Maria Madalena

[NOVE DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

PRIMEIRO DIÁLOGO: MARIA MADALENA

(João, 20, 1-18)

Do vazio à esperança

D 1.-  Quando o Domingo de Páscoa começava a clarear,  um grande silêncio envolvia o descampado onde se encontrava o túmulo de Jesus. Só duas coisas poderiam chamar ali a atenção de um passante solitário: uma grande pedra circular – que servira para fechar verticalmente a entrada do sepulcro – fora rolada e estava posta a um lado; e perto da entrada escancarada, uma mulher, em pé, soluçava baixinho, com um leve estremecer de ombros, de modo que os primeiros raios de sol faziam cintilar as lágrimas que lhe escorriam pelas faces.

Era Maria Madalena. A aparição de Jesus a Santa Maria  Madalena é a primeira que contam os Evangelhos. Por isso, neste nosso primeiro diálogo, vamos contemplá-la com calma, ao mesmo tempo em que pedimos a Deus a graça de tirar desta meditação uma primeira lição de esperança. Vejamos então o que nos dizem os Santos Evangelhos.

D 2.  Entretanto – escreve São João –, Maria conservava-se do lado de fora, perto do sepulcro, e chorava. Era a segunda vez, naquele amanhecer de domingo, que Maria ia até ao sepulcro de Jesus, incansável no seu empenho por  prestar uma última homenagem a nosso Senhor.  Ajudada por outras santas mulheres, queria ungir-lhe o corpo – que na sexta-feira santa só tinham podido ungir às pressas e de modo incompleto – com os aromas que haviam preparado.

D 3.  O que aconteceu foi o seguinte. Primeiro, Maria Madalena chegou ao túmulo juntamente com Maria, mãe de Tiago e Salomé, suas amigas. Estas últimas fugiram, trêmulas e amedrontadas, ao verem que o sepulcro estava vazio. Maria, porém, foi correndo à procura de Pedro e João, para lhes dizer, quase sem fôlego: Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram. Espanto geral! Os dois Apóstolos saem em disparada e ela vai atrás.

Quando chegam ao túmulo, entram, e ficam perplexos ao ver que, além de estar vazio, os panos que tinham envolvido o cadáver de Jesus permaneciam intactos, com o mesmo formato que tinham quando envolviam o corpo de Cristo, só que agora aplanados, como se o corpo do Senhor os tivesse atravessado, esvaziando-os sem nem mesmo tocá-los; e que o sudário que lhe cobrira a cabeça estava cuidadosamente enrolado, também intacto, a um lado.

Pedro e João, emocionados e perplexos, sentiram as pernas tremer e o coração rebentar, e voltaram correndo ao Cenáculo para avisar os outros. Maria, porém, não arredou pé de lá. Não queria ir-se embora. Queria encontrar Jesus, queria honrá-lo com carinho, mesmo que fosse apenas um pobre cadáver dilacerado. Por isso estacou ali, imóvel, e ali nós a contemplamos chorando.

D 2.- As suas lágrimas eram a expressão do seu amor…

D 4.-  São Gregório Magno, o grande Papa do século sexto, tem um comentário muito bonito a este respeito: “E nós temos que pensar – diz ele – na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo quando os apóstolos dele já voltavam. Buscava a quem não encontrava; chorava procurando-o e, consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando… Começou a buscar, e não o encontrou; perseverou no seu querer, e achou-o; de tal forma cresceram os seus desejos, e tanto se dilataram, que acabaram alcançando o que buscavam”.

D 1.-  Acho que a vida de Maria Madalena poderia ser definida assim: o Amor com maiúscula, ou seja, o Amor de Deus, procurou-a e salvou-a; ela correspondeu a esse Amor e não se cansou, por sua vez, de procurá-lo, de modo que toda a sua vida foi uma busca ardente e um  aprofundamento nesse Amor, como o foi a vida de muitos grandes santos… Mas tem havido tantas confusões, tantas mentiras e interpretações esquisitas sobre o amor de Maria Madalena, que vale a pena lembrar a sua verdadeira história. Poderia fazer-nos você um breve resumo…?

 

D 3.- Com prazer, pois vale a pena, tendo em conta que a confusão  – na maior boa fé, aliás – dura há séculos. Para começar, é muito importante lembrar quem não era Maria Madalena. Os melhores comentaristas do Evangelho, já desde os tempos de Santo Agostinho, alertam-nos para que não a confundamos com outras duas mulheres do Evangelho. Uma é aquela pecadora pública que certa vez banhou os pés de Jesus com lágrimas de arrependimento e os ungiu com bálsamo; e a outra é Maria de Betânia, a irmã menor – pura e singela – de Marta e Lázaro, que também derramou perfume sobre a cabeça e os pés de Jesus pouco antes da Paixão, num gesto de fina cortesia, muito oriental.

