[PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]
29. GUIA: A MODERAÇÃO
Uma qualidade de todas as virtudes
Quando Santo Tomás de Aquino estuda a quarta virtude cardeal, a temperança, diz que essa palavra pode ter dois sentidos: «Primeiro, o mais geral… Nesse caso, a temperança indica aquela moderação ou comedimento imposto pela razão às ações e paixões humanas, o que é comum a todas as virtudes morais» (Suma Teológica, 2-2, 141,2c).
Ao lado dessa – continua explicando –, há a temperança «por antonomásia», em sentido estrito, que é uma virtude específica, como as outras três virtudes cardeais, e tem como finalidade moderar a atração dos desejos e prazeres sensíveis «que mais fortemente nos atraem» (cf. Ibidem).
Vamos dedicar esta meditação ao primeiro sentido da palavra: à temperança que consiste em “moderar” todas as virtudes, colocando-as no seu “ponto de equilíbrio”, no seu “ponto certo”.
O ponto errado
Acontece muitas vezes que condutas que em si mesmas são boas e têm aspecto de virtudes, deixam de ser virtudes porque perdem o equilíbrio: tornam-se abusos, exageros, absurdos, extravagâncias.
Encontramos muitos exemplos disso na vida cotidiana (às vezes, unidos a desequilíbrios psíquicos). Pense no caso da pessoa que tem a “mania da ordem” (que ela confunde com a virtude da ordem) e inferniza a vida dos outros quando um objeto está três centímetros fora do lugar. Ou nos exageros de outros quanto ao cuidado da saúde, que os levam à hipocondria e ao consumo desmedido de remédios. Ou na conduta do Workaholic, que só vive para o trabalho, e sacrifica a esposa, os filhos e a saúde a esse “ídolo” obsessivo (que nada tem a ver com a virtude da laboriosidade). O exagero, evidentemente, é um “ponto errado”.
Mas é igualmente errado achar que a moderação e o equilíbrio, consistem sempre num meio-termo morno, nem frio nem quente (cf. Ap 3,15): “Não exageremos! – dizem esses moderados – Sejamos razoáveis!”. O que, traduzido, significa quase sempre: “Sejamos medíocres, basta ser morno”. Esse “meio-termo” é o álibi dos covardes, dos egoístas e dos comodistas.
A essas pessoas sem aspirações, de baixa estatura moral, referia-se São Josemaria ao escrever: «Seria um erro pensar que a expressão meio-termo, como elemento característico das virtudes morais, significa mediocridade, como que a metade do que é possível realizar. Esse meio entre o excesso e o defeito é um cume, o mais elevado que a prudência indica» (Amigos de Deus, n. 83).
A virtude é um bem, e a todo bem o seve aplicar-se o que dizia Aristóteles e Santo Tomás comenta: que, em relação ao bem – àquilo que é um bem – «a norma consiste no extremo, no máximo» (Cf. Suma Teológica, 1-2, 64,1).
A virtude é um “cume” ao qual se aspira. Vamos refletir sobre dois tipos de cume.
Os cumes absolutos
Existem valores e virtudes cujo “ponto certo”, o “ponto equilibrado” é sempre o mais elevado possível. A acomodação ao “mais ou menos” é incompatível com eles.
Imagine frases absurdas como as seguintes:
– Respeite a vida alheia “mais ou menos”, só atropele alguns pedestres por mês.
– Tenha um amor “médio” aos filhos. Não os ame muito.
– Seja só meio-responsável e meio-honesto.
–No amor a Deus faça “média”. Nada de fanatismos.
É evidente que essas virtudes amaciadas não podem ser verdadeiras virtudes. Basta escutar a Cristo. Ele ensina que devemos a amar a Deus seguindo a pauta do primeiro mandamento, que já se encontra no Velho Testamento: Amarás com todo o teu coração, toda a tua alma, com todo o teu espírito e com todas as tuas forças (Dt 6,5; Mc 12,29). Diz “com todo”, não “com meio”.
