Luta: perseverança

[PARA TER VIRTUDES]

15.  LUTA: PERSEVERANÇA

O poste e a árvore

O n. 1810 do Catecismo da Igreja Católica indica três meios de adquirir virtudes. Já comentamos os dois primeiros: «pela educação, por atos deliberados». Falta o terceiro: «por uma perseverança sempre retomada com esforço».

Não há perseverança em quem desiste ou interrompe o esforço antes de chegar ao fim. É preciso continuar para perseverar. Mas continuar, como?

Bem em frente da minha casa, erguem-se, muito próximos um do outro, um poste e uma árvore. Passados os anos, ambos “continuam” a estar lá. Mas o poste só “está”, cada vez mais escurecido pela  poluição, cada vez mais deteriorado. A árvore – uma pitangueira longeva – encontra-se, pelo contrário, em perene processo de renovação vital: cresce, aumenta em beleza e densidade de folhagem, cobre-se na primavera de inúmeras florzinhas brancas e oferece tantas frutas que, apesar da voracidade dos passantes, não se esgotam.

O poste é o símbolo da rotina. A árvore, da perseverança. Também  a árvore das virtudes precisa de seiva vital, de renovação, de crescimento, de recomeços primaveris, para dar frutos de amor e santidade.

Perseverança

São Josemaria, que tanto nos ajuda a pensar na luta pelas virtudes, escreve: «Começar é de todos; perseverar, de santos» (Caminho, n. 983).

E dá-nos pistas para perceber como é que deve ser a perseverança nessa luta. Vamos comentar algumas delas.

Perseverança refletida

            O ponto de Caminho que acabo de citar termina dizendo: «Que a tua perseverança não seja consequência cega do primeiro impulso, fruto da inércia; que seja uma perseverança refletida».

Para perseverar, a reflexão é muito mais importante do que a emoção. A vibração inicial com que partimos à conquista de uma virtude facilmente esmorece. Passado algum tempo, podem vir ataques de canseira, de pessimismo perante as dificuldades, complexos de fracasso, tentação de pensar que tudo foi mera ilusão e que nunca conseguiremos melhorar.

Pedro Rodríguez, na edição crítica do livro Caminho, esclarece que foi o Servo de Deus Álvaro del Portillo quem, sendo ainda um estudante, escreveu a São Josemaria: «Passou-me o entusiasmo». E que este respondeu-lhe, como se recolhe em Caminho (n. 994): «Tu não deves trabalhar por entusiasmo, mas por Amor; com consciência do dever, que é abnegação».

“Com Amor”, que se esforça por cumprir a vontade de Deus, mesmo a contragosto (cf. Jo 14,15 e 23); e com “consciência do dever”, que leva a refletir, a fazer oração, a exercitar a virtude da prudência pedindo conselho, para afinal encontrar a maneira prática de superar as dificuldades e os estados de ânimo negativos e formular propósitos eficazes de prosseguir na luta.

A força da contrição

            Existem duas formas de amar a Deus: entrega filial, generosa, à Vontade de Deus; e arrependimento amoroso. Todos nós falhamos muitas vezes, apesar dos bons propósitos. A maneira de perseverar, então, é reagir como o publicano e o filho pródigo, com um pedido de perdão a Deus – Ó Deus, tem piedade de mim, que sou um pecador; Tu sabes que eu te amo (Lc 18,13; Jn 21,15) –, unido à resolução de levantar-nos quanto antes (cf. Lc 15,18) e de voltar a lutar com confiança, sem renunciar à meta proposta.

«De certo modo – pregava São Josemaria −, a vida humana é um constante retorno à casa do nosso Pai. Retorno mediante a contrição, mediante a conversão do coração, que se traduz no desejo de mudar, na decisão firme de melhorar de vida e que, portanto, se manifesta em obras de sacrifício e de doação. Retorno à casa do Pai por meio desse Sacramento do perdão em que, ao confessarmos os nossos pecados, nos revestimos de Cristo e nos tornamos assim seus irmãos, membros da família de Deus» (É Cristo que passa, n. 64).

A força da humildade

            Uma das causas da desistência na luta é a amargura do fracasso: falhei de novo, não consegui me conter, não consegui calar, não consigo mudar… A autoestima vai para baixo.  Dois pensamentos de São Josemaria podem devolver-nos o ânimo.

Primeiro: «O cristão não é nenhum colecionador maníaco de uma folha de serviços imaculada. Jesus Cristo Nosso Senhor não só se comove com a inocência e a fidelidade de João, como se enternece com o arrependimento de Pedro depois da queda». O que Jesus deseja – acrescenta – é  «que saibamos insistir no esforço de subir um pouco, dia após dia» (É Cristo que passa, n. 75).

