O valor da castidade

[PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

32.  GUIA: O VALOR DA CASTIDADE

            Uma dimensão importante da temperança

A virtude da castidade pode ser comparada àquele tesouro escondido no campo de que fala Jesus no Evangelho (Mt 13,44). Poucos conhecem ou reconhecem o seu valor. Essa «afirmação jubilosa» do verdadeiro amor cristão – como São Josemaria a chamava – fica encoberta por camadas negativas de terra, de erros e confusão, procedentes da atual visão materialista e hedonista da vida e do corpo humano.

Nesta meditação, mais do que polemizar com a cultura e os costumes hedonistas, vale a pena apresentar a visão cristã – humana e espiritual – dessa virtude, que é uma das faces mais belas da virtude da temperança (cf. cap. 30). «A virtude da castidade – lemos no Catecismo – é comandada pela virtude cardeal da temperança, que tem em vista fazer depender da razão as paixões e os apetites da sensibilidade humana» ( n. 2341).

«A castidade significa a integração correta da sexualidade na pessoa e, com isso, a unidade interior do homem em seu ser corporal e espiritual. A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo corporal e biológico, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na relação de pessoa para pessoa, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher» (Catecismo, n. 2337).

Chamados ao verdadeiro amor

Uma das melhores exposições sobre a castidade é o documento do Conselho Pontifício para a Família, intitulado Sexualidade humana: verdade e significado, aprovado em 1995 por João Paulo II (que recomendo vivamente ler). A seguir reproduzo alguns parágrafos:

«O ser humano, enquanto imagem de Deus, é criado para amar. Criando-o à sua imagem, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. A pessoa é, portanto, capaz de um tipo de amor superior: não o amor de concupiscência, que vê só objetos com que satisfazer os próprios apetites, mas o amor de amizade e oblatividade, capaz de reconhecer e amar as pessoas por si mesmas. É um amor capaz de generosidade, à semelhança do amor de Deus; quer-se bem ao outro porque se reconhece que é digno de ser amado. É um amor que gera a comunhão entre as pessoas…»

»Quando tal amor se realiza no matrimônio, o dom de si exprime, por intermédio do corpo, a complementaridade e a totalidade do dom; o amor conjugal torna-se, então, força que enriquece e faz crescer as pessoas e, ao mesmo tempo, contribui para alimentar a civilização do amor; quando, pelo contrário, falta o sentido e o significado do dom na sexualidade, acontece uma civilização das «coisas» e não das «pessoas»; uma civilização em que as pessoas se usam como se usam as coisas. No contexto da civilização do desfrute, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais.

»É, sem dúvida, um amor exigente. Mas nisto mesmo está a sua beleza: no fato de ser exigente, porque deste modo constrói o verdadeiro bem do homem e irradia-o também sobre os outros”

»Tudo isto exige o autodomínio, condição necessária para se ser capaz do dom de si. As crianças e os jovens devem ser encorajados a estimar e praticar o autocontrole e a renúncia, a viver de modo ordenado, a fazer sacrifícios pessoais, em espírito de amor de Deus, de autorrespeito e de generosidade para com os outros, sem sufocar os sentimentos e as tendências, mas canalizando-os numa vida virtuosa».

O amor autêntico pede o dom de si

            Na Última Ceia, Jesus falava aos apóstolos da grandeza do amor cristão, de que Ele próprio ia ser o máximo exemplo no alto da Cruz: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos (Jo 15,13).

O amor matrimonial cristão tem como modelo  precisamente a entrega de Cristo, como escreve São Paulo: Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela […]. Este mistério é grande – eu digo isso em referência a Cristo e à Igreja (Ef 5,25.32).

Por isso, o documento citado acima comenta que os casados devem «estar conscientes de que no seu amor está presente o amor de Deus e, por isso, também a sua doação sexual deverá ser vivida no respeito de Deus e do Seu desígnio de amor, com fidelidade, honra e generosidade para com o cônjuge e para com a vida que pode surgir do seu gesto de amor. Só dessa maneira ela se pode tornar expressão da caridade».

O cume do amor é a doação de Cristo na Cruz: amou até o fim, diz o evangelho de São João quando inicia o relato da Última Ceia e da Paixão (Jo 13,1). Por amor de Deus, por amor do Reino de Deus, Cristo mostrou um caminho de imitação desse “cume”, que o mundo materialista não consegue entender: a entrega total a serviço de Deus e do próximo no celibato.

Os apóstolos – com visão limitada, ainda sem a luz do Espírito Santo – comentaram que, se não se podia repudiar a mulher, era melhor não casar-se. A isso Jesus respondeu: Nem todos compreendem isso, mas apenas aqueles a quem isso é dado. Falava-lhes assim de uma vocação especial com que Deus presenteia alguns, e que lhes dá a graça para viver o celibato por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda (cf. Mt 19, 9-12).

A muitos custa entender essa vocação. Só a entende quem descobriu o “tesouro escondido”, e procura  vivê-lo. Como dizia São Bernardo, «a linguagem do amor, para aquele que não ama, é como uma língua estrangeira» (In Cant., 69).

Como as asas das águias

Concluímos este guia com uma palavras de São Josemaria:

«Com o espírito de Deus, a castidade não se torna um peso aborrecido e humilhante. É uma “afirmação jubilosa”: o querer, o domínio de si, o vencimento próprio, não é a carne que o dá nem procede do instinto; procede da vontade, sobretudo se está unida à Vontade do Senhor. Para sermos castos – e não somente continentes ou honestos -, temos que submeter as paixões à razão, mas por um motivo alto, por um impulso de Amor.

» Comparo esta virtude a umas asas que nos permitem propagar os preceitos, a doutrina de Deus, por todos os ambientes da terra, sem temor a ficarmos enlameados. As asas – mesmo as dessas aves majestosas que sobem mais alto que as nuvens – pesam, e muito. Mas se faltassem, não haveria voo. Gravai-o na vossa cabeça, decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como uma carga insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor» (Amigos de Deus, n. 177).

No próximo guia meditaremos sobre a luta prática para viver a virtude da castidade.

 

Questionário sobre o valor da castidade

Num ambiente em que o valor humano e cristão da castidade é ignorado pela maioria, que faço, como cristão, para conhecer essa virtude, as razões dessa virtude, as suas manifestações, os seus valores?

─ Compreendo que a visão do sexo de um cristão, que se sabe criado à imagem de Deus, é completamente diferente da que têm aqueles que concebem o ser humano apenas como um amontoado de material biológico sem sentido, surgido cegamente, não se sabe como, da “evolução”?

─ Já li, procurando aprofundar, obras que exponham, com altura filosófica, antropológica e teológica, as razões profundas da castidade? Por que não começo por ler algumas das mais acessíveis, como as seguintes: Rafael Llano Cifuentes: 270 perguntas e respostas sobre sexo e amor; Felipe Aquino: O brilho da castidade e Vida sexual no casamento; T.G.Morrow: O namoro cristão.

─ Evito discutir questões relacionadas com a castidade, quando no ambiente não há pessoas capazes de levá-las a sério?  Pelo contrário, com pessoas sinceramente interessadas, procuro ajudar e orientar para que adquiram formação?

─ Peço a Deus que, além de me ajudar a viver a castidade, me conceda a graça de poder dar alguma contribuição ao que São Josemaria chamava “cruzada de virilidade e pureza”, neste mundo asfixiado pela avalanche do erotismo?

─ Acredito que, quando há o desejo sincero de viver essa virtude, como diz o Catecismo, «o Espírito Santo concede o dom de imitar a pureza de Cristo» (n. 2345)?

─ No namoro, ou no casamento, tenho a preocupação positiva de que os dois vivamos muito unidos aos ideais de amor e castidade que Cristo nos ednsinou, ajudando-nos mutuamente a viver esses ideais?

─ [Para pais] Sinto a responsabilidade de me preparar bem para poder dar pouco a pouco aos meus filhos, já desde a infância, uma orientação sexual positiva, que os torne fortes perante a desorientação que encontrarão no ambiente escolar e social?

─ Participo e colaboro em iniciativas apostólicas cristãs – fiéis à Igreja – sobre orientação familiar, educação dos filhos, namoro, amor matrimonial, etc?

 

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)