D 1.-  Além disso, acho interessante frisar que o Evangelho nunca disse que Maria Madalena fosse uma prostituta ou que tivesse uma vida leviana. Aliás, afirma algo muito pior. Diz que, dela, Jesus tinha expulsado sete demônios. Isto é muito sério. Bem sabemos que o número sete – na linguagem bíblica – significa muitos, uma multidão. Pois é isso que dela nos dizem São Marcos e São Lucas.

D 2.- O que é algo terrível. Causa arrepios. Só o podemos compreender se tivermos consciência de que o demônio – como ensina a Bíblia – é, acima de tudo, o pai da mentira, do orgulho e do ódio. Como deve ter sido espantosa a vida dessa pobre mulher! Um poço de ódio, de raiva, de desconfiança, de mentira, de rancor… Pode haver sofrimento maior? Um verdadeiro inferno! Uma mulher incapaz de amar, incapaz de alegrar-se, incapaz de vibrar com a  verdade, de admirar a beleza e de saborear o bem; incapaz de perdoar, incapaz de sorrir com carinho para os outros…!

D 3. – Você falou certo. Um coração afastado de Deus e entregue ao diabo – ao pecado – é como um poço escuro e fundo. Lá não pode penetrar um raio de luz divina. A pessoa chega a tornar-se incapaz de acreditar que o amor, a beleza e a bondade existam. Só conhece as trevas em que se afunda… Faz-me lembrar aquele personagem estarrecedor do famoso romance de Joseph Conrad, “O Coração das trevas”, que morre dizendo: “O horror! O horror!”

D 1.-  Será que, de certa maneira, você não acaba de pintar – com traços ampliados – o retrato da tristeza que há hoje em dia em muitos corações? Corações eternamente insatisfeitos. Pessoas que podem cantar, gritar, possuir, experimentar, dançar, agitar-se, embriagar-se de álcool, sexo, drogas e emoções radicais, mas que por dentro estão sombriamente vazias. Vivem instaladas no “coração das trevas”… E, mesmo sem o saberem, procuram, procuram… Percebem que lhes falta o essencial, algo que passaram a vida buscando  sem encontrar. Sentem-se como alguém que se esfalfou tentando apanhar a água da fonte com uma escumadeira… Atormenta-as, então, uma ânsia de infinito que as queima por dentro, mas que nenhum tesouro do mundo e nenhuma loucura do mundo e nenhum prazer do mundo conseguem satisfazer…  Eu diria que estão torturadas por uma esperança distorcida, por um infinito desejo de felicidade, que corre expectante atrás do vazio… É lógico que essa esperança distorcida termine no desespero. O fundo do fundo da vida delas é a ausência…, é o vazio…, e morrem sem saber por quê…

D 4.-  É claro como o sol que sofrem da ausência de Deus! Essas pessoas – como Madalena antes de encontrar Jesus – não sabem que o seu mísero coração está gritando aquelas palavras de um poema de Tagore: «Tenho necessidade de Ti, só de Ti! Deixa que o meu coração o repita sem cansar-se. Os outros desejos que dia e noite me envolvem, no fundo, são falsos e vazios. Assim como a noite esconde em sua escuridão a súplica da luz, na escuridão da minha inconsciência ressoa este grito: “Tenho necessidade de Ti, só de Ti!”. Assim como a tempestade está procurando a paz, mesmo quando golpeia a paz com toda a sua força, assim a minha revolta bate contra o teu amor e grita: “Tenho necessidade só de Ti!”».

D 3.-  Assim estava Maria Madalena, quando um belo dia – de surpresa – Jesus foi buscá-la. Não conhecemos os detalhes. Só sabemos que Jesus teve compaixão dela, e dela expulsou sete demônios, como recordávamos acima. Agora eu convido-os a pensar. Já imaginaram o que deve ter sentido aquela alma, ao encontrar-se livre do Maligno e inundada pelo dom da graça, conduzida por Jesus à descoberta deslumbrante de Deus? Que deve ter sentido quando experimentou – quiçá pela primeira vez na vida – a pureza e a grandeza do Amor (pois Deus é Amor…)?

D 2.-  Eu imagino Maria como uma mulher que, de repente, “respira”, absorve Deus até ao fundo da alma, como uma aragem do Céu que a cria de novo; uma mulher que, pela primeira vez, se apercebe de como é bela a criação, todas as criaturas, transfiguradas pela presença do Salvador. Vejo o seu coração como uma brasa incandescente – deixem-me fazer poesia! -, inflamada pelo amor que se derrama do Céu sobre o mundo através do Coração de Jesus.

D 4.-  É natural que, a partir do dia em que o antigo coração das trevas foi inundado pela fé, pela esperança e pelo amor, começasse a seguir Jesus e a servi-lo, com uma dedicação abnegada e total, como conta o Evangelho, juntamente com outras santas mulheres. Seguir Cristo tornou-se, a partir daquele momento, a razão – toda a razão – da sua existência. Servir Jesus passou a ser para ela um puro amor, que cumulava de plenitude e sentido o seu pensar, sonhar e viver.