Segundo: Jesus quer que sejamos simples como uma criança (Mt 18,3). Como sabe, de uma criança não se esperam grandes “resultados” (como de uma empresa), mas a boa vontade de agradar os pais, ainda que seja de modo desajeitado. Deus, quando nos vê lutar humildemente, sem desistir, fica comovido, «conhecedor da nossa fraqueza, pensando: − Pobre criatura, que esforços faz para se portar bem!» (cf. Caminho, n. 267).

Impressiona saber que, três meses antes de falecer, já no término de uma vida santa, São Josemaria – como recorda D. Álvaro del Portillo − via-se a si mesmo «como uma criança que balbucia: estou começando e recomeçando… E assim, até o fim dos dias que me restem: sempre recomeçando. O Senhor assim o quer, para que em nenhum de nós haja motivos de soberba nem de néscia vaidade» (Instrumento de Deus, p. 18).

Enfrentar com humildade as nossas falhas, sabendo que Deus nos compreende, nos anima, e que nunca desiste de nos estender a mão, dá-nos forças para perseverar.

O otimismo

Somos “crianças que balbuciam”, pequeninos, comparados com a grandeza de Deus. Pense como seria absurdo que uma criança dissesse: “Sou um fracassado!” … Riríamos dela e, depois, a consolaríamos com ternura e a animaríamos. Pois bem, é assim que Deus age conosco quando nos vê humildes.

Por isso, se nos sabemos filhos de Deus muito amados (Ef 5,1), vamos combater com otimismo, independentemente dos resultados mais ou menos brilhantes que obtenhamos.

Cristo fará conosco como fez com São Pedro, após uma noite de pesca inútil. Dirá: Lança a rede guiado por mim (ou seja, continua pelo bom caminho dos teus propósitos e dos conselhos recebidos), e verás como acabas apanhando uma grande quantidade de peixes (Lc 5,6).

Aprendamos a dizer a Deus com confiança de filhos: «Viste como tudo faço mal? Pois olha: se não me ajudas muito ainda farei pior!… Quero escrever todos os dias uma página grande no livro da minha vida… Mas…saem da minha pena coisas tortas e borrões… De agora em diante, Jesus, escreveremos sempre juntos os dois» (Caminho, n. 882).

Além disso, o nosso otimismo, apoiado na fé, nos levará a compreender este aparente paradoxo: «Fracassaste! – Nós [os filhos de Deus] nunca fracassamos… Não fracassaste; adquiriste experiência. –Para a frente!»  (cf. Caminho, nn. 404 e 405).

Após cada tropeço, perguntemo-nos, com paz e confiança: Que aprendi com essa falha? Que experiência tiro deste “fracasso”? Talvez tenha acontecido que planejei mal o momento ou o modo concreto de fazer o que me propus (um tempo de oração, vencer um defeito, uma ajuda ao próximo). Talvez me propus coisas muito difíceis e preciso começar por algumas mais fáceis (em vez de me propor evitar toda e qualquer irritação, vou começar por evitar a irritação à mesa, quando alguém se atrasa). Talvez tenha feito muita força, mas tenha rezado pouco, esquecendo-me de que Jesus diz: Sem mim, nada podeis fazer (Jn 15,5).

O espírito esportivo

Isto nos levará a ter espírito esportivo, como ensina São Paulo a Timóteo: Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras (2 Tm 2,5). Ele procurava lutar bem, como se verifica pelo que escreve aos filipenses: Consciente de não ter ainda conquistado a meta, só procuro isto: prescindindo do passado  atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama em Jesus Cristo (Fl 3,13-14).

O bom esportista aprende com os fracassos, deixa-os para trás e volta a treinar, cada vez mais e melhor. Não se deixa afundar pela derrota. Tem “espírito esportivo”, sabe perder e sabe ganhar, e graças a esse espírito, acaba conquistando o prêmio.

« O bom esportista não luta para alcançar uma só vitória e à primeira tentativa – lembra São Josemaria −. Prepara-se, treina durante muito tempo, com confiança e serenidade: tenta uma vez e outra e, ainda que a princípio não triunfe, insiste tenazmente, até ultrapassar o obstáculo» (Forja, n. 169).

Como vê, o importante é perseverar, é querer lutar durante o tempo que for preciso – a vida toda −, sem jogar a toalha. O coach – o orientador espiritual – nos ajudará a definir a forma de melhorar o treino. E com a ajuda da graça, lhe diremos: «Peça que eu nunca queira deter-me no fácil» (Caminho, n. 39). Perseveraremos, e ouviremos estas palavras de Jesus: Aquele que perseverar até o fim será salvo (Mt 10,22).