Vencer o mal com o bem

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

6. «DESEJO QUE SE CONVERTAM…»

Após a aventura da travessia dos montes Pirineus, cheia de perigos e sofrimentos – só o resumo dela daria um impressionante relato –, São Josemaria chegou à França e dali passou a Pamplona (na zona não comunista) em 17 de dezembro de 1937.

Naquela cidade, capital de Navarra, com o apoio do Bispo, seu velho amigo, ao mesmo tempo que normalizava a sua vida sacerdotal, foi recebendo ou confirmando notícias dolorosas sobre padres amigos que haviam sido assassinados. Já antes da guerra, o Pe. Jose Maria Somoano, o primeiro sacerdote que se uniu a São Josemaria no Opus Dei, foi envenenado. Um dos seus amigos mais chegados, o Pe. Pedro Poveda (canonizado por João Paulo II), fundador da Instituição Teresiana, um instituto feminino que trabalha com educação, foi fuzilado, e outro grande amigo, o Pe. Lino Vea-Murguía, que fora detido em 16 de agosto de 1936, foi abandonado morto, depois de ser assassinado, junto do muro do Cemitério de Leste de Madrid. Fora também massacrado um padre que foi seu padrinho de batismo.

A alguns desses fatos referiu-se mais tarde, respondendo à pergunta de uma mulher que havia sofrido uma cruel perseguição no seu país.

O seu padrinho de batismo, o Pe. Mariano – explicava – «era viúvo e mais tarde tornou-se sacerdote. Foi martirizado quando tinha sessenta e três anos. Eu me chamo Mariano (um dos seus nomes de batismo) por causa dele. E a freirinha que me ensinou as primeiras letras no colégio – que era amiga da minha mãe, antes de se tornar freira – foi assassinada em Valência. Isso … enche de lágrimas o meu coração… Estão errados. Não souberam amar.

»Lembrei-lhe essas coisas para a consolar, minha filha, não para falar de política, porque eu, de política, não entendo, nem falo, nem falarei enquanto Nosso Senhor me deixar neste mundo, pois não é esse o meu ofício. Mas diga aos seus, da minha parte, que se unam a você e a mim para perdoar».

Naqueles tempos de guerra e após guerra, quando tantas feridas estavam infeccionadas de rancor, o Pe. Josemaria só falava de perdoar. Sabia que o ressentimento resseca o coração e esteriliza o amor.

Neste mesmo sentido, vale a pena citar mais um fato significativo.

Numa das suas viagens, em abril de 1938, o Pe. Josemaria encontrou no trem um oficial nacionalista dominado por sentimentos rancorosos contra os adversários. Depois, em carta a seu filhos de Burgos, escrita de Córdoba, o Padre contava-lhes: «Um alferes [um subtenente], que sofreu extraordinariamente na sua família e nos seus bens materiais com a perseguição dos vermelhos, anuncia-me as suas próximas vinganças. Digo-lhe que eu sofri como ele, nos meus e nos meus haveres, mas que desejo que os vermelhos vivam e se convertam… As palavras cristãs chocam-se, na sua alma nobre, com aqueles sentimentos de violência, e vê-se que reage bem… ».

Adaptação de um trecho do livro de F. Faus “O homem que sabia perdoar” (Ed. Indaiá)