D 3.-  Por isso, quando a avalanche de brutalidades da Paixão, o ódio implacável dos inimigos, desabou sobre Cristo e o reduziu a um cadáver ensanguentado na Cruz, Maria Madalena – grudada à Mãe do Salvador – agarrou-se à Cruz como quem se agarra à vida. Viver sem Jesus era para ela – como para todos os corações que encontraram Cristo de verdade – a vertigem de um vazio de morte. Essa é a Madalena que hoje vemos chorar junto do sepulcro do Senhor. Essa a razão de que só pense em buscar o meu Senhor

D 1.-  E assim aconteceu que…

D 3.-  Aconteceu, sim, algo comovente…, e que faz aflorar o sorriso aos  lábios. Recordemos o Evangelho: Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco… Eles perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?” Ela respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”. 

D 4.-  Vocês veem? Madalena é toda “procura”. Encarnava aquelas palavras de Isaías: A minha alma desejou-Te, meu Deus, durante a noite e, dentro de mim, o meu espírito procurava-Te. Assim buscava Jesus…

D 3.-  O Evangelho continua, e agora vem o melhor: Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”

D 4.-  Eu vibro ao ver Jesus indo ao encontro daquela pobre criatura, como o pai que desfruta por dentro ao pensar na surpresa maravilhosa que preparou para o filho. Ao longo destes diálogos, vamos ver constantemente algo de muito sugestivo, e que se pode exprimir assim: depois da ressurreição, Jesus é mais humano ainda, se possível, do que quando andava com os seus pelos caminhos da Galiléia e da Judéia… Torna-se mais próximo, afetuoso, acessível… E – atentem para isso! –  aparece com uma nova carga de alegria: diverte-se alegrando os seus amigos com atitudes cheias de “bom humor”, de um divino e delicioso bom humor.

D 3.-  Como o que agora presenciamos. Quem procuras? ­– pergunta Jesus à Madalena –, e ela, supondo que fosse o jardineiro, respondeu: “Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o irei buscar”.  Jesus não quer prolongar mais a aflição, e manifesta-se abertamente: Disse-lhe Jesus: “Maria!”  O Evangelho aqui balbucia, só sabe repetir a exclamação que saiu daquela Maria estremecida de gozo, com os olhos arregalados e o coração prestes a explodir: Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Rabôni!”, que quer dizer “Mestre!”… Nesse exato momento, Jesus a olha com ternura e a “nomeia” sua primeira mensageira da alegria da Páscoa:  Não me retenhas…Vai aos meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, mau Deus e vosso Deus. Maria Madalena correu (nesse dia, realmente, não parou de correr…) para anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor e contou o que Ele lhe tinha falado. 

D 1.-  Agora, para Madalena, a vida voltava a ser Vida, com maiúscula. O futuro era radiante: o reencontro com Jesus encheu de novo o vazio da alma com a luz cálida e inextinguível da esperança. E eu diria: “Pensemos nos nossos vazios. Será que a lição da Madalena não nos diz nada?”  Todo o vazio, toda a amargura, é uma ausência, a ausência de Deus. Pode ser a terrível ausência provocada pelo pecado, pelos sete demônios, mas pode ser também a ausência de uma alma boa que perde Deus de vista, fica morna na fé, e acha então inexplicáveis muitas tristezas que a atormentam e que têm uma perfeita explicação: são a ausência do “amor” de Deus na alma, são a frieza de quem tem Jesus ao lado (sempre está ao nosso lado, sempre nos procura, como fez com Madalena) e não o enxerga, são a amargura esquizofrênica de quem se queixa de Deus, justamente na hora em que Deus mais a ajuda… Como Madalena, que pensava que Jesus (aquele Jesus que não reconheceu) lhe tinha roubado Jesus… Não acontece algo disto conosco?

D 3.-  Sim, diante de muitas dificuldades, lutas ou cruzes que Deus nos envia para o nosso bem, pensamos tolamente que Deus nos abandonou ou se afastou de nós. Que retirou a sua mão e não nos ajuda com a sua graça. E é quando está mais próximo.

D 1.- Acho que hoje podemos terminar o nosso diálogo com este pensamento, que é para guardar bem guardado e ruminar bem ruminado: “Toda a tristeza, toda a amargura, toda a revolta, no fundo, é uma ausência de Deus (maligna ou benigna, mas nunca boa)”. Por isso, decidamo-nos a procurar Deus, a procurar Jesus com toda a nossa alma, como Madalena: com a mesma determinação com que ela o procurou. –”Onde está?” – diremos a nós mesmos – e responderemos com a decisão de aumentar o nosso aprofundamento na fé, a nossa leitura e meditação do Evangelho e das riquezas da doutrina cristã… E, se nos perguntarmos: – “Como achá-lo?”,  deveremos responder:  – “Como Madalena, que busca, pergunta, procura e não para até encontrar”, ou seja, como Jesus nos ensinou: rezando, pedindo, orando sem cessar, pois a sua promessa não falha: Eu vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e vos abrirão.

Adaptação de um capítulo do livro de F. Faus: Cristo, minha esperança (Ed. Quadrante)