Justiça nos pensamentos

 [PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

20.  GUIA: JUSTIÇA NOS PENSAMENTOS

1. Todos temos, desde crianças, um forte sentimento de justiça. Como dói à criança ser castigada pelo que não fez, ver que os pais não cumprem o que prometeram  ou que alguém lhe tire sem motivo o brinquedo preferido.

Tanto e mais que às crianças dói aos adultos: acusações falsas na escola ou no emprego, não receber o pagamento justo de um trabalho, ser roubado, explorado, traído, ser vencedor num concurso e perder a vaga para um “afilhado” da banca, ser vítima de cem formas de embustes, armadilhas, logros e enganos…

A mágoa profunda que nos causa a injustiça deve mover-nos a amar a virtude da justiça e a defendê-la sempre.

O Catecismo a define, sinteticamente, assim: «É a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido» (n. 1807).

Comecemos meditando que, antes de mais nada, é devido a cada pessoa o respeito à sua dignidade e a equidade nos juízos que fazemos dela.

2.  Respeito pela dignidade

Todo ser humano merece imenso respeito por ser imagem de Deus , criatura de Deus, filho de Deus – sobretudo se recebeu no Batismo a graça da “filiação adotiva” (Jo 1,12) −; por ser  portador desde a concepção de uma alma espiritual e imortal; porque é alguém por quem Cristo morreu, e que está destinado à bem-aventurança eterna (cf. Catecismo nn. 1702-1705) e 2 Cor 5,14-15).

Uma forma penosa de desrespeito é o desprezo. Cristo condena fortemente o desprezo com que certos  fariseus orgulhosos olhavam para os outros: Eles se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os demais (Lc 18,9).

E nós? Zombamos dos outros? Caçoamos? Ridicularizamos? Arremedamos deficiências deles (aleijões, gagueira, estrabismo, etc.) para provocar risadas? Já lhes preparamos armadilhas para que caíssem no ridículo?

Ou, o que é ainda pior: Desprezamos sua falta de categoria intelectual, profissional ou social? Sua incultura? E ainda pior: Discriminamos por motivos de religião, raça, idade, sexo, etc.

Deus não despreza ninguém: Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, dizia Jesus (Mt 18,10). Se fizemos alguma pessoa se sentir desprezada, pecamos contra a justiça, pisamos no direito ao respeito que todos os filhos de Deus, sem exceção, têm.

A Madre Teresa de Calcutá, exemplo maravilhoso de respeito e amor pelos mais rejeitados, dizia: «A maior pobreza não é a falta de dinheiro, ou a falta de pão e de comida, mas sobretudo uma fome terrível de reconhecimento da dignidade que cada um tem» (M. A. Velasco, ”Madre Teresa de Calcutá, p. 27).

Da Madre Teresa já foi dito que ela e as suas irmãs iam “além do amor”. Todo cristão deve amar o próximo por ver nele o próprio Cristo (cf.Mt 25,40). Mas não pode amar quem primeiro não respeita. Primeiro a justiça; depois − muito acima dela, mas nunca sem ela – a caridade.

Lembremos a “regra de ouro” que Cristo nos deu: Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas (Mt 7,12).

3. Evitar os juízos temerários

O juízo temerário consiste em atribuir ao próximo um erro, um crime ou um pecado, sem fundamento. Assim o define o Catecismo: «Torna-se culpado de juízo temerário aquele que, mesmo tacitamente [ou seja, mesmo interiormente, só com o pensamento], admite como verdadeiro, sem fundamento suficiente, um defeito moral no próximo» (n. 2477).

Jesus, que nos mandou: Não julgueis e não sereis julgados (Lc 6,37), dirigia-se com mágoa aos que faziam juízos críticos dele: Por que pensais mal em vossos corações? (Mt 9,4).

Fazer um juízo, sem base objetiva e comprovada, é esquecer que só Deus vê o coração, e, portanto, colocar-se numa posição que só a Deus corresponde. Madre Teresa dizia: «Por muito que vejamos os outros fazerem coisas que nos parecem erradas, não sabemos por que as fazem» (Ioc. cit. p. 27).

É tocante também o exemplo de outro santo dos nossos dias, São Josemaria Escrivá. Durante a fúria anticatólica da época da guerra civil espanhola, quando – como tantos outros padres− , era perseguido de morte, dizia aos que estavam refugiados com ele numa pequena legação diplomática:

«Em vez de nos precipitarmos a julgar o nosso próximo, e talvez a condenar duramente, temos que pensar no que seria de nós se tivéssemos estado no ambiente em que viveu o homem que julgamos, se tivéssemos lido os livros que leu; se tivéssemos sentido as paixões que o dominaram… Não nos basta como exemplo o caso de Paulo que, depois de ter sido perseguidor dos cristãos, foi exemplo para todos? Compreensão, pois; essa criatura, que talvez no nosso interior desprezamos e condenamos, quem sabe se, uma vez corrigida, purificada, convertida em espiga sã, não produzirá frutos mais saborosos do que nós?» (O homem             que sabia perdoar, Ed. Indaiá, pp. 51-520).

