (Sulco, n. 158), luta é «esforço sempre renovado de amar mais a Deus, de desterrar o egoísmo, de servir a todos os homens» (É Cristo que passa, n. 74).

            Quarto: «Exame. –Tarefa diária» (Caminho, n. 235)

Como a saúde da alma, a saúde do corpo precisa de acompanhamento. O diabético – se não é um suicida – acompanha constantemente a glicemia; o cardíaco está sempre de olho na pressão; muitas outras enfermidades exigem o cuidado de tomar diariamente os remédios prescritos.

Também precisam de acompanhamento muitas coisas profissionais: andamento das obras, estado das contas, vigilância nos prazos, atualizações técnicas, estar em dia com a legislação…

É lógico. O que não é lógico é que não haja o mínimo acompanhamento na construção da nossa personalidade humana e cristã, no desenvolvimento das virtudes.

Falamos de virtudes, de resoluções de mudança, da necessidade de desdobrá-las em concretizações pontuais, em “atos deliberados!”. Certo. Mas a verdade é que muitas vezes, quando se trata de lutar pelas virtudes na vida familiar, na educação dos filhos, na melhora do caráter, na correção das falhas de relacionamento humano, na vida espiritual …, não concretizamos nada ou quase nada. Tudo fica à mercê da espontaneidade do momento, das vontades, do ânimo mutável. Então, o que acontece é que praticamos o que é mais espontâneo em nós: o mau gênio, a apatia, a vontade de dormir, o programa de tv, os caprichos e manias, as obsessões egoístas…

            Cristo fala muitas vezes da necessidade de vigiar. Põe como modelo os empregados vigilantes, que quando o patrão volta de viagem encontra a postos, com tudo em ordem, com as luzes acesas, e com a túnica cingida, prontos para trabalhar (cf. Lc 12, 35 ss). Jesus louva esses servidores fiéis e prudentes.  Mas tem palavras muito duras para aquele servo que, apesar de conhecer a vontade do seu senhor, não a preparou  (Lc 12,47).

Como preparar? Como acompanhar?

– primeiro defina bem o “combate” por uma virtude, a que veja mais necessária no momento: não corra sem rumo (1 Cor 9, 26)

– segundo: não fique dando golpes no ar (Ibidem). Reze, medite, e proponha-se lutas superconcretas. E anote-as (comprometa-se consigo mesmo!), fazendo uma lista breve. Por exemplo, para melhorar a virtude da ordem, anote “deixar todos os dias a roupa no lugar, e não largada”. Ou: para melhorar a gentileza em casa, “vou me esforçar por falar só de coisas amáveis e positivas com a minha esposa e os filhos, na hora do jantar”, etc.

– terceiro: não vá dormir sem antes ter verificado essa lista de propósitos. É um exame, um balanço particular, com o qual – como diz São Josemaria – «tens de procurar diretamente adquirir uma virtude determinada ou arrancar o efeito que te domina» (Caminho, n. 241).