Após falar do amor ao próximo até chegar ao perdão dos inimigos, Jesus indica: Portanto, sede perfeitos, assim como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,49). Dado que é impossível igualar a perfeição de Deus, isso significa que devemos ir sempre além, sem pôr limites à procura da perfeição.
Os cumes relativos
Aqui, a palavra “relativo” não significa “mais ou menos”, um coquetel de “sim” e “não”. O significado é o da frase de Amigos de Deus, n. 83, acima citada: a virtude está no «meio entre o excesso e o defeito: é um cume, o mais elevado que a prudência indica».
Acabamos de ver que os valores absolutos, como o amor, a lealdade, a honestidade, não admitem mais ou menos: neles, sempre devemos aspirar ao máximo.
Mas há outras virtudes que são um bem que pode se estragar por dois extremos: por excesso, e por defeito.
Exemplificando:
– a laboriosidade ergue-se no ponto certo entre os extremos da preguiça e do ativismo desenfreado.
– a coragem, no ponto certo entre a covardia e a temeridade.
– a humildade, no ponto certo entre o orgulho e o rebaixamento falso.
Cada um desses extremos (por excesso ou por defeito) é um precipício em que a virtude pode despencar e morrer. Mas, no meio desses dois abismos, a virtude ergue-se como uma montanha, um pico ao qual devemos aspirar, com a graça de Deus, aquele «cume mais elevado que a prudência indica».
O bom “moderador”
Uma última consideração. Olhemos para o regente de uma orquestra, que tem a função de ser o harmonizador, o “moderador” de todos músicos. Tem a responsabilidade de que cada instrumento dê a nota certa no momento certo, sem omissões, invasões nem estridências.
Não seria bom regente o que permitisse que o trombone encobrisse o solo do violoncelo, ou que as cordas entrassem tarde e descompassadas, ou que os instrumentos de sopro previstos brilhassem pela sua ausência.
De forma análoga, a virtude da moderação exige que sejamos bons regentes de nós mesmos, organizando-nos de modo que todos os aspectos da vida “deem a nota certa no momento certo”, sem tolerar, por exemplo, que a navegação ociosa na Internet afogue a oração, ou que o trabalho abafe o carinho e a dedicação à família.
Questionário sobre a moderação
─ Compreendo que só haverá equilíbrio na minha vida quando souber conjugar harmonicamente, com dedicação e tempo suficientes, todos os meus deveres: religiosos, familiares, profissionais, sociais?
─ Evito a falsa moderação das almas mesquinhas, que se instalam na mediocridade e acham que a atitude mais equilibrada é a de ficar num meio-termo, que não é senão comodismo e tibieza?
─ Considero exagero aspirar, por amor a Deus e ao próximo, a ideais e sacrifícios que ultrapassam a média do que fazem os cristãos aburguesados?
─ Percebo que o maior abuso e exagero que pode haver na minha vida é colocar-me a mim no centro, como medida de todas as coisas, e deixar Deus encostado à margem?
─ Que penso da “radicalidade evangélica” que o Papa João Paulo II propunha como ideal a todos os católicos? Penso por acaso que é um exagero, quer do Evangelho, quer do Papa?
─ Não descobri ainda que as minhas insatisfações e vazios devem-se muito mais à fragilidade das minhas virtudes fracas, do que a alguns sonhos fantasiosos que não consegui realizar?
─ Irrito-me quando vejo que outros acham “normal” – na entrega a Deus, na dedicação ao próximo, no serviço aos pobres e doentes – o que eu acho “excessivo”? Não compreendo que um coração calculista sempre acha exagerada a generosidade dos outros?
─ Compreendo que vale a pena esforçar-me por conseguir o tempo necessário para as coisas de Deus e o serviço do próximo? Deixo para trás coisas que, aos olhos de Deus, são prioritárias?
─ Proponho-me metas concretas de crescimento nos aspectos fundamentais da minha vida? Procuro não esquecer que todos os batizados somos chamados à santidade?
Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)