4. Seguir o caminho indicado por Cristo

A) Em primeiro lugar, para julgar sem cometer injustiça, é preciso fazer o  que Jesus indica: Por que olhas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar o cisco do olho de teu irmão (Mt 7,3-5).

Só podemos olhar bem para os outros com os nossos olhos purificados pela humildade e o arrependimento: primeiro, vejamos os nossos defeitos, que talvez sejam do mesmo tipo que nos incomoda nos  outros. É uma lição constante de Nosso Senhor: lembre, por exemplo, do episódio da mulher adúltera; Jesus cala-se diante dos acusadores odientos, e as primeiras palavras que diz são: Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra (Jo 8,7).  Primeiro, nós. Ter consciência de que somos pecadores, para não julgar por cima ninguém.

Fica claro que, para julgar serena e objetivamente, é necessário compreender, quer dizer, enxergar com humildade e sem preconceitos; mas sem incorrer  no erro oposto ao juízo temerário, que é o de pretender justificar o injustificável, e chamar santo ou normal o que ofende a Deus e aos próximo.

Não esqueçamos que uma coisa é “ver” e outra julgar, condenar. É inevitável que vejamos erros alheios, às vezes patentes e graves (crimes, abusos, injustiças); mas coisa diferente é condenar com ódio e agressividade contra a pessoa. Isso é anticristão.

B) Em segundo lugar, seguir, sempre que for possível, o conselho de Santo Agostinho: «Procurai adquirir as virtudes que julgais faltarem aos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque vós mesmos não os tereis».

C) Em terceiro lugar, agir. A primeira “ação” , a primeira atitude a ser tomada, é orar pelos que erram e perdoá-los. A segunda “ação” – quando possível –  é ajudar e, se for o caso, corrigir.

Reparemos como termina o texto de Jesus sobre o cisco e a trave: Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar o cisco do olho de teu irmão (Mt 7,5).

Cristo não diz só: Perdoa, sê humilde, esquece. Também diz: Tira o cisco, ou seja, age, faze o possível para ajudar o teu irmão que erra, e, quando é necessário, também para evitar que o seu erro cause dano a inocentes. Em resumo, é preciso:

─ rezar sempre pela pessoa errada (cf. Mt 5,44)

─ tentar corrigi-la fraternalmente, se há possibilidade disso: Se te ouvir, terás ganho teu irmão (Mt 18,15).

─ caso a caridade e a justiça para com terceiros o exija, após tentar corrigir sem êxito, tomar as medidas oportunas para coibir abusos, sem descartar a denúncia e outras medidas legais cabíveis (cf. Mt 18,16-17 e 6).

 

Questionário sobre os juízos temerários

 

─ «Um só é o legislador e juiz – escreve São Tiago –… Tu, porém, quem és para julgares o teu próximo?». Faço maus juízos dos outros, sem ter certeza nem razões sólidas para pensar desse modo? Imagino que têm intenções ruins, sem um fundamento claro?

─ Luto por repelir os preconceitos e a desconfiança ao pensar nos outros? Esforço-me por ver sempre o lado bom de todas as pessoas?

─ Percebo que julgar sem conhecer a fundo a alma dos outros — que só Deus vê — é quase sempre uma grande injustiça?

─ Antes de julgar os defeitos dos demais, procuro ver os meus e corrigi-los? Percebo que só a pessoa humilde, que se conhece um pouco a si mesma, tem condições de olhar para os outros com compreensão?

─ Compreendo que muitos maus juízos e preconceitos nascem das marcas que deixam na minha alma o orgulho, a inveja, a susceptibilidade?

─ Guardo ressentimentos dentro do coração? Esqueço-me de que Cristo nos disse: «Se não perdoardes aos outros, vosso Pai também não perdoará as vossas faltas»?

─ Quando tenho o dever de julgar o comportamento de meus familiares, subordinados, etc, faço isso sem ira, sem me deixar dominar pelo calor da indignação, procurando a maior objetividade possível?

─ Tenho o amor e a coragem suficientes para corrigir com delicadeza os erros das pessoas que dependem de mim, ou dos que confiam na minha amizade?

─ Compreendo que calar, quando se deveria corrigir para procurar o bem da pessoa que errou, pode ser muitas vezes uma deslealdade?

─ Os erros dos outros provocam em mim ira, desprezo e antipatia, ou despertam a responsabilidade de rezar mais por eles, de pedir a Deus que os ajude a abrirem os olhos e melhorar?

 

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)