O futebol da concórdia

[PERDOAI E SEREIS PERDOADOS – Lc 6,36]

1. O FUTEBOL DA CONCÓRDIA

Durante a guerra civil espanhola (1936-1939), e nos anos agitados que a precederam, São Josemaria Escrivá, mesmo arriscando a vida, não cessou de infundir, tanto quanto lhe foi possível, o espírito cristão de perdão (cf. Mt 5,43-48) em todos os que dele se aproximavam.

O estudante José Manuel Doménech conheceu o Pe. Escrivá no verão de 1932. Naquele ano, as arruaças, lutas e tiroteios já faziam parte da vida cotidiana, e tinham como consequência a detenção pelas forças policiais de muitos exaltados de tendências políticas as mais divergentes.

«Em 10 de agosto de 1932 – diz José Manuel –, participei de um intentona militar, que fracassou poucas horas depois. Um colega e eu fomos detidos e metidos na prisão, na “Cárcel Modelo” de Madrid. O Pe. Josemaria, que jamais teve a menor vacilação para atender espiritualmente as pessoas, por maior que fosse o risco que corria, visitava-nos com frequência. Era admirável que viesse vestido de batina, pois então levar o hábito sacerdotal já significava um perigo grande.

«Aguardava-nos no “locutório” dos presos políticos: uma longa galeria dividida por duas grades, separadas entre si uns dez centímetros. Lá, nas grades daquele locutório, continuava a chamar-me a atenção o caráter espiritual das suas conversas. Insistia-nos na importância do trabalho e do estudo, coisa que, à primeira vista, parecia bem pouco adequada àquelas circunstâncias de encerramento forçoso. Mas falava de tal maneira, descobrindo ante os nossos olhos o valor santificador do trabalho, que produziu efeito imediato. E comecei lá mesmo a ministrar aulas e a estudar francês.

«Durante aqueles meses, uns anarco-sindicalistas do Sul da Espanha, se não me engano de Cádiz, assassinaram vários guardas civis, entre eles o chefe do posto, e proclamaram a “Revolução libertária”. Foram detidos e confinados também na Penitenciária Modelo, numa galeria diferente da nossa.  Diariamente todos os presos, comuns e políticos, descíamos a pátios diferentes para fazer exercício. A nossa surpresa foi grande quando vimos os anarco-sindicalistas no nosso local de passeio. Costumávamos jogar futebol, e continuamos a fazê-lo ante o olhar espantado daqueles inesperados companheiros.

«Na primeira oportunidade, expus ao Padre Escrivá o meu problema: “Como podemos conviver com homens tão contrários aos nossos ideais e à nossa fé?”. A resposta deixou-me pasmado: “Agora vocês têm a oportunidade de falar com eles, conversando com cada um, em particular, com respeito e carinho. Tenham em conta que provavelmente não tiveram pais cristãos como vocês, nem viveram num ambiente como o de vocês. Que teria sido de vocês e de mim se estivéssemos nas suas mesmas circunstâncias?  Não se esqueçam de que recebemos a fé de graça e temos obrigação de difundi-la. Agora têm a oportunidade, nesse pátio, de lhes demonstrar que são cristãos, convivendo e jogando bola com eles como se fossem seus melhores amigos”». E acrescentava: «Ao rezar o Pai nosso, prestem muita atenção às duas primeiras palavras: “Pai”… “nosso”».

O interlocutor do padre ficou gelado. Mas, após refletir, seguiu o conselho recebido. «Depois de uns dias de convivência tensa no pátio, organizamos um jogo de futebol nos termos sugeridos pelo Padre. Eu era goleiro e meus zagueiros dois anarco-sindicalistas. Nunca jogávamos na mesma posição, que variávamos com frequência. Nunca joguei futebol com mais elegância e menos violência. Ao sairmos da cadeia, mantivemos a amizade com alguns deles, e vários se aproximaram da Igreja» .

Trecho do livro de F. Faus, O homem que sabia perdoar (Ed. Indaiá, 2012)