Lutando para perdoar

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

3. LUTAVA PARA CONSEGUIR PERDOAR

Na sequência dos Anteriores posts sobre o espírito de perdão do jovem Pe. Josemaria Escrivá, reúnem-se a seguir alguns exemplos da luta íntima que o futuro São Josemaria procurou manter, para “aprender a perdoar”, com a graça de Deus, no ambiente de lutas, ódios e perseguição religiosa, que dominava Madrid, e a Espanha toda, na década de trinta do século XX.

O operário sujo de cal

No ano de 1930, o Padre apresentou-se um dia na academia Cicuéndez, onde dava aulas, com a batina toda manchada de cal. Grande foi a surpresa dos alunos, que o conheciam como homem que costumava andar vestido dignamente, com a roupa limpa. Um deles, Mariano Trueba, perguntou-lhe o que tinha acontecido e depois o contou aos outros.

O padre Josemaria, como fazia habitualmente, ia de bonde rumo à academia, quando percebeu perto dele um pequeno grupo de operários da construção civil que cochichava, com ar de gozação, olhando para ele. De repente, um desses homens, que estava com o macacão todo manchado de cal, encostou-se nele e esfregou o macacão sujo na sua batina. O padre olhou-o nos olhos, com ar brincalhão, e, antes que o outro pudesse reagir, abraçou-o estreitamente: «Vamos lá, meu filho – disse-lhe –, vamos completar o serviço». Mostrou-lhe depois a batina suja de alto a baixo e comentou-lhe: «Que tal, ficou boa assim?». Mariano Trueba disse que pensou e comentou com seus amigos que o Pe. Josemaria só podia ter feito isso se fosse um santo .

A Espanha negra!

Outro fato, do ano de 1931. Anotou São Josemaria, nos seus Apontamentos íntimos:  «Ao chegar perto da Rua del Cisne, na Rua Fernández de la Hoz, passei por um grupo de pedreiros. Um deles, em tom de deboche, gritou: “A Espanha negra!” Ouvir isso e voltar-me para eles, com ar decidido, foi tudo uma só coisa . Mas lembrei-me do que o padre me tinha dito [refere-se ao seu confessor, o padre Valentín  Sánchez Ruiz, que o aconselhara a falar “de modo suave, sem destempero nem irritação”], e falei de modo suave, sem me zangar. Resultado: deram-me a razão, incluído o do grito, que, com outro deles, me apertou a mão».

Uma barata!

«Outro caso – anotou Josemaria nos seus Apontamentos íntimos–: na Rua de Lista, no fim. Vinha este pobre padre, cansado da novena [uma novena que fazia no cemitério, junto ao túmulo de uma religiosa falecida com fama de santidade]. Avança um pedreiro de uma obra que estão fazendo ali e diz, insultuoso: “Uma barata. É preciso esmagá-la!”. Muitas vezes faço ouvidos surdos aos insultos. Desta vez não pude. “Que corajoso! – disse-lhe –. Provocar uma pessoa que passa ao seu lado sem ofendê-lo! Isso é liberdade?” Os outros fizeram-no calar, dando-me a razão sem palavras. Uns passos mais adiante, outro pedreiro quis de algum modo explicar-me o porquê da conduta do seu companheiro: “Sei que não está certo, mas, sabe?, é o ódio”. E, com isso, achou que justificava o colega».

Josemaria tinha razão, mas não ficou satisfeito consigo mesmo. O próximo episódio vai lançar luz sobre isso.

Barro na cara

Esta anotação pessoal é de princípios de agosto de 1931: «Continua a rajada de insultos aos sacerdotes. Fiz o propósito – renovo-o agora – de calar-me, ainda que me insultem, ainda que me cuspam. Uma noite, na praça de Chamberí, quando ia para a casa de Mirasol, alguém atirou-me à cabeça um punhado de barro, que quase me tapou uma orelha».

E o Pe. Josemaria, o que fez? «Nem piei. Mais: o propósito de que venho falando é apedrejar esses coitados odientos com Ave-Marias. Pensei que o tal propósito era firme, mas anteontem, falhei por duas vezes, armando barulho, em lugar de ter mansidão».

Como vemos, lutava, melhorava e rezava. Esforçava-se por aprender a perdoar. Saboreou vitórias e amargou derrotas; mas ele queria amar, mesmo sendo odiado, e isso se percebe no que anotou em seus Apontamentos íntimos, semanas depois, em 18 de setembro de 1931:

«Tenho de agradecer ao meu Deus uma notável mudança: até há pouco tempo, os insultos e as chacotas que, por ser sacerdote, me dirigiam desde a vinda da República antes (raríssimas vezes) tornavam-me violento. Decidi rezar por eles uma Ave-Maria à Santíssima Virgem, quando ouvisse grosserias ou indecências. Assim o fiz. Custou-me. Agora, ao ouvir essas palavras ignóbeis, regra geral, fico comovido, considerando a desgraça dessa pobre gente que, se procede assim, julga fazer uma coisa honesta, porque abusando da sua ignorância e das suas paixões, a fizeram crer que o sacerdote, além de ser um parasita vadio, é seu inimigo, cúmplice do burguês que o explora »..

Um ódio remanescente

Por fim, um último episódio, muito pouco posterior à guerra, ocorrido nos anos quarenta do século passado, que mostra como mesmo depois da contenda ainda fumegavam rescaldos dos mesmos preconceitos acumulados durante a década de trinta.

Um belo dia, o Pe. Josemaria teve de tomar um táxi em Madrid. Como era habitual nele, puxou conversa com o taxista. Falou-lhe cordialmente de Deus, da beleza do trabalho santificado, da amizade e do espírito de diálogo e entendimento entre todos, mesmo que pensem de maneira diferente. Sua palavra era convincente, cativante. O taxista mantinha-se em silêncio, inexpressivo. Quando chegaram ao destino e o padre estava para descer, o motorista abriu a boca e perguntou:

–“Ouça. Onde é que o senhor esteve durante a época da guerra?”

– “Em Madrid”, respondeu-lhe o sacerdote.

– “Que pena que não o tenham matado”, replicou o motorista.

O Padre Josemaria perdoou-o e, para que visse que não lhe guardava nenhum rancor, tirou o dinheiro que trazia no bolso, entregou-lhe todo e disse-lhe:

– “O senhor tem filhos?” Vendo-o fazer um gesto afirmativo, acrescentou:

– “Fique com o troco. Compre uns doces para a sua mulher e os seus filhos”.

 

Trecho do livro de F. Faus O homem que sabia perdoar (Ed. Indaiá